Poucas saídas no Vale do Silício dizem tanto sobre o momento da indústria de tecnologia quanto a de Yann LeCun. Não se trata de mais um executivo trocando de empresa nem de um cientista em busca de um novo desafio. LeCun é um dos arquitetos da inteligência artificial moderna — vencedor do Prêmio Turing, equivalente ao Nobel da computação — e passou mais de uma década como cientista-chefe de IA da Meta, cargo criado sob medida para ele. Ainda assim, deixou a empresa de forma ruidosa, pública e profundamente simbólica.
O estopim foi a frustração de Mark Zuckerberg com o ritmo da corrida da IA. Enquanto OpenAI, Google e Anthropic avançavam com modelos cada vez mais poderosos, a Meta via o Llama — sua principal aposta em modelos de linguagem — perder tração no debate público e técnico. A resposta de Zuckerberg foi típica do seu estilo: grande, rápida e cara. Em vez de apostar na estrutura existente, ele desembolsou US$ 14 bilhões para comprar uma fatia relevante da Scale AI e trouxe para dentro da Meta seu jovem fundador, Alexandr Wang, então com 28 anos, para liderar um recém-criado “laboratório de superinteligência”.
Foi aí que a crise deixou de ser apenas estratégica e se tornou pessoal.
Na nova hierarquia, Wang passou a ser o chefe direto de LeCun. Um pesquisador com mais de 40 anos de carreira, responsável por avanços fundamentais do deep learning, passou a responder a um executivo cuja empresa não desenvolve modelos de IA, mas fornece dados rotulados para treinar sistemas de terceiros. Para LeCun, isso não era apenas uma mudança organizacional, era um erro conceitual.
Em entrevista recente ao Financial Times, o cientista não economizou palavras. Disse que Wang era “jovem” e “inexperiente”, afirmou que ele “não sabe como pesquisa funciona” e deixou uma frase que rapidamente circulou por laboratórios e grupos de pesquisadores ao redor do mundo: “Você não diz a um pesquisador o que fazer. E certamente não diz a um pesquisador como eu o que fazer”.
O conflito, no entanto, vinha de antes. LeCun nunca escondeu sua visão crítica sobre o caminho dominante da indústria. Enquanto a maioria das big techs aposta quase tudo em modelos de linguagem de grande escala (LLMs), ele sustenta há anos que essa abordagem tem limites estruturais. Para LeCun, prever a próxima palavra não equivale à inteligência. O futuro, defende, está nos chamados “modelos de mundo”, sistemas capazes de compreender causalidade, espaço físico e a dinâmica do mundo real, algo muito além do texto.
Dentro da Meta, essa posição virou um incômodo. Executivos queriam que ele moderasse o discurso, evitasse críticas públicas e ajudasse a reforçar a narrativa de que os LLMs levariam, naturalmente, à inteligência artificial geral. LeCun se recusou.
A tensão explodiu de vez quando vieram à tona problemas nos benchmarks do Llama 4. Segundo o próprio LeCun confirmou, a Meta teria usado modelos diferentes em testes diferentes para inflar resultados comparativos — algo que parte da comunidade científica já suspeitava desde abril de 2025. Internamente, a reação de Zuckerberg foi dura: ele teria perdido a confiança nas equipes envolvidas e esvaziado parte do time de IA generativa.
Para LeCun, aquele foi o ponto de não retorno. Pouco depois, anunciou sua saída e o lançamento da AMI Labs (Advanced Machine Intelligence), uma nova empresa focada exatamente naquilo que a Meta deixou de priorizar: pesquisa fundamental em inteligência artificial além dos LLMs. A startup já nasce mirando uma avaliação de US$ 3 bilhões e promete apresentar uma primeira versão funcional de seus sistemas em cerca de um ano.