Empreendedorismo e comunidade

Do conceito à pratica, quando o Business Community alia lucro a impacto social com o incentivo ao intraempreendedorismo comunitário
 (poba/iStockphoto)
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Daniela GrelinPublicado em 27/06/2022 às 10:00.

Para milhões de brasileiros, empreendedorismo é só outra palavra para sobrevivência. Segundo o SEBRAE, em 2021, 3,9 milhões de empreendedores formalizaram suas micro ou pequenas empresas ou se registraram como microempreendedores individuais (MEIs). Todos os anos, seja por vocação, por oportunidade ou por necessidade, milhões de pessoas descobrem-se empreendedores.

Identificá-los, reconhecê-los e capacitá-los é o campo de atuação de inúmeros órgãos de apoio ao empreendedorismo, notadamente valiosos, como o SEBRAE. Muitas vezes, no entanto, essa é uma jornada solitária e árdua para o pequeno empresário. Não precisa ser assim.

Podemos somar as palavras empreendedorismo e comunidade e passamos a ter uma combinação poderosa que alinha ambição ao altruísmo, lucro ao propósito, talento individual ao apoio da rede em uma lógica Business to Community mais capaz de atender às necessidades do cliente ao legitimá-lo como catalizador de toda uma comunidade.

Em seu livro “Morality”, Jonathan Sacks chama a atenção para o poder da noção de pacto para fortalecer vínculos com base em valores, acionando uma dimensão da colaboração humana não alcançada pelos contratos de negócio.

Ele diz que interesses individuais geram contratos comerciais, mas quando indivíduos, reconhecedores de sua dignidade e integridade comuns, compartilham valores e visões, eles podem voluntariamente se comprometer com o bem comum. Estabelece-se então uma dinâmica baseada em identidade, lealdade, confiança e colaboração que habilita a comunidade a alcançar o que nenhum dos indivíduos conseguiria sozinho.

Ora, o poder do empreendedorismo social está justamente em combinar a dimensão transacional da criação do novo negócio, alcançada via contratos, à esfera transformacional, ou via pacto comunitário, para fortalecer a busca de prosperidade e justiça social, que interessa ao pequeno empresário, às empresas e à sociedade.

Por isso mesmo, algumas companhias e organizações sociais descobriram que o incentivo à liderança comunitária pode ser uma importante alavanca de geração de valor e têm explorado caminhos promissores para fazê-la trabalhar em sua capacidade máxima. Como? Por meio do incentivo ao empreendedorismo social via fortalecimento desses representantes locais.

Essa é a lógica que permeia a economia de impacto e fundos de investimento de efeito, como a Bridges Fund Management que há mais de 20 anos seleciona projetos a partir da convicção de que os negócios e o investimento financeiro têm um papel crucial na viabilização de recursos para os desafios ambientais e sociais mais prementes.

Para promover o engajamento do próprio público interno, a empresa criou a The Bridges Impact Foundation. O papel da Fundação é prover apoio transformador e soluções inovadoras para as populações vulneráveis e o planeta. Lançado em 2007, direciona investimento filantrópico dos próprios integrantes da equipe do Fundo Bridges que doa 10% de seus lucros aos projetos selecionados, promovendo assim o engajamento genuíno, como parte interessada comprometida.

Outro exemplo, mais próximo de nós, é o Prêmio #Juntas Transformamos, do Instituto Avon. Criado em 2019, o reconhecimento foi concebido para convocar a rede de representantes Avon a apresentarem seus projetos ou ideias de intervenções sociais em suas comunidades, com foco nas causas da atenção ao câncer de mama e enfrentamento da violência contra mulheres e meninas.

Os projetos selecionados participam de um encontro de percepção por meio de um evento de premiação e iniciam assim uma jornada de seis meses de capacitação em empreendedorismo social e recebem um capital semente para fortalecimento das iniciativas.

O que começou como uma premiação às mulheres que fazem a diferença, evoluiu para um programa que tem como um de seus principais vetores de sucesso, a integração entre as ganhadoras em uma troca de conhecimentos e encorajamento que regenera a comunidade empresarial, de dentro para fora.

É sobre ressignificar o ecossistema de negócios, como uma força que vai além dos ganhos privados, tornando-se uma alavanca regeneradora de comunidades com impactos sociais que em muito excedem os resultados financeiros da empresa.

Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon.