ESG

Incluir é a melhor forma de investir

Ao fomentar a diversidade, não apenas promovemos a inclusão social, mas também desencadeamos um vigor criativo e uma produtividade sem precedentes, escreve Celso Ahtayde

Celso Athayde (Cufa) entre Raphael Vandystadt e Sergio Gordilho, Africa Creative: capacitação de jovens criativos de favelas (Rodrigo Pirim/Reprodução)

Celso Athayde (Cufa) entre Raphael Vandystadt e Sergio Gordilho, Africa Creative: capacitação de jovens criativos de favelas (Rodrigo Pirim/Reprodução)

Celso Athayde
Celso Athayde

CEO da Favela Holding

Publicado em 28 de dezembro de 2023 às 07h02.

Recentemente, li uma frase de um maluco chamado David Graeber (1961-2020) --antropologista americano, notório ativista e anarquista -- que me fez pensar. "A maior e mais oculta verdade do mundo é que ele é algo que nós criamos e que podemos facilmente recriar de outra maneira". Não sei o que você acha disso, mas é um estandarte poderoso para quem, como eu, é um inconformado, que luta para demolir pensamentos que nos diminuem, empurram para trás e nos impedem, entre outras coisas, de construir um mercado de trabalho mais diverso e verdadeiramente inovador.

Eu escuto essa ladainha o tempo todo, por todos os cantos. Chamo ladainha apenas por ser uma eterna narrativa das marcas, sem que elas efetivamente mostrem resultados. Quem me conhece sabe que não sou de ficar reclamando de nada e de ninguém, tento fazer.

Num mercado mais aberto à pluralidade, encontramos a chave para recriar e revitalizar nossa percepção do mundo. Falar bonito, é bonito. Contudo, fazer dá um puta trabalho, pois há uma precariedade gigante na formação de mão-de-obra que, na ausência de oportunidades, não consegue se aprimorar. Por isso digo que reclamar não adianta nada, se a reclamação não vier adicionada de atitudes e propostas objetivas.

Tem de arregaçar as mangas, arregimentar uma boa galera e começar o trabalho. Se for um equívoco, refaça. Mas faça, se quiser mudar de fato.

Começar o trabalho, nesse caso, significa capacitação profissional de milhares de jovens. Aliás, jovens de qualquer idade. A colaboração entre a Africa Creative e a CUFA, estruturada a partir de uma conversa rotineira minha com Raphael Vandystadt e Sergio Godinho, parceiros e executivos da agência, exemplifica essa transformação. Esta união visa formar talentos criativos provenientes de favelas e periferias, oferecendo oportunidades únicas para aqueles que, tradicionalmente, são marginalizados pelas grandes empresas do asfalto.

Não desejo e não faremos isso por altruísmo apenas. Faremos porque incluir é a melhor forma de investir. Ao fomentar a diversidade das equipes de trabalho com pessoas vindas desses territórios, não apenas promovemos a inclusão social, mas também desencadeamos um vigor criativo e uma produtividade sem precedentes, por certo. A nossa parceria Africa, Favela Holding e CUFA é um tributo a esse potencial transformador e um laboratório para a tese que expressa que a convergência de mentes diversas estimula a inovação e abre portas para narrativas publicitárias autênticas que, ressoam genuinamente com diversos públicos.

A compreensão de novas perspectivas é um dos maiores benefícios derivados da diversidade. Quanto mais pretos e pardos, PCDs e pessoas LGBTQIA+ compõem as equipes criativas, mais rica se torna a tapeçaria de ideias e experiências. Essa riqueza não é apenas estética; ela fortalece o elo entre marcas e consumidores, refletindo uma compreensão autêntica e sensível das complexidades sociais.

Neste cenário, a nossa parceria se destaca como um farol, guiando-nos para um futuro em que a criação não apenas reflete, mas molda ativamente as múltiplas realidades que coexistem em nossa sociedade. E essa é a nossa convocação para todo o setor produtivo brasileiro.

Amigos, não se iludam: a transformação está nas mãos daqueles que ousam diversificar, recriar, desafiar e assim expor "as verdades” perversas do mundo que criamos - e que só depende de nós aposentar.

Pensem nisso, e se chegarem à conclusão de que vale a pena, peguem o telefone e liguem. Entra no bonde que ele vai ficar pesadão, dão, dão...

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