Os timaços de França e Marrocos trazem a geopolítica para dentro do campo na Copa
O avanço de políticas contra a imigração reacendeu o debate sobre identidade. A dúvida é se mudará a geografia do futebol nos próximos anos


Lucas Amorim
Diretor de redação da Exame
Publicado em 1 de julho de 2026 às 13:24.
Ainda faltam quase três semanas para a final da Copa e muita coisa pode acontecer. O Brasil pode ser campeão com passe de Raphinha e gol de Neymar. Por que não? Mas a França desponta como favorita ao título e assusta adversários pelo que vem jogando. A trajetória do time, finalista nos últimos dois mundiais, levanta um amplo debate sobre geopolítica.
A essa altura, até os tetos retráteis dos magníficos estádios americanos já sabem que a seleção francesa é um retrato da diversidade do país. Kylian Mbappé é filho de pai camaronês e mãe francesa de origem argelina. Michael Olise nasceu na Inglaterra, é filho de pai nigeriano e mãe franco-argelina e poderia defender quatro seleções antes de optar pela França. Ousmane Dembélé tem pai malinês e mãe de origem mauritano-senegalesa. A lista é longa. Não se trata de uma novidade desta geração. Em 1998, o símbolo da conquista francesa foi Zinedine Zidane, filho de imigrantes argelinos.
Marrocos e a força da diáspora africana
Mas essa Copa tem outra história paralela à francesa, que aprofunda a discussão. A seleção do Marrocos eliminou na segunda-feira a Holanda num jogo com 22 europeus em campo. De todos os 26 convocados por Marrocos, só sete nasceram no país.
Durante muito tempo, a explicação para esse fenômeno parecia simples: atletas sem espaço nas grandes potências acabavam defendendo o país de origem de seus pais ou avós. Essa lógica ainda existe. O meia Maurício, do Palmeiras, escolheu representar o Paraguai graças à nacionalidade paterna e já virou uma das referências da seleção paraguaia nesta Copa.
Mas a trama se complicou nos últimos anos, como mostra o exemplo de Ayyoub Bouaddi. Aos 18 anos, ele era capitão das seleções de base da França e apontado como um dos maiores talentos de sua geração. Ainda assim, decidiu disputar a Copa pelo Marrocos, país de seus pais. Contra o Brasil, foi eleito o melhor jogador em campo. Segue entre os grandes destaques do Mundial.
O caso se repete em outros protagonistas da campanha marroquina. Brahim Díaz nasceu na Espanha. Hakim Ziyech nasceu na Holanda. Ismael Saibari também nasceu na Espanha. Assim como Achraf Hakimi, o capitão marroquino. Nenhum deles fez uma escolha por falta de alternativas. Todos poderiam ter seguido caminhos diferentes.
Hakim Ziyech, nascido na Holanda, costuma dizer que "Marrocos está no meu coração" e sempre explicou sua escolha como uma forma de retribuir aos pais os sacrifícios feitos para construir uma vida na Europa. Bouaddi disse que defender o Marrocos foi "uma decisão do coração", tomada em família. Hakimi diz que defender Marrocos "nunca foi uma dúvida".
Para muitos jogadores criados entre duas culturas, vestir a camisa dos pais ou dos avós deixou de ser um plano B. É uma decisão que passa, cada vez mais, por identidade.
Imigração vira tema central da política
Na Holanda, o crescimento do partido liderado por Geert Wilders colocou a imigração no centro do debate político. Na França, Marine Le Pen consolidou a imigração como um dos principais temas da extrema direita, defendendo restrições mais duras à entrada de estrangeiros e prioridade nacional em políticas públicas. Na Espanha, no Reino Unido e na Alemanha, os cenários são muito parecidos.
Nos Estados Unidos, principal sede da Copa, Donald Trump tem apertado o cerco aos imigrantes. Chegou a barrar, no mundial, a entrada de um árbitro somali. Mas a seleção americana é um retrato da imigração que moldou o país. Yunus Musah nasceu em Nova York, cresceu na Itália e na Inglaterra, é filho de ganeses e poderia defender quatro seleções diferentes antes de escolher os Estados Unidos. Diego Luna é filho de mexicanos. Damion Downs nasceu na Alemanha, de mãe alemã e pai americano. Alex Freeman é filho de jamaicano. O atacante Timothy Weah vai além: é filho do liberiano George Weah, atacante histórico do Milan que mais tarde foi presidente da Libéria. A Libéria, vale lembrar, foi um país criado no século XIX para receber escravos libertos dos Estados Unidos.
Imigração é daquelas pautas que permitem infinitos olhares. O da legalidade. O do mercado de trabalho. O da justiça social. E o do pertencimento. É neste último que o cerco a minorias e os discursos mais duros contra imigrantes têm impactado a geografia da bola.
Durante décadas, as grandes seleções europeias concentraram o talento produzido por suas comunidades de origem estrangeira. Hoje, as federações africanas investem pesado para convencer atletas de dupla nacionalidade. O trabalho deixou de ser improvisado e virou política de Estado esportiva. Marrocos, Argélia, Senegal e outras seleções disputam jogadores desde as categorias de base.
Será o suficiente para afetar as próximas gerações das potências europeias?
Em 2015, Michel Houellebecq publicou Submissão, romance que imaginava uma França governada por um partido islâmico, intensificando o caldeirão cultural do país. O livro chegou às livrarias justamente no dia do atentado contra o Charlie Hebdo, tornando-se parte de um debate nacional que só se intensificaria nos anos seguintes. Crises migratórias, atentados terroristas, polarização política e o crescimento da extrema direita transformaram imigração e identidade nacional em um dos temas mais sensíveis da Europa contemporânea.
A Copa do Mundo torna essas tensões ainda mais evidentes. Olise, Dembélé e Mbappé, os craques franceses, ainda estão longe dos 30 anos e devem continuar preocupando adversários pelas próximas duas ou três Copas. A dúvida na mesa é como embates identitários vão impactar as escolhas de futuros craques franceses.
Mbappé, para ficar no exemplo mais midiático, é cada vez mais vocal contra o racismo. Em maio, Marine Le Pen e seus aliados responderam que o camisa 10 da seleção precisa "focar em jogar futebol" e deixar pautas políticas e sociais de lado. É uma recomendação que ignora um mundo cada vez mais complexo, tanto dentro quanto fora de campo.
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Lucas Amorim
Diretor de redação da ExameJornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, começou a carreira no Diário Catarinense. Está na Exame desde 2008, onde começou como repórter de negócios. Já foi editor de negócios e coordenador do aplicativo da Exame.
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