De Freud a Arthur Aguiar: a startup que quer faturar com clones digitais feitos por IA
O Conselho já fechou com nove nomes e aposta em versões digitais de influenciadores e especialistas para criar uma nova fonte de receita 24 horas por dia


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 09:00.
Última atualização em 18 de setembro de 2026 às 17:44.
RESUMO | Arthur Farache investiu cerca de R$ 4 milhões nos últimos meses para desenvolver O Conselho, plataforma de inteligência artificial que cria clones digitais de influenciadores e especialistas. Nove influenciadores já assinaram contrato, entre eles Arthur Aguiar e Demian Maia, e o lançamento oficial deve ocorrer após o décimo acordo.
Arthur Farache passou os últimos meses arrumando a casa na Hurst Capital para poder se dedicar a uma nova aposta: transformar influenciadores e especialistas em versões digitais capazes de conversar — e faturar — 24 horas por dia.
O empresário já investiu cerca de R$ 4 milhões, principalmente em pessoas, para desenvolver O Conselho, plataforma de inteligência artificial que cria clones digitais treinados para reproduzir não apenas a aparência, mas a linguagem, o conhecimento e características do comportamento de cada pessoa.
Nove influenciadores já fecharam contrato. A meta é chegar a dez para fazer o lançamento oficial, apurou o EXAME Insight. Entre os nomes citados por Farache estão Arthur Aguiar, vencedor do BBB 22, e o lutador Demian Maia. A companhia também negocia com criadores de nicho e profissionais, de advogados a professores. Além deles, a startup também vai explorar a imagem de figuras históricas, como Sigmund Freud.
Ideia simples, execução complexa
Grandes influenciadores acumulam milhões de seguidores, mas conseguem responder individualmente a uma parcela mínima deles. O Conselho quer colocar uma inteligência artificial no meio dessa equação. O seguidor conversa com o clone, por texto ou vídeo, e paga pela interação. Depois dos custos de tecnologia, a receita é dividida meio a meio entre a plataforma e o influenciador.
Farache acredita estar criando uma nova fonte de receita recorrente para uma indústria que ainda depende fortemente de publicidade. “Os influenciadores ficam dependendo de publi e têm no direct do Instagram um monte de mensagem de seguidor querendo trocar ideia, querendo pegar alguma dica. O cara simplesmente não consegue responder esses seguidores e também não monetiza”, disse Farache ao EXAME Insight. Com o clone, a promessa é responder “24 por 7”.
Da Hurst para a IA
Desde o início do ano, Farache vinha reorganizando a governança das empresas do grupo e transferindo responsabilidades operacionais para outros executivos. Breno Bonani assumiu como CEO da Hurst, enquanto outras companhias da estrutura passaram a contar com lideranças próprias.
A Hurst mantém negócios especializados na originação de ativos alternativos, como a Kateto, de créditos judiciais; a MUV, ligada a royalties de música; e a Ahlex, focada em recebíveis de cadeias produtivas. A reorganização abriu espaço para Farache se dedicar ao Conselho. “Eu preciso que executivos assumam as lideranças da companhia porque eu preciso me dedicar a esse novo projeto”, afirmou.
O Conselho não é um projeto paralelo. Segundo Farache, permanece dentro da partnership dos mesmos sócios. Por enquanto, a empresa não está buscando investidores externos. A tese foi validada internamente e os sócios decidiram bancar o desenvolvimento com capital próprio.
Não é só colocar um nome no ChatGPT
A primeira versão do Conselho nasceu de um comportamento que já se tornou comum entre usuários de inteligência artificial: pedir a um chatbot que responda como se fosse uma pessoa conhecida. “Responda como Einstein” é o exemplo mais óbvio.
Para Farache, o resultado desse tipo de comando é superficial porque o modelo conhece informações sobre aquela pessoa, mas não foi construído especificamente para reproduzi-la. Foi daí que surgiu a ideia de criar versões mais profundas.
A equipe reúne o conteúdo público produzido por cada pessoa e monta um dossiê que inclui perfil psicológico, vícios de linguagem, aspirações e até uma análise SWOT — forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. Depois, o próprio influenciador testa o clone e participa dos ajustes até considerar que a versão digital se aproxima de sua maneira de falar e responder.
No caso de Arthur Aguiar, a companhia diz ter combinado uma entrevista com o artista com horas de análise de posts, vídeos, podcasts e outras aparições públicas. O resultado é uma espécie de manual que determina o que aquela versão digital pensa, como responde e também o que não deve responder.
O conselho de poucos reais
A tese vai além de influenciadores. Farache acredita que a inteligência artificial permite quebrar serviços profissionais em pedaços pequenos demais para serem economicamente vendidos por uma pessoa.
Um advogado, por exemplo, pode cobrar por uma hora, uma consulta ou um parecer. Mesmo que o cliente tenha apenas uma dúvida, existe um valor mínimo necessário para que faça sentido econômico atendê-lo. Com um clone digital, essa unidade pode encolher até chegar a uma única interação. “Se você quiser contratar um advogado hoje, qual é o menor pedaço do serviço que você pode comprar?”, questiona Farache.
A resposta do Conselho é o token. A companhia chama essa ideia de “unidade mínima vendável”: a menor fração de um serviço pela qual alguém consegue cobrar. A queda do custo da inteligência artificial permitiria reduzir drasticamente essa unidade e abrir mercados que antes simplesmente não existiam.
É por isso que, apesar de começar com entretenimento, Farache quer levar cada vez mais profissionais para dentro da plataforma. Um dos exemplos citados pelo empresário é um advogado tributarista cujo clone poderia responder perguntas sobre Imposto de Renda ou reforma tributária. A empresa também fechou com uma professora de direito comercial.
Há uma referência semelhante nos Estados Unidos. A Delphi.ai cria clones digitais de especialistas, autores e outros profissionais. A tese atraiu recentemente a Sequoia Capital, o megafundo americano que também já investiu no Nubank, com um cheque de US$ 16 milhões.
Para Farache, porém, copiar a estratégia americana no Brasil seria um erro. Enquanto o modelo americano está mais concentrado em conhecimento e utilidade, O Conselho pretende começar pelo entretenimento.
E se o clone falar besteira?
Convencer alguém a emprestar a própria cabeça para uma inteligência artificial cria um problema que não existe em uma campanha tradicional de publicidade. Segundo Farache, os potenciais parceiros se dividem em dois grupos.
De um lado estão os early adopters, interessados em ocupar rapidamente um novo espaço e criar uma fonte de receita além das publis. “Ma stem um outro público que é mais resistente, que fica preocupado: ‘Poxa, mas e se a IA falar uma bobagem? Posso me expor’”, disse Farache.
É justamente por isso que o treinamento envolve testes com o próprio influenciador e a criação de guardrails, barreiras que limitam assuntos ou respostas. A plataforma também pretende deixar explícito que o usuário está conversando com uma inteligência artificial e que o sistema pode cometer erros.
O que é O Conselho?
O Conselho é uma plataforma de inteligência artificial que cria clones digitais treinados para reproduzir a aparência, a linguagem, o conhecimento e características do comportamento de influenciadores e especialistas.
Quanto Arthur Farache investiu no Conselho?
Arthur Farache já investiu cerca de R$ 4 milhões no Conselho, principalmente na contratação de pessoas para desenvolver a plataforma.
Quais influenciadores já fecharam contrato com O Conselho?
Nove influenciadores já fecharam contrato com O Conselho, segundo apuração do EXAME Insight. Arthur Farache citou Arthur Aguiar, vencedor do BBB 22, e o lutador Demian Maia entre os participantes.
Como os influenciadores vão ganhar dinheiro com os clones digitais?
Os seguidores poderão pagar para conversar por texto ou vídeo com os clones digitais. Após o desconto dos custos de tecnologia, a receita será dividida igualmente entre O Conselho e o influenciador.
Como O Conselho treina os clones digitais?
A equipe reúne conteúdos públicos de cada pessoa e cria um dossiê com perfil psicológico, vícios de linguagem, aspirações e análise SWOT. O próprio influenciador testa o clone e participa dos ajustes, além da definição de barreiras para limitar assuntos ou respostas.
O Conselho pretende criar clones digitais de pessoas mortas?
O Conselho conversa com famílias de pessoas que morreram para estudar versões digitais póstumas, segundo Arthur Farache. O projeto ainda está em estágio exploratório e usaria materiais deixados pela pessoa para reproduzir características de sua linguagem e de seu pensamento.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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