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Crise da FTX tem impacto maior em empresas de empréstimos com criptoativos

BlockFi declarou falência na esteira da quebra da exchange, enquanto companhias como a Genesis e a SALT também passam por problemas

Alta alavancagem e efeitos da quebra do blockchain Terra enfraqueceram empresas de empréstimos com criptoativos (dulezidar/Getty Images)

Alta alavancagem e efeitos da quebra do blockchain Terra enfraqueceram empresas de empréstimos com criptoativos (dulezidar/Getty Images)

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João Pedro Malar

1 de dezembro de 2022, 17h18

Os efeitos da falência da FTX se disseminaram pelo setor de criptoativos, mas um segmento tem sido afetado com mais força, na visão de especialistas: o de empréstimos. Nele, clientes depositam criptoativos que são usados nas operações. Comprovando esse quadro, nesta semana a BlockFi, uma das maiores da área, entrou com um pedido de falência nos Estados Unidos.

E ela não é a única com problemas. O braço de empréstimos da Genesis, a Genesis Global Capital, também está em uma situação difícil e congelou saques de clientes. Com rumores de uma possível falência, a empresa possui US$ 2,8 bilhões (R$ 14,89 bilhões, na cotação atual) em empréstimos ativos.

(Mynt/Divulgação)

Além delas, a SALT também congelou saques, e a Nexo e a Galois Capital declararam estar sendo afetadas pela quebra da segunda maior corretora de criptoativos do mundo. O quadro negativo se soma aos efeitos de outra crise anterior, o colapso do blockchain Terra, que levou consigo empresas de empréstimo como a Voyager Capital e a Celsius.

Por trás desse quadro, especialistas apontam à EXAME algumas causas comuns que criaram um ambiente favorável à quebra dessas empresas. Ao mesmo tempo, ele pode beneficiar uma outra vertente do segmento, ligada às finanças descentralizadas (DeFi, na sigla em inglês).

Causas

Para Samir Kerbage, diretor de produtos da Hashdex, a crise enfrentada por empresas de empréstimos com criptoativos não começou com a falência da FTX, mas sim com a quebra do Terra e da empresa Three Arrows Capital (3AC), que gerou um “efeito cascata no mercado de desalavancagem”.

“São várias contrapartes muito interligadas, e aí uma quebra e tem esse efeito. Esse é o risco do mercado de crédito.

Por isso que no mercado tradicional é um segmento muito regulado, pela preocupação do chamado risco sistêmico, algo que já vimos várias vezes no passado”, explica.

Segundo ele, o setor de criptoativos passou recentemente por um período de forte alavancagem – ou seja, endividamento – devido ao ciclo de valorização no mercado: “isso fez com que as partes de gestão de risco fossem ficando cada vez mais relaxadas em nome do lucro, para aproveitar o momento, e acabaram muito alavancados e interligados entre si”.

Um dos exemplos citados por Kerbage é o do próprio Terra, que oferecia um serviço depósito em seu blockchain com a promessa de rendimento anual de 20%. A cifra chamou a atenção das companhias de empréstimos, que depositaram fundos na rede para pagar outras contrapartes.

Depois, “elas ficaram tomando muitos baques, até que veio a FTX. Elas estavam tentando se sustentar até agora”, afirma Kerbage. Para ele, é “característico desse risco sistêmico” o fato da Genesis, a empresa mais consolidada do setor e com contrapartes em quase todas as concorrentes, também estar passando por problemas.

Com isso, ele aponta ter ocorrido uma combinação de excesso de alavancagem e falta de regulação no mercado de criptoativos, que poderia ter evitado o grau atual de disseminação.

Agora, Kerbage acredita que o foco das atenções será a Genesis. “Se entrar em falência, pode ser que isso afete outros players com correlação grande. Pode gerar outras insolvências. Mas acredito que já está em um final de ciclo de desalavancagem que culminou com a FTX. Poucos players sobraram depois de tudo isso, já limpou o que tinha que limpar, os que sobraram perceberem as boas práticas que precisam ser adotadas”.

Ayron Ferreira, head de pesquisa da Titanium Asset, também vê o segmento de empréstimos de criptoativos como um dos mais afetados pela crise atual. Ele lembra que essas companhias ofereciam rendimentos elevados para clientes, mas conforme a demanda aumento, precisaram encontrar formas mais arriscadas de garantir esses valores.

“Elas pegavam o dinheiro dos clientes e iam para protocolos de DeFi, se alavancavam neles. Um deles era o Anchor, um protocolo da Luna com yields elevados, mas que não funcionou. Isso levou a esse prejuízo”, explica. À época, foi esse quadro que levou à falência da Voyager e da Celsius.

Dessa vez, o quadro foi piorado pela própria relação dessas companhias com a FTX. O fundador da corretora de criptoativos, Sam Bankman-Fried, chegou a criar carteiras de crédito para ajudar as empresas a sobreviver depois da quebra do Terra – caso da BlockFi.

Após a falência da corretora, elas estão sem o dinheiro e com problemas de liquidez. Outras também tinham fundos depositados na exchange, que estão congelados.

Ferreira ressalta que “a origem está mais na quebra do Terra, no modelo de negócio dessas empresas. Não foram problemas que surgiram em novembro, é algo que começou lá atrás”.

Consequências

O head da Titanium Asset considera que as novas quebras devem levar a uma “maturação do modelo de negócios” das sobreviventes, com melhores práticas e um aprimoramento do gerenciamento de riscos. Além disso, ele espera que os usuários fiquem “mais atentos e conscientes” ao escolher onde depositarão seus ativos.

“Os usuários não sabiam o que era feito com o dinheiro, como a custódia funcionava. Eu espero um avanço agora semelhante à prova de reserva de exchanges, trazendo mais transparência”, projeta Ferreira.

Ele acredita que há uma possibilidade de que protocolos DeFi para empréstimos de criptoativos, com uma interação com contratos e custódia direta, ganhem mais espaço: “é uma oportunidade de aumento de adoção, mas por ser tão novo, ainda pega na parte de experiência de usuário. Nem todos sabem baixar, fazer backups, conectar, interagir, ainda é algo para criptonativos mesmo, com mais tempo, interesse na área”.

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“A regulação também vai atingir os negócios centralizados de criptoativos, até por terem sido bastante afetados nessas crises. Devido a toda a novidade, os reguladores ainda tentam entender como regular, que regras podem ser aplicadas”, observa Ferreira.

Ao mesmo tempo, ele pontua que “a perda financeira leva à perda de confiança. As pessoas desacreditam do mercado, mas hoje com disseminação de informações, muitos entenderam como separar, riscos e oportunidades. O que estou sentindo do mercado é que as pessoas estão esperando regulação, mas acreditam no potencial da tecnologia”.

Já Kerbage, da Hashdex, destaca que a atividade de crédito é economicamente importante em qualquer setor, incluindo o de criptoativos, e portanto continuará existindo. A mudança, opina, deve ser um aumento da diligência sobre as empresas do segmento.

“As soluções de DeFi mostraram sua força nesse momento, estão saindo mais fortes dessa crise sendo que antes eram serviços com desconfiança e ceticismo muito grande. Esse ano estão sendo testados à exaustão e sobrevivendo. Uma volta do mercado deve levar a mais operações de crédito registradas em blockchain”, diz o diretor.

Ele acredita que “o mercado de crédito vai voltar, mas mais forte, mais resiliente, com players de risco mais apurado, mais transparência em blockchain. Agora vai dar uma boa pausa para arrumação. E fica o aprendizado para os próprios investidores. Os depósitos deles que financiavam tudo em busca de retornos elevados sem saber exatamente do risco a que estavam expostos. Isso vai mudar”.

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