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O robô chinês de US$ 66 bilhões que derreteu US$ 30 bilhões em uma semana

Estreia bilionária da Unitree em Xangai reacende debate sobre se o hype dos robôs humanoides já descolou da realidade técnica do setor

Unitree: ações operam em queda após IPO ( HECTOR RETAMAL/Getty Images)

Unitree: ações operam em queda após IPO ( HECTOR RETAMAL/Getty Images)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 25 de agosto de 2026 às 13h59.

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A Unitree, maior fabricante chinesa de robôs humanoides, virou em uma semana o exemplo mais recente de como a euforia em torno da robótica com inteligência artificial (IA) pode se desconectar rapidamente dos fundamentos técnicos e comerciais do setor.

Depois de estrear na bolsa de Xangai disparando mais de cinco vezes, a empresa perdeu cerca de 45% do valor em poucos dias — um tombo que reacendeu o debate sobre até que ponto a tecnologia por trás dos robôs humanoides já justifica o tamanho do entusiasmo do mercado.

A companhia estreou no mercado STAR, de Xangai, na quarta-feira, 19 de agosto, precificando sua oferta em 150,80 iuanes por ação (cerca de US$ 22,30) e avaliando o negócio em US$ 9 bilhões. No primeiro pregão, o valor de mercado chegou a bater US$ 66 bilhões — antes de a empresa perder cerca de US$ 30 bilhões em capitalização nos dias seguintes.

Robôs que correm, dançam e lutam — mas ainda vendem pouco fora do laboratório

Os robôs da Unitree ganharam fama por vídeos de coreografias, corridas e até golpes de artes marciais, viralizando nas redes sociais chinesas e ocidentais. Dias antes da estreia em bolsa, a empresa apresentou seu robô mais recente, batizado de "Superman", capaz de saltar dois metros a partir de posição parada e correr até 12,66 metros por segundo.

O problema, reconheceu a Unitree em seus documentos de oferta, é que boa parte dessas vendas ainda vem de pesquisa e demonstrações — não de aplicações comerciais em escala.

A empresa embarcou mais de 5.500 robôs humanoides em 2025, o maior volume do mundo no segmento, e acumula vendas de mais de 33 mil unidades de seus robôs quadrúpedes, usados majoritariamente em tarefas como inspeção de risco.

Ainda assim, a adoção em massa fora de nichos específicos — indústria, pesquisa, entretenimento — segue distante, e a receita de 1,7 bilhão de iuanes reportada em 2025, embora quatro vezes maior que a do ano anterior, ainda é pequena para justificar avaliações na casa das dezenas de bilhões de dólares.

Demanda de varejo bateu recorde antes mesmo dos robôs provarem seu valor comercial

A oferta da Unitree foi disputada por investidores de varejo em uma proporção de mais de oito mil vezes maior que o número de ações disponíveis — recorde para o mercado STAR, dedicado a empresas de tecnologia na bolsa chinesa.

A startup de IA DeepSeek entrou como investidora estratégica na oferta, somando-se à Tencent, já acionista da empresa. A dimensão da demanda, no entanto, foi vista por analistas mais como sinal de fascínio especulativo pela narrativa de robótica com IA do que como reflexo de fundamentos sólidos.

"Os investidores foram levados pela narrativa da revolução tecnológica", disse Dong Baozhen, presidente da gestora de ativos Lingtong Shengtai, sediada em Pequim. "Todas as bolhas estão fadadas a estourar", completou.

Um teste para toda a corrida chinesa por robótica humanoide

A Unitree também reconhece, em seus próprios documentos, riscos geopolíticos ligados a eventuais restrições dos Estados Unidos à venda de seus robôs no mercado americano — um dos principais destinos de suas exportações.

Isso soma-se ao fato de que a tecnologia de IA embarcada nos robôs, hoje voltada sobretudo a movimentos físicos impressionantes, ainda precisa avançar significativamente em raciocínio e autonomia para justificar o salto de aplicações de demonstração para o uso produtivo em larga escala — o mesmo gargalo enfrentado por concorrentes ocidentais como Boston Dynamics e Figure.

O caso da Unitree deve funcionar como um teste de termômetro para a onda de IPOs de robótica humanoide que a China prepara nos próximos meses, dentro da estratégia de "autossuficiência" tecnológica do país. Se a queda recente reflete apenas o ajuste natural de uma estreia superaquecida ou o primeiro sinal de que o mercado está reprecificando de forma mais realista a distância entre o hype dos robôs humanoides e sua maturidade técnica real ainda é uma pergunta em aberto — mas é justamente essa pergunta que vai definir o apetite dos investidores pela próxima leva de empresas do setor a bater à porta da bolsa chinesa.

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