Acompanhe:

Preço da carne atinge maior nível dos últimos 30 anos — até quando?

Do início de setembro para cá, o valor da carne bovina no atacado já subiu quase 50%; analistas apostam em até 4 meses para que volte ao normal

Modo escuro

Continua após a publicidade
Carne bovina: aumento foi repassado quase que integralmente para o varejo em alguns cortes de bovino (Phil Clarke Hill/In Pictures/Getty Images)

Carne bovina: aumento foi repassado quase que integralmente para o varejo em alguns cortes de bovino (Phil Clarke Hill/In Pictures/Getty Images)

L
Ligia Tuon

Publicado em 3 de dezembro de 2019 às, 06h00.

Última atualização em 5 de dezembro de 2019 às, 11h24.

São Paulo — Quem faz compra nos supermercados e açougues sabe: a carne está mais cara do que nunca. E tudo conspira para que os preços fiquem nas alturas, pelo menos pelos próximos meses.

Do início de setembro para cá, o valor da carne bovina no atacado já subiu quase 50%. O pico é tão forte que, no gráfico (veja abaixo), é representado por uma linha quase reta para cima. Esse aumento foi repassado quase que integralmente para o varejo em alguns cortes de bovino.

É o caso do contrafilé que, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), teve reajustes acima de 50% em menos de três meses, e do coxão mole, que subiu 46% no período.

Segundo pesquisa da BoiSCOT Consultoria, o mercado está agitado com cotações subindo em média 8,9% por semana desde início de novembro.

O levantamento indica que o atual preço da arroba bateu recordes e chega a ser negociado por R$ 230, com aumentos registrados em 29 das 32 praças do Estado de São Paulo pesquisadas pela entidade.

"É a primeira vez, desde novembro de 1991, que a cotação atinge esse patamar (considerando o preço nominal e também o preço deflacionado)", disse a BoiSCOT quado o preço bateu R$ 200. 

Esse movimento é motivado por motivos internos e externos. O principal deles é a China.

O maior consumidor de carne bovina do mundo teve sua criação de porcos dizimada pela peste africana em meados de agosto do ano passado. Cerca de 40% dos animais precisaram ser abatidos para não espalhar a doença. E como o vírus não apresenta perigo para o consumo humano, esse estoque ainda durou por um tempo, mas o efeito da escassez eventualmente chegou ao preço.

"A China vai demorar para poder recompor todo o estoque das suas matrizes. Pode demorar de dois a três anos para que tudo possa voltar a patamares normais. Parte disso vai ser suprido por importação de carne bovina e o Brasil está entre esses países exportadores. Nossa produção de carne bovina é bem grande", diz Julia Passabom, economista especialista em inflação do Itaú Unibanco. 

O volume exportado em outubro foi de 185,5 mil toneladas, um crescimento de 15% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC).

Em relação ao mês anterior, o aumento reportado foi de quase 62%, elevando a receita US$ 808,4 milhões, 30% acima do mesmo mês em 2018.

"O real desvalorizado em relação ao dólar também contribui para a alta das exportações, porque deixa o produto brasileiro mais competitivo lá fora", acrescenta Passabom.

Além da influência das exportações, bastante voltadas para a China, há outros fatores que influenciam o preço da carne no Brasil. Um deles é a sazonalidade.

"Chegando ao fim do ano, os brasileiros ganham décimo terceiro salário, fundo de garantia, o que naturalmente já aquece a demanda para esse tipo de alimento", diz Passabom. A demanda mais aquecida pelo item também é estimulada pelas festas de fim de ano.

Outro motivo é a entressafra no setor de criação de gado, que acontece nessa época: "Faz parte da característica do ciclo da proteína. Há um abate mais forte no começo do ano. Então a oferta acaba ficando um pouco mais reduzida nos últimos meses do ano. Mas só isso normalmente não incentiva grandes desvios de preço", diz Passabom.

Até quando?

É difícil dizer exatamente até onde vai a pressão sobre o preço da carne no Brasil, mas, na opinião de economistas, ainda falta uns meses para que o mercado possa encontrar um equilíbrio.

"Com o Ano Novo Chinês, em janeiro, essa pressão se manterá", diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. A consultoria mantém sua projeção de um IPCA a 3,6% ao ano em 2020, apostando numa estabilização desse movimento. 

"Daqui a três ou quatro meses, isso deve se normalizar", aposta Álvaro Bandeira, economista-chefe do banco digital Modalmais. O prazo é o mesmo arriscado pelo presidente Jair Bolsonaro em transmissão feita pela internet. 

Na semana passada, a ministra da Agricultura Tereza Cristina chegou a dizer que o preço da arroba do boi gordo poderia arrefecer nesse período, mas que não retornaria mais ao patamar anterior, uma vez que a sinalização do mercado é de que os preços estão deprimidos.   

De uma forma ou de outra, o jeito é trocar o filé pelo frango nos churrascos do verão. Haja coração.

Últimas Notícias

Ver mais
Aumenta a confiança da indústria, diz pesquisa da FGV
Economia

Aumenta a confiança da indústria, diz pesquisa da FGV

Há 21 horas

IFI reduz estimativa para dívida bruta em 2024, de 78,8% para 77 7% do PIB
Economia

IFI reduz estimativa para dívida bruta em 2024, de 78,8% para 77 7% do PIB

Há um dia

Blinken diz que Argentina 'pode contar' com EUA para estabilizar sua economia
Economia

Blinken diz que Argentina 'pode contar' com EUA para estabilizar sua economia

Há um dia

Governo prorroga inscrições de programa para participação de mulheres no comércio exterior
Economia

Governo prorroga inscrições de programa para participação de mulheres no comércio exterior

Há um dia

Continua após a publicidade
icon

Branded contents

Ver mais

Conteúdos de marca produzidos pelo time de EXAME Solutions

Exame.com

Acompanhe as últimas notícias e atualizações, aqui na Exame.

Leia mais