Mercados

As ações castigadas pela mão pesada do governo

Analistas reclamam da intervenção exagerada nas estatais; Petrobras é o caso mais emblemático


	Desde o começo do mandato da presidente Dilma, em janeiro de 2011, os papéis da Petrobras desvalorizaram cerca de 20%
 (Palácio do Planalto/Facebook)

Desde o começo do mandato da presidente Dilma, em janeiro de 2011, os papéis da Petrobras desvalorizaram cerca de 20% (Palácio do Planalto/Facebook)

Karla Mamona

Karla Mamona

Publicado em 11 de agosto de 2014 às 17h47.

São Paulo - O mau humor do mercado financeiro com o atual governo tem ficado evidente desde o início do ano, quando começaram as divulgações de pesquisas eleitorais. Em linhas gerais, sempre que houve queda da presidente Dilma Rousseff nas intenções de voto, o mercado especulou sobre uma possível mudança de governo e foi faminto às compras de ações de estatais.

Para boa parte dos agentes de mercado, o motivo da insatisfação com o governo atual é excesso de intervenção em alguns setores nos últimos anos. “O mau intervencionismo tem prejudicado principalmente as estatais na Bolsa”, afirma o estrategista da AZ FuturaInvest, Adriano Moreno. 

Para o consultor de empresas e presidente da Strategos, Telmo Schoeler, as estatais sofrem por não seguirem uma racionalidade econômica. “O governo não está preocupado com o desempenho das companhias. Ele usa as estatais para fins políticos mesmo – usa como palanque eleitoral”, opina Schoeler.

O vai e vem da Petrobras 

A Petrobras é unanimidade entre os analistas que listam as empresas recentemente prejudicadas pelo controle de preços. Desde o começo do mandato da presidente Dilma, em janeiro de 2011, os papéis da companhia desvalorizaram cerca de 20%. Em janeiro de 2011, a ação preferencial valia 24 reais e, atualmente, negocia em torno dos 19 reais. 

De acordo com o economista e sócio da Compliance Comunicação Empresarial, Clodoir Vieira, boa parte desta desvalorização tem origem da ausência de reajuste do preço da gasolina, visando controlar a inflação.

“A Petrobras é usada como ferramenta do governo para controlar a inflação e isso tem feito com que o lucro da companhia venha caindo ano a ano", lembra Vieira.

O último balanço divulgado pela empresa revelou que no segundo trimestre deste ano, o lucro líquido recuou 20%, em relação ao mesmo período do ano passado, ficando em 4,95 bilhões de reais.

Além disso, diversas companhias do setor sucroalcooleiro foram afetadas pela mão pesada do governo na condução de preços, conforme lembra o economista. “Este ano, mais de 10 usinas encerraram as suas atividades. A crise no setor é a pior dos últimos 30 anos. Trata-se de uma intervenção em toda a cadeia”, explica.

Preço anormal

Os papéis preferenciais da Petrobras registram ganhos de 48% desde fevereiro, uma herança das fortes altas resultantes da especulação com as eleições. Para os analistas do HSBC, Luiz Carvalho e Filipe Gouveia, há um excesso de otimismo por parte dos investimentos no que se refere a possíveis mudanças nas políticas governamentais.

“Os resultados operacionais dos últimos trimestres não sustentam essa esperança. Acreditamos que os resultados do segundo trimestre são uma prova dos fatos, apoiando a opinião de que o desempenho recente da ação não foi motivado pelos fundamentos da empresa”, afirmaram em relatório enviado. 

Os analistas acreditam que o mercado precificou uma melhoria na perspectiva para a companhia nos próximos anos, com base na possível mudança na abordagem do governo em relação à empresa e, consequentemente, numa redução no nível negativo de interferência, principalmente no que se refere à política de preços dos combustíveis.

Elétricas

As distribuidoras de energia também estão na lista das companhias vítimas do represamento de preços. Elas foram prejudicadas por uma medida provisória (MP) publicada há dois anos que tratava da renovação das concessões de energia elétrica e estabelecia a redução do valor das tarifas.

A MP 579 estabelecia a renovação automática das concessões de energia mediante uma expressiva redução nas tarifas. Com a medida, as ações do setor elétrico chegaram a cair entre 20% e 30% em 2012. A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) desabou 40% na Bovespa.

Depois da publicação da Medida Provisória, o valor dos papéis passou de R$ 19,32 para R$ 11,87. 

 

O estrategista da AZ FuturaInvest, Adriano Moreno, destaca que minoritários da Eletrobras entraram com representação no Ministério Público Federal contra a União e a Comissão de Valores Mobiliários. 

Eles alegam que o governo, como acionista majoritário da Eletrobras, teria votado em conflito de interesse.

Após a aprovação da renovação antecipada das concessões, a Eletrobras recebeu uma indenização inferior à prevista inicialmente. A diferença entre os valores previstos e efetivamente pagos superam os R$ 17 bilhões.

Bancos

O governo também forçou a redução dos spreads bancários (diferença entre a taxa de captação e aplicação dos juros pelos empréstimos) por meio do Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, fazendo com que os bancos privados fossem forçados a seguir o mesmo caminho. 

“A decisão pode ser boa para os consumidores, mas não para o banco. As empresas públicas sofrem esta interferência, o interesse do governo não é interessa dos acionistas”, finaliza Moreno.

A ação do Banco do Brasil passou de 23,44 reais de abril de 2012, quando governo pressionou para redução do spreads, para 17 reais em julho do mesmo ano.

 

 

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