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Solicitar um carro de aplicativo, como Uber e 99, vem se tornando mais difícil nos últimos meses. Antes, com alguns cliques, um veículo aparecia em poucos minutos. Agora, a chance de ter um pedido sem resposta ou cancelado se tornou mais comum. Mas por que está tão difícil? A resposta é simples: motoristas são bons de conta, e estão insatisfeitos com os seus ganhos. 

Os condutores não têm poder para definir o preço das corridas, que seguem algoritmos das plataformas. Assim, eles não podem repassar aos clientes aumentos de custos com combustível e manutenção. Com isso, passaram a ficar mais seletivos e a fazer contas antes de aceitar viagens. Se acharem que não vale a pena, preferem ficar parados ou rodarem sem passageiro até aparecer um pedido melhor.

Ao mesmo tempo, foram criados aplicativos para motoristas que avaliam o valor das viagens, para indicar quanto o profissional ganhará por minuto ou hora de trabalho, e que sugere se aquela viagem vale a pena ou não. A resposta vem em segundos. 

Em agosto, a Uber entrou na Justiça contra um deles, o StopClub, que recusava corridas desvantajosas automaticamente. A empresa americana obteve uma liminar que determinava o bloqueio do app, em agosto, mas o veto foi derrubado em setembro, por uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo. 

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Profissionais ouvidos pela EXAME, sob anonimato, disseram que, em São Paulo, o ideal é tentar faturar ao menos em torno de R$ 50 por hora de trabalho, excluída a taxa do aplicativo. Esse dinheiro, além de ser uma renda pessoal, é usado para custear gastos como combustível e manutenção do carro.

Há também contas por quilômetro, como ganhar ao menos 2 reais por km rodado. "Com o litro da gasolina a 5 reais, não vale a pena trabalhar 20 minutos para ganhar 10 reais", diz um motorista, que comenta que buscar passageiros mais distantes também reduz ganhos. "Se preciso rodar 2 km para fazer uma viagem de 2 km, saio no prejuízo." 

Da mesma forma, corridas muito demoradas são evitadas. De manhã cedo, tem sido difícil encontrar motoristas na zona norte de São Paulo que queiram ir para a zona sul, por exemplo, com temor de perder tempo nas marginais. Como a viagem pode levar mais de uma hora e custar em torno de 80 reais para o cliente, muitos motoristas preferem esperar trechos menos congestionados para ter um retorno melhor.

Taxa da Uber

Outra queixa dos motoristas é que a taxa cobrada pela Uber por corrida, antes fixa, se tornou flexível, sem que o motorista saiba quanto ela é.

Por exemplo: uma corrida de 20 reais pode render 11 reais ao motorista, ou  15 -- ou até 21 reais, mais do que o valor da corrida. A variação é definida por um algoritmo, cujas regras exatas não são conhecidas pelos trabalhadores nem pelos passageiros. Há queixas também de que a Uber nem sempre repassa aos motoristas o aumento do valor das corridas em situações de preço dinâmico, quando há grande procura de usuários em um mesmo lugar. 

"Em média, as empresas ficam com cerca de 15% do valor das corridas. Vai ter corrida que você está pagando 20, ele vai estar recebendo 10, mas pode ter corrida que você está pagando 8 e ele está recebendo 10. Isso depende muito do modelo de oferta e demanda", diz André Porto, diretor-executivo da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como Uber, iFood e 99. Procuradas pela EXAME, as empresas disseram que se pronunciariam por meio da associação.

Porto avalia que a definição de um valor de remuneração mínima, em debate no Congresso, seria a melhor resposta (leia mais abaixo), e que limitar taxas traria problemas. “Isso faz parte do modelo de negócio de cada uma. A gente não pode simplesmente restringir porque vai estar podando a inovação das próprias plataformas”, afirma.

Por que motoristas aceitam e cancelam corridas de Uber?

Em resposta aos motoristas que passaram a recusar corridas, os aplicativos criaram regras para tentar evitar isso, como punir quem rejeita vários pedidos em pouco tempo e deixá-los por um período sem receber demandas.

Para escapar disso, parte dos condutores passaram a aceitar algumas viagens que não querem fazer, e cancelá-las minutos depois. Isso faz com que usuários acabem esperando em vão e percam tempo até que um novo motorista aceite.

"Se eu aceito uma corrida enquanto estou terminando outra, fico sem receber novos pedidos ruins enquanto isso, que teria de cancelar. É vantagem para a gente, embora irrite o usuário. Mas é o jogo", afirma um motorista.

"Todo ecossistema precisa de regras. Você não pode permitir que o motorista logue na plataforma e fique logado só cancelando e cancelando, porque está prejudicando todo o ecossistema e a segurança daquilo", diz Porto, da Amobitec. 

Nos últimos meses, as plataformas também fizeram alterações nos aplicativos, como criar categorias um pouco mais caras que a básica, como Uber Comfort e 99Plus. O app da Uber, por exemplo, sugere mudar a categoria da viagem para uma superior para aumentar as chances de aceite da corrida. Em outra mudança recente, a opção de cancelar um pedido ficou mais escondida: em vez de aparecer na tela inicial, fica oculta dentro do botão “informações da viagem”.

Debate sobre regulação dos apps

Há um debate em andamento na Câmara dos Deputados sobre novas regras para o trabalho por aplicativo. Um dos pontos em discussão é definir uma remuneração mínima aos motoristas. Em março, foi criada uma subcomissão na Câmara para debater o tema. 

“Defendemos o mínimo de 2 reais por quilômetro rodado e 10 reais a hora mínima de trabalho. O trabalhador não pode estar na rua sem um ganho para sustentar o trabalho dele”, diz Leandro Cruz, presidente da Fenasmapp, que reúne sindicatos de motoristas por aplicativo.

As empresas, por outro lado, consideram que o valor líquido mínimo ganho por hora seja de 6 reais, número proporcional ao salário mínimo mensal nacional. A proposta atual da Amobitec prevê valor mínimo de 21,22 reais por hora trabalhada para os motoristas, e de 12 reais para entregadores de moto, para que eles possam custear os gastos de manutenção dos veículos. “Com um mínimo legal, a gente garante uma remuneração mínima adequada ao trabalhador e, ao mesmo tempo, permite que os modelos de negócios tenham competição entre si. A remuneração por quilômetro rodado travaria os modelos de negócios”, diz Porto, da Amobitec.

No entanto, um dos pontos sensíveis é o debate sobre a remuneração do tempo de espera: as empresas defendem que a remuneração deve considerar apenas o tempo em viagem, e desconsiderar o de espera por chamadas ou pedidos, no caso de entregadores. 

Atualmente, a subcomissão e o Ministério do Trabalho estão debatendo o projeto de lei, que deve ficar para 2024, já que o ano de trabalho no Congresso já está em reta final. Quem espera por essas novas regras também vai precisar ter paciência.

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