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Dólar e euro valem a mesma coisa pela primeira vez em 20 anos

A convergência entre o valor do dólar e do euro começou em maio deste ano, alcançando a paridade nesta terça pela primeira vez desde 2002

 (Thomas Trutschel/Getty Images)

(Thomas Trutschel/Getty Images)

Carlo Cauti
Carlo Cauti

12 de julho de 2022, 08h37

O dólar e eu euro alcançaram a mesma taxa de câmbio nesta terça-feira, 12, pela primeira vez desde 2002.

A convergência entre o valor do dólar e do euro começou em maio, quando o euro chegou em sua máxima do ano, cotado a US$ 1,22, alcançando a paridade nesta terça.

Mas não é apenas o euro que caiu: o dólar está se valorizando também em relação a outras moedas.

No caso do iene, por exemplo, o câmbio com o dólar chegou em sua máxima em 24 anos.

Mas o câmbio da moeda norte americana está se valorizando desde o começo do ano em relação a um indicador composto pelas seis principais moedas globais.

De janeiro até hoje, o dólar subiu:

  • 16,2% sobre o iene japonês,
  • 14,7% sobre a coroa sueca,
  • 12% sobre a libra esterlina,
  • 11,4% sobre o euro
  • 10,3% sobre o dólar neozelandês

No caso do real, que não faz parte desse conjunto de moedas, o dólar até perdeu força desde o começo do ano, passando de um câmbio de R$ 5,70 em janeiro para os atuais R$ 5,38, mas chegando em uma mínima de R$ 4,62 em maio.

Câmbio do euro influenciado pela crise energética

Entre as principais razões que levaram para essa paridade no câmbio entre dólar e euro está a crise energética que a Europa está vivenciando.

O bloqueio do gasoduto submarino North Stream 1, que transporta gás da Rússia para a Alemanha, pesou na desvalorização do euro.

A infraestrutura está paralisada por causa de manutenção de rotina. Entretanto, por causa da guerra na Ucrânia e das tensões entre Europa e Rússia, os governos europeus estão temendo que, após os 10 dias previstos para os trabalhos de manutenção, Moscou não volte a fornecer gás.

Uma eventual crise do gás na Europa significaria uma recessão econômica, que iniciaria na primeira economia europeia: a Alemanha.

Hoje a economia alemã é fortemente dependente do gás russo, responsável por cerca de 50% de sua produção energética total.

Revisão de expectativas sobre atuação do BCE

Esse medo de uma recessão na Europa reduziu ainda mais as expectativas sobre a próxima atuação do Banco Central Europeu (BCE).

Se há algumas semanas os mercados aguardavam uma alta das taxas de juros em 25 ou 50 pontos-base na próxima reunião do dia 21 de julho, agora o mercado considera provável apenas uma alta de 25.

Por coincidência, os 10 dias de manutenção do gasoduto North Stream 1 terminam exatamente no dia 21 de julho.

É provável que o BCE aguarde o desfecho desse caso para, somente em seguida, tomar decisões de política monetária que poderiam prejudicar ainda mais a já frágil economia europeia.

O mercado continua acreditando em uma alta de 50 pontos-base em setembro, mas essas possibilidades estão cada vez mais reduzidas.

Considerando que a inflação da União Europeia está beirando os dois dígitos, os mercados consideram necessária uma alta nos juros.

Por sua vez, o Federal Reserve (Fed) já iniciou uma política monetária restritiva no começo de 2022. O BCE ainda mantém os juros negativos.

E esse diferencial das taxas de juros também está pesando no câmbio entre euro e dólar, pois atrai fluxos de capitais em direção dos EUA, em detrimento do câmbio da moeda única da União Europeia.

Economia dos EUA em situação diferente

Outra razão pela qual o dólar está ganhando força em relação ao euro é a condição atual da economia americana, completamente diferente da europeia.

Os Estados Unidos não dependem do gás russo. Ao contrário, são completamente autônomos do ponto de vista energético.

Além disso, os dados mais recentes sobre o mercado de trabalho americano, divulgados na última sexta-feira, 8, mostraram a resiliência da economia americana. E isso poderia ter um impacto sobre a inflação, cujos dados serão divulgados nesta quarta, 13.

Por isso, o mercado espera com quase certeza que o Fed aumente novamente as taxas de juros em mais 75 pontos base na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), previsto par o final de julho.

Entretanto, parte dos analistas acreditam que esses fortes aumentos das taxas do Fed, mais cedo ou mais tarde, levarão para uma recessão também nos EUA. Mas consideram que essa contração da economia americana ocorrerá somente após uma eventual crise europeia.

Força do dólar em nível mundial

Mas tudo isso não é suficiente para explicar a força do dólar em relação a todas as moedas do mundo.

Existem fatores específicos em cada país que define a "fraqueza" de suas moedas nacionais em relação ao dólar.

No Brasil, por exemplo, a instabilidade política e questões ligadas as contas públicas. No Japão, por sua vez, o mercado está apostando em políticas monetárias mais acomodatícias por um tempo maior, após o resultado da eleição do último domingo, 10.

Mas existe também há um elemento mais geral que sustenta o dólar: o mercado começa a considerar cada vez mais provável uma recessão global.

E isso leva para uma fuga de capitais em direção do dólar, que continua sendo considerado um "porto seguro" e uma "moeda refúgio".

Com isso, o dólar está se valorizando em relação a todas as outras moedas do mundo.

Possível reviravolta do dólar

Mas todas essas previsões sobre a força da economia americana poderiam ser prejudicadas pela próxima temporada de resultados trimestrais das empresas listadas nos EUA.

Nessa quinta-feira, 15, os bancos americanos começarão a divulgar seus resultados, estreando, como de costume, a temporada dos balanços.

O mercado de olho nessas contas, pois elas serão o teste decisivo sobre a real resistência da economia dos EUA. E isso poderia mudar de vez esse cenário de "super dólar".