O que o colapso da Terra-Luna diz sobre o mercado de criptomoedas?

Entenda os motivos por trás do colapso de uma das maiores plataformas de contratos inteligentes do mundo e saiba mais sobre o seu impacto no mercado de criptomoedas
 (TERADAT SANTIVIVUT/Getty Images)
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Brianna Kernan

Publicado em 11/07/2022 às 14:04.

Última atualização em 11/07/2022 às 14:46.

* Por Brianna Kernan

O mercado de criptoativos já viveu dias melhores. O atual inverno cripto ganhou força após o colapso do ecossistema UST Terra-Luna, no início de maio, que apagou o equivalente a US$ 60 bilhões em um único dia, de acordo com um levantamento da Bloomberg. Para entender as causas e consequências da quebra, é importante lembrar algumas classificações de ativos digitais. Em primeiro lugar, a moeda digital em questão é uma stablecoin. 

Esse tipo de criptomoeda tenta escapar da volatilidade do mercado a partir do lastreamento a algum outro ativo. Neste caso, o UST mantinha paridade — um para um — com o dólar americano. As empresas que emitem stablecoins podem manter estoques de segurança desses ativos, como as reservas mínimas obrigatórias que preservam a liquidez dos bancos tradicionais. Essas entidades acumulam títulos públicos e até mesmo outras criptomoedas como reservas.

Com isso, apesar do volume gigantesco de transações, as stablecoins continuam reféns da volatilidade que resultaria o colapso súbito de alguma blockchain, por exemplo. Apesar disso, alguns ecossistemas cripto optam por não manter essas reservas ou ‘depósitos de excessos' de segurança — as chamadas stablecoin algorítmicas.

Em suma, caso o preço do ativo ultrapasse US$ 1, os usuários podem cunhar mais moedas, aumentando a quantidade disponível no mercado e equilibrando a paridade novamente. No cenário oposto, com preço do ativo abaixo de US$ 1, os investidores podem comprá-los no mercado e ‘queimá-los’ para balancear o preço.

No caso da UST, por não ter fundos de garantias em excesso para assegurar a paridade com o dólar, o ativo tornou-se totalmente dependente da teoria dos jogos — quando as decisões de um indivíduo são baseadas naquilo que outras pessoas decidem, como em um jogo de estratégia no qual todos saem ganhando caso haja colaboração mútua; neste caso,  para equilibrar a paridade entre as moedas no mercado.

O colapso da UST teve início em 7 de maio, quando a Terraforms Labs, empresa por trás da criptomoeda, retirou 150 milhões em UST do 3pool, um pool de liquidez da Curve, um protocolo de DeFi, para transferi-los para outro fundo. Isso fez com que  3pool ficasse suscetível à volatilidade de preços. Aproveitando-se da situação, dois investidores trocaram mais de 185 milhões em UST. 

Como resposta, a Terraform retirou outros 100 milhões da 3pool, a fim de rebalancear o preço do ativo com outras moedas digitais. Isso gerou receio entre traders e usuários menores, resultando em uma “corrida aos bancos” para retirar seus fundos da UST o mais rápido possível.

Na tentativa de consertar o cenário, usuários da criptomoeda trocaram mais de 480 milhões em USDT (Tether) para UST nos dias seguintes, a fim de recuperar o preço do ativo. A Luna Foundation Guard (LFG), empresa responsável pela moeda digital Luna, trocou bilhões em bitcoins de sua reserva para UST, mas já era tarde demais. No dia 10 de maio, o ativo perdeu definitivamente seu vínculo com o dólar.

Por meio do protocolo Terra, era possível trocar UST pelo equivalente em dólar de Luna. Isso fez com que os usuários da UST queimassem seus fundos para  tentar recuperá-los de alguma forma — o que resultou na hiperinflação e desvalorização da Luna.

Quando o valor de mercado da Luna caiu abaixo do UST, ficou claro que nem todos usuários poderiam queimar seus fundos pelo mesmo valor — ou seja, o colapso do protocolo Terra.

A quebra deste mercado teve grande impacto no preço dos criptoativos em geral, resultando em um bear market para o setor. Entre os dias 1º e 11 de maio, a Luna perdeu 98,51% de seu valor. Grandes quedas também foram observadas em Avalanche (-42,21%), Decentraland (-41,42), Solana (-39,69%) e Polkadot (-38,18%), afirma um levantamento da QR Asset Management. No mesmo período, o bitcoin recuou 24,78% — indicando a abertura de um novo período de inverno para o setor.

Mas até que ponto o esfriamento do mercado está relacionado ao colapso do protocolo Terra? 

Em seu Web3 Report, a Chainalysis identificou que, ao contrário da maioria das stablecoins, o UST era subcolateralizado. Ou seja, em vez de manter sua indexação com ativos em reservas, o Terraform Labs usou um token irmão, a Luna, para absorver a volatilidade dos preços. Portanto, segundo a Chainalysis, o bear market está mais relacionado à desaceleração do mercado de tecnologia do que ao colapso da UST em si.

Com o cenário macroeconômico desafiador e a inflação batendo à porta das principais economias do mundo, as autoridades têm aumentado as taxas básicas de juro na tentativa de desaquecer a atividade econômica e frear a alta dos preços.

Entretanto, juros mais altos significam empréstimos mais caros. E a indústria de tecnologia depende muito de crédito barato para manter e expandir as operações. Com isso, diversas startups promoveram demissões em massa nas últimas semanas para diminuir custos e equilibrar as contas. 

O bear market no universo cripto afeta a confiança dos consumidores no mercado, que ainda está se consolidando e migrando para o mainstream das finanças. Entretanto, apesar da contrariedade, é possível afirmar que o inverno cripto pode indicar maturidade do setor. 

Mesmo com a queda nos preços dos ativos digitais, o mercado como um todo não foi tão impactado pelo colapso do protocolo. A “corrida aos bancos” só foi observada com as stablecoins, que perderam vinte pontos percentuais no volume de transações diárias com criptomoedas entre os dias 13 e 17 de maio, indo de 60% para 40%, indica o Web3 Report. 

Segundo Michael Gronager, CEO e fundador da Chainalysis, os mercados cripto e de tecnologia vão se fundir em algum momento. E, ao atrelar as moedas digitais a outros ativos tech, o mercado demonstra confiar que o setor cripto não sofrerá volatilidade extrema — característica de um segmento maduro e consolidado. 

Como qualquer processo de amadurecimento, o setor observará projetos que não se sustentarão. Os erros nessa jornada podem pavimentar o caminho para um mercado sólido e sustentável, chaves para ganhar a confiança dos consumidores em geral.

*Por Brianna Kernan, LATAM Sales Lead na Chainalysis, plataforma de dados e pesquisa especializada em blockchain e criptoativos.

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