A favela vai para Davos: os bilionários e suas manias

A vida do bilionário é diferente, mas, no Fórum Econômico Mundial, ricos e pobres utilizam as mesmas estruturas, inclusive o banheiro. Celso Athayde relata seus encontros com os "maludos" em Davos
Recepção de boas-vindas do Fórum Econômico Mundial: na festa dos bilionários, a comida é liberada (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)
Recepção de boas-vindas do Fórum Econômico Mundial: na festa dos bilionários, a comida é liberada (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)
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Da RedaçãoPublicado em 23/05/2022 às 11:18.

Celso Athayde*

Neste final de domingo, terceiro dia pré-Fórum Econômico Mundial, as ruas ainda estão sem muita movimentação. Eu tinha certeza de que, já na sexta-feira, a cidade estaria absurdamente lotada, sobretudo porque aquela geladeira com tanto gelo, de temperaturas abaixo de zero, não está rolando por aqui. Muito pelo contrário. Está um lindo sol em Davos.

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Resolvi conhecer o prédio onde acontecem as atividades, o ensaio da premiação -- que será nesta segunda-feira, às 12h45, horário de Brasília -- e várias reuniões de trabalho, seja com gente de organizações sociais, ou de empresas pequenas e grandes. Parte dessas pessoas já conhece nosso trabalho, porque se informaram com a produção bem antes.

Mas, hoje, resolvi olhar o Fórum com um olhar de fora, e não de quem está sendo premiado, e percebi as contradições nas reuniões e debates. Se bem que se, eu quiser achar defeito em tudo, eu vou conseguir. Quando eu saí do hotel, desci o elevador, tipo esses bondinhos privados de favelas bem íngremes. O daqui é amarelinho, bem parecido com os táxis novaiorquinos. São três cabines que podem levar 10 pessoas sentadas e umas oito em pé, em cada vagão.

Ao descer, três policiais me disseram: “Dirija-se para os próximos vagões, senhor, esse já está reservado”. Eles estavam de terno preto e gravata, todos loiros e falavam alemão fluente. Mais tarde, descobri que, nessa região, os suíços falam alemão como primeira língua. Mais perto da França, eles falam francês.

Respeitei, e fui para o terceiro vagão. Quando passei pelo segundo, eu avistei seis policiais, e no meu vagão, mais 4, aproximadamente. Todos com o mesmo perfil. Só não dava para saber para quem era todo esse aparato. Chegando lá embaixo, eu resolvi esperar e ver quem era a peça.

Os policiais passaram escoltando um rapaz, branco, de cabelos bem pretos e longos, igual ao do Pepeu Gomes nos bons tempos de “Os Novos Baianos”.  O rapaz não deveria ter mais de 23 anos.

Será que ele era chefe de estado ou filho de algum chefe? Vai saber… Ele entrou no banco de trás de um furgão preto e partiu, com uma viatura de polícia abrindo caminhos. A única coisa que ele deveria ser era mais um bilionário, de algum lugar desse mundão de Deus. Peguei minha mochila, e parti para o grande salão do fórum. Sem antes passar para fazer meu teste de Covid.

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Daquele momento em diante, eu passei a prestar mais atenção nos bilionários em todos os lugares. Eles estão em toda parte. Alguns bem conhecidos, e outros apenas bilionários anônimos. Mas é lógico que há representantes do “povão” também, que são convidados pelos seus importantes trabalhos voluntários para a sociedade global, a partir das suas cidades e seus coletivos.

É muito natural que os “maludos ou endinheirados” venham pra cá. Pois a foto e o fato mundiais estão aqui. Os holofotes de poder, de marketing e de reputação estão aqui. Mesmo que a pessoa gaste uma fortuna para tirar uma selfie do lado de fora e postar em suas redes, esse gesto vai contribuir para uma percepção positiva em seu grupo social. Não é por acaso que, outro dia, o Mamãe Falei fez uma aventura dessas, em outro contexto, é verdade, mas ainda assim vale como exemplo.

Os principais CEOs estão aqui, fazendo reuniões de 15 segundos ou duas horas. O tempo dessas reuniões nem sempre faz diferença, assim como não faz tanta diferença o resultado. Elas só precisam existir e ser devidamente registradas. O fato é: aqui que se discute de verdade as soluções do mundo. Calma que não estou afirmando que as soluções saem necessariamente desse povoado. As decisões e debates podem ser sobre o coronavírus, ameaça de bombas no velho mundo ou mesmo a guerra da vez, Rússia x Ucrânia. Tudo pode ser falado e reverberado porque a mídia está aqui.

Eu só não sei se outras guerras em países africanos tiveram ou têm espaços importantes aqui para encontrar soluções reais. Não creio.

Muitas são as críticas sobre esse evento, inclusive de moradores. Mas, a bem da verdade, falar de globalização, clima, sustentabilidade, fome mundial, entre tantos temas, saindo da boca de tantos poderosos, vai soar sempre contraditório. É como uma empresa de venda de armas em massa fazer campanhas para baratear o custo dos curativos em corpos crivados de balas, como se tivessem preocupados de fato com os alvejados. De qualquer forma, eles, os poderosos, devem ter seus argumentos e estou aqui para ouvi-los.

Cada bilionário com seus hábitos e suas manias

Não quero contar apenas sobre as marcas dos seus carros blindados e o tamanho dos seus charutos. Quero falar de momentos de intimidades dos bilionários.

Hoje, depois do almoço, , eu fui agredido violentamente por dois deles. Um me agrediu, enquanto seu colega fazia a escolta ou contenção. Aliás, eu nem sei se eu estou certo, pelo que ocorreu ou, se mais uma vez, a vítima será transformada em culpada. Mas vamos aos fatos: após degustar meu salmão, e todos aqui podem se alimentar livremente no grande circo sem nenhum custo, eu me dirigi ao banheiro dos maludos, ou como dizem os baianos, dos barões.

Quando entrei, um homem estava ao lado de outro homem fazendo xixi, nesses mictórios comuns de banheiros masculino. A diferença era a qualidade das louças. O primeiro, que tinha a pele do tom do Silvio Santos, olhou para trás para ver quem estava entrando e emparelhou seus olhos aos meus, imediatamente desviei o olhar e segui, aliás o que não é comum nesses lugares. Afinal, quem olha muito quer assunto.

Eu fingi que não era comigo. Encostei do lado do sujeito, abri a barriguinha e iniciei meu ritual. As cabines do banheiro estavam com portas fechadas, indicando ocupação. Percebi o bilionário virar seu rosto para o lado em minha direção, indicando que queria ter alguma informação mais apurada, e do nada, absolutamente do nada, um homem de mais ou menos 57 anos, com puta cordão de banqueiro de jogo do bicho, aparentando pelo terno ser um ricaço, ao lado de um cúmplice, acho, me solta um peido do tamanho de um tiro.

Eu cheguei a tomar um susto, e o desgraçado olha para o lado e dá um sorriso quase me perguntando: “curtiu?”, ele não disse… Imediatamente me senti agredido e desrespeitado. Não apenas pelo ato, como pela forma. Pois ele estava lá antes de mim, e parecia que ele estava esperando alguém para se vingar de algum problema que ele estava passando. Não foi acidente, foi premeditado.

Meu coração encheu de ódio. Saí dali imediatamente, antes que ele aprontasse de novo. Talvez alguém diga que ali é um banheiro e, portanto, um lugar apropriado para isso. Pode até ser, e se for, vou propor que se crie um banheiro específico para tais agressões e covardias. Afinal, não é esse comportamento que se espera de um bilionário.

Eu já tinha passado por outra situação em outro banheiro em uma festa de emergente, mas nem de longe se parece com isso.

O fato aconteceu na festa do Ronaldo Fenômeno. Ele ainda jogava na Itália, e resolveu fazer uma festa de aniversário no Corcovado. Para isso, juntou os amigos da época, que eram os bacanas, e do outro lado juntou bons velhos amigos de Madureira e Bento Ribeiro.

E lá estava eu, filhos e mulher. Até que recebi a missão de levar o meu mais velho, o Júnior, no banheiro para fazer o sagrado pipi. Ao chegar no local sabe quem estava lá, fazendo a mesma coisa que todo mundo faz, inclusive o Papa?

Ele mesmo, Gabriel, O pensador. Meu filho o adorava e cantava todas as músicas do CD “Quebra Cabeças” do Gabriel. Eu não queria aquele encontro traumático, meu filho entrando e vendo o rapper com as tripas de fora. Ele imediatamente correu para avisar a todos da família. “mãe, eu vi a muriçoca do pensador”.  Que vergonha, meu Deus… Júnior devia ter seus 5 anos de idade.

Mas vamos voltar para Davos.

A única coisa que posso garantir é que vou escolher outros banheiros para evitar constrangimento. Pois, se um cara como aquele faz essa covardia comigo daquela maneira, então, não vou aceitar seu possível argumento de que está ali para salvar o mundo. Por fim, o encontrei depois em um corredor sem o seu amigo. Ele me cumprimentou com um balançar da cabeça, como se estivesse tudo bem entre nós, como se não tivesse cometido nenhum crime.

Agora vou me preparar para o grande dia! Quem quiser assistir o momento em que 17 milhões de brasileiros serão representados no Fórum Econômico Mundial, pode acessar o link:

https://www.weforum.org/events/world-economic-forum-annual-meeting-2022/sessions/transforming-through-trust

*Celso Athayde é cofundador da Central Única de Favelas (Cufa) e CEO da Favela Holding