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A venezuelana Luisa Palacios, pesquisadora sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, partiu da seguinte premissa para desenvolver sua tese de doutorado: numa mesma época, em relação ao mesmo setor, países latino-americanos tomaram decisões econômicas distintas. Palacios buscou entender o que levou Brasil, Argentina, Colômbia, México e Venezuela a desenvolverem políticas tão diferentes para a exploração de petróleo em seus territórios.

Brasil e Colômbia adotaram modelos híbridos, em que parte da exploração é estatal e parte é privada. A Argentina preferiu privatizar totalmente, e o México o contrário, manteve a indústria sob rígido controle estatal. A Venezuela... bem, a Venezuela merece um capítulo à parte. “Quando você não tem responsabilidade direta pela renda gerada, ou seja, é algo que apenas está lá, a tendência é o desenvolvimento de economias ‘rentistas’”, afirmou a pesquisadora à EXAME.

Palacios será uma das palestrantes do Brazil Climate Summit, evento que reunirá, entre os dias 13 e 14 de setembro, empresários, ativistas, investidores, estudantes e acadêmicos na Universidade de Columbia, em Nova York. A conferência acontecerá durante a semana do clima de Nova York, e seu objetivo é posicionar o Brasil como uma potência climática global. A pesquisadora, por sinal concorda com essa afirmação.

O Brasil está bem-posicionado na agenda climática não apenas pelos motivos óbvios – a Amazônia, o potencial solar e eólico, a maior reserva de água doce do mundo etc. – mas também por ser um grande produtor de petróleo. E aí que está o pulo do gato: não é qualquer petróleo.

Vantagens diplomáticas

Para compreender por que o petróleo brasileiro é importante nesse esforço de protagonismo da agenda climática, é preciso olhar para a geopolítica do combustível. A Guerra da Ucrânia talvez seja a face mais evidente dos conflitos gerados pela transição energética, mas há outras questões em jogo. Todos os cenários giram em torno de uma só previsão: a demanda futura por petróleo.

Dados da petroleira Shell – que podemos considerar conservadores por motivos óbvios – apontam dois cenários. No mais pessimista para o planeta, a produção de petróleo se mantém relativamente estável até 2035, quando começa a cair gradativamente até chegar à metade do que se tem hoje no final deste século. Nesse caso, o mundo passará longe de atingir a meta do Acordo de Paris, de manter o aquecimento global em 1,5°C no mesmo período. No cenário mais otimista, a produção do combustível fóssil começa a cair em 2025, e chegará a uma queda de 50% em 2050 – e mesmo assim a meta de Paris não será alcançada. Seja como for, há quase um consenso em torno da ideia de redução da demanda pelo combustível fóssil.

Todas as petroleiras levam em consideração essas previsões para definir suas estratégias de médio e longo prazos, e a consequência se vê nos preços. “O nível de investimento atual está abaixo da demanda”, afirma Luisa Palacios. O motivo é a tentativa, por parte das petroleiras, de manter o preço em um patamar seguro – para elas, é claro. Não há, atualmente, uma corrida para avançar em novas fronteiras de exploração, nem muita vontade de assumir riscos elevados, o que é uma péssima notícia para a Venezuela, por sinal.

Esse cenário dá a países que são grandes produtores de petróleo uma espécie de vantagem diplomática. Ainda que o preço continue a ser determinado pela OPEP e pela Arábia Saudita, que consegue vender um barril de petróleo por 10 dólares sem ter prejuízo, a nova dinâmica do mercado favorece quem tem maior independência, e muda o centro nevrálgico da produção de petróleo do Oriente Médio para regiões como a América Latina e a África.

Petróleo guilt-free

Luisa Palacios afirma que os países da OPEP não devem perder a relevância, nem para o setor de petróleo, nem para a transição energética. O que se abre, na realidade, é uma colossal oportunidade para latino-americanos e africanos. “Há dois aspectos fundamentais dessa transição”, afirma Palacios. “A Guerra na Ucrânia mostra, claramente, que os países não podem confiar sua segurança energética em regiões problemáticas; isso gera uma segunda tendência, que é a demanda por um petróleo com menos emissões, uma espécie de ‘petróleo ESG’, sobre o qual será pago um prêmio.”

Com quase 70% da matriz energética, e com um potencial eólico e solar para abastecer o país inteiro e ainda sobrar, além das reservas do pré-sal, o Brasil é uma potência em petróleo ESG, ou guilt-free (livre de culpa), para não usar uma expressão tão contraditória. Outros países da região também podem se beneficiar, notadamente Colômbia e Argentina. É nesse aspecto que a tese de doutorado de Palacios faz todo sentido. O modelo de abertura do setor nesses três países favoreceu o desenvolvimento do setor de energias renováveis. O México, que optou por um modelo estatal, por sua vez, tem maiores dificuldades pela resistência em reduzir a importância econômica da monopolista Petróleos Mexicanos (Pemex) – a participação das renováveis na matriz mexicana, apesar do grande potencial geográfico, está abaixo da média mundial.

Resta a Venezuela. Segundo a pesquisadora, apesar do país estar localizado sobre a maior reserva de petróleo do mundo, é improvável que receba investimentos para desenvolver o setor. Não há necessidade de perfurar mais poços de petróleo para atender a demanda futura, e lidar com a instabilidade política venezuelana é algo que poucos investidores se arriscam a fazer. “A Venezuela é o exemplo real do que acontece com quem ignora a transição energética”, afirma Palacios, que não compreende por que o Brasil está falando em perfurar poços na foz do Rio Amazonas. Daqui em diante, o foco é qualidade, não quantidade.

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