De Globo a RedeTV: programas de TV também são dominados por casas de apostas

Quase todos possuem acordos publicitários com companhias do ramo; Globo fecha acordo milionário para a Copa do Mundo
 (Grupo Globo/Reprodução)
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Da Redação

Publicado em 18/08/2022 às 10:00.

Última atualização em 22/08/2022 às 17:01.

Na mesma proporção em que patrocinam clubes de futebol, as casas de apostas também estão cada vez mais presentes na maioria dos principais programas esportivos do país. Praticamente todos eles possuem relação com empresas deste segmento. A Globo, que já tinha a Betfair para jogos e propagandas relacionadas ao Cartola, fechou nesta semana um contrato milionário com a Pixbet para exposição durante a Copa do Mundo deste ano, no Catar.

Os valores não foram divulgados, mas na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a Globo cobrou o valor de R$ 180 milhões por cada uma das cotas de patrocínio da competição, e especula-se que os números atuais sejam equivalentes aos de quatro anos atrás.

O alto investimento em mídias esportivas realizados pelas companhias comprovam o papel de protagonismo econômico das empresas de apostas esportivas no futebol brasileiro, que movimenta R$53 bilhões anualmente na economia do país, de acordo com um estudo realizado pela Ernst & Young Global Limited, em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol.

No SBT, que transmite a Copa Libertadores da América, o parceiro comercial esportivo é a Betfair. Já na TV Bandeirantes, o patrocinador para os programas de esportes é a Casa de Apostas.

"Acredito que o mundo do futebol e as companhias de apostas são grandes aliados comerciais. A tendência é que ocorra uma popularização progressiva, principalmente após a regulamentação da prática. Vemos um futuro muito promissor para o mercado brasileiro, buscamos sempre gerar novas experiências ao torcedor, com ações que nos aproximem do público. Faz parte do nosso planejamento de comunicação, que tem como princípio estabelecer um diálogo com o fã do futebol. Os meios de comunicação permitem que essa interação ocorra simultaneamente ao consumo de notícias e de transmissões futebolísticas”, explica Hans Scheiler, diretor de marketing da Casa de Apostas.

Apesar de a TV Record não possuir nenhum patrocinador do tipo atualmente, o Estadual do Rio de Janeiro deste ano virou Cariocão Betfair. Na RedeTV, quem expõe sua marca é o galera.bet. A empresa, que patrocina os times masculino e feminino do Corinthians e o Brasileirão Assaí/CBF, faz a produção do programa Galera Esporte Clube, que vai ao ar todas às segundas-feiras.Já nos canais fechados, SporTV e ESPN/Disney, o patrocínio é da Sporting Bet.

"Os patrocínios de casas de apostas com os principais conglomerados televisivos acompanham aquilo que já vemos com entidades, clubes e atletas do mundo inteiro. No galera.bet nos vamos além do simples spot de TV. No Galera Esporte Clube, programa na RedeTV, falamos sobre jogo responsável e aposta de forma lúdica e divertida. Acreditamos que só a educação do público brasileiro criará um ambiente fértil para termos um mercado próspero e sustentável de jogos", afirma Ricardo Bianco Rosada, CMO do galera.bet.

Atualmente, cerca de 450 sites de apostas do exterior atuam no país sem nenhum tipo de tributação. Ao constatar a oportunidade de geração de empregos, rentabilidade e arrecadação de impostos no setor, o debate acerca da criação de uma regulamentação adequada ganhou força no contexto político brasileiro. No ano de 2018 o congresso nacional sancionou a lei 13.756/18, responsável pela criação da modalidade de aposta “quota fixa”, na qual se enquadram as apostas online no Brasil atualmente. No entanto, a norma ainda não atende as particularidades da categoria, e a regularização apropriada da atividade deve se efetivar após as eleições presenciais, atendendo aos fatores esportivos, econômicos e tributários do segmento.

Dessa forma, segundo especialistas, a regularização apresenta inúmeros benefícios e deve movimentar o setor de apostas no país. Por termos uma população massiva apaixonada por futebol, a tendência é que cada vez mais os meios de comunicação estabeleçam parcerias com as empresas do ramo, com a possibilidade de lançarem as suas próprias plataformas de apostas, como aconteceu em outros países. Além das organizações midiáticas, clubes, competições e influenciadores também devem continuar recebendo investimentos dos principais sites de apostas do mundo, que enxergam no futebol um aliado importante na busca por popularização e na captação de novos usuários.

“A tendência é que as empresas desse segmento se conectem cada vez mais com grupos de mídia que possuam o esporte como ativo. As apostas criam micronarrativas e promovem uma experiência particular e paralela durante uma partida de futebol. Estamos em uma época em que as estatísticas viraram entretenimento, há uma geração que consome o esporte por meio de games e que se interessa intensamente pelo consumo de dados. Certamente as parcerias entre empresas e emissoras de TV irão gerar receitas novas e importantes para esses grupos de mídia”, explica Bruno Maia, CEO da Feel The Match e especialista em inovação e novas tecnologias do esporte.

“O mercado de apostas esportivas, quando finalmente regulado no Brasil, vai chacoalhar o mercado de mídia e entretenimento, abrindo várias frentes de novos negócios. Uma delas poderá ser a criação de plataformas de apostas por empresas donas de canais de TV. Isso já ocorreu no exterior onde poderosos canais esportivos deram esse passo, como é o caso da Fox Bet e da Sky Betting. No Brasil a Globo, por exemplo, já tem um fantasy game, o Cartola, que eu sempre vi como um experimento para outros negócios no setor de apostas” afirma o advogado Eduardo Carlezzo, especialista em direito desportivo.

Para o especialista em marketing esportivo Fábio Wolff, a experiência de assistir aos jogos e apostar quase que de forma automática é um atrativo a mais para o fã. "O brasileiro é apaixonado por futebol, esportes em geral e gamificação, e o ato de competir por meio das apostas, que sempre foi grande por aqui, cresceu com a digitalização. Até em torno disso, o investimento dessas empresas em mídia expandiu, muito por causa deste engajamento e interatividade, mas também com uma visibilidade quase que diária nos canais de comunicação", opinou ele, que é sócio-diretor da Wolff Sports.

As possibilidades de novas ações publicitárias são vastas, e de acordo com profissionais, há uma expectativa muito grande do mercado para que a regularização ocorra em um futuro breve. Na opinião de Renê Salviano, profissional com larga experiência ligadas ao mercado publicitário, a aproximação dos meios de comunicação com as empresas do setor acontece devido aos grandes investimentos em mídia realizados pelas companhias, que procuram se conectar com o fã do esporte de diferentes maneiras.

“A empresas de apostas são grandes investidores em mídia, e as emissoras de TV estão cada vez mais próximas desse segmento. Percebemos nos últimos três anos uma grande movimentação de todos se preparando para a regulamentação, é uma grande oportunidade para o mercado nacional se desenvolver em vários aspectos, estou torcendo para que isto aconteça. Quando você regulamenta e a empresa está no Brasil, os impostos vão gerar uma nova receita para o país e o governo pode aplicar isso em educação, esporte, segurança, entre outras áreas”, conclui Salviano.