Dilma I nem tentou gastar menos, diz professor da FGV

Bernardo Guimarães lamenta que "na campanha, fica parecendo que a gente deve decidir se o governo quer dar mais dinheiro para a gente ou não"

São Paulo – Não há crise internacional que justifique o momento atual brasileiro - e um dos nossos problemas é o descolamento entre o debate político e a realidade econômica.

É o que diz o economista Bernardo Guimarães, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo. Formado em Engenharia de Produção e PhD na Universidade de Yale, ele deu aula na London School of Economics entre 2004 e 2010. 

Em 2003, escreveu um artigo com Nouriel Roubini sobre países que recebem ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), um de seus temas de pesquisa.

Bernardo acaba de lançar na Amazon o livro "A Riqueza da Nação no Século XXI", uma alusão ao clássico "A Riqueza das Nações" de Adam Smith.

A obra passa de forma clara e didática por diversos temas da economia brasileira que foram objeto de polêmica em tempos recentes - do controle de preços ao crédito do BNDES, passando por direitos trabalhistas e programas de transferência de renda.

Nesta semana, Bernardo deu uma entrevista por telefone para EXAME.com. Veja os principais trechos:

EXAME.com – Um diagnóstico comum é que Lula soube alavancar um bom cenário, enquanto Dilma piorou um cenário que já era ruim. Você concorda?

Bernardo Guimarães – Lula pegou um momento melhor não só econômico, mas político. Muito já havia sido feito na Fazenda e era mais fácil um ajuste fiscal com popularidade grande. Teve um pouco da sorte do momento, mas ele também fez coisas que queriamos que fosse feito e poderia ter sido muito mais intervencionista do que foi. 

Dilma teve mesmo alguma crise internacional, mas em 2010 o Brasil já crescia 7,5%. Na época, o próprio discurso oficial era de que "a marolinha passou". Teve de fato uma crise grande na Europa, mas entre 2011 e 2014 o mundo cresceu 3,5% por ano, mais ou menos o que crescia antes, tirando 2003-2007.

EXAME.com – A impressão é que quando o governo fala em crise internacional, é código para “queda das commodities”.

Guimarães – Tem mesmo esse processo de queda do preço das commodities que é ruim para nós, mas só comparado com um período curto quando estavam muito altos. E nós não somos um país tão aberto assim, então o efeito não é tão grande.

Hoje você tem juro zero no mundo, o que favorece países como Brasil. E se quiser olhar para tudo, teve todas as crises internacionais dos anos 90 (Ásia, Rússia, etc). Sempre tem alguns episódios acontecendo, mas no geral não é correto dizer que o mundo está indo devagar - está no passo que sempre foi.

EXAME.com – O relaxamento das contas públicas foi uma estratégia deliberada ou a mera continuidade de uma trajetória de gastos engessados dependentes de um crescimento alto da receita?

Guimarães – Você tem de fato uma questão fiscal de longo prazo, como destaca o Mansueto de Almeida. É que outros governos, como FHC e Lula 1, tiveram mais vontade de fazer ajustes e tentar conter gastos, e esse último teve menos, além da ideia de "consolidação fiscal amigável ao crescimento".

A Dilma resolveu gastar mais? Essa é uma pergunta. Mas o importante é que ela não tentou fazer com que se gastasse menos.

EXAME.com – E nesse momento, com redução da meta e dificuldades no Congresso, para onde vai o ajuste fiscal?

Guimarães – Eu realmente não sei, mas o limitante é político. Se um governo é eleito falando que não tem que fazer ajuste, que tá tudo ótimo e que é o outro lado vai colocar banqueiro na Fazenda, você não vai conseguir [fazer isso lá].

Parte do que a gente vê hoje é resultado dessa síndrome de ter uma discussão política deslocada da realidade. Você também tinha a oposição falando em mexer no fator previdenciário - coisas para agradar o eleitor, mas que fica parecendo que a gente vive em um mundo onde devemos decidir se o governo quer dar mais dinheiro para a gente ou não. 

EXAME.com – O livro fala bastante destas janelas entre curto e longo prazo, discurso político e prática, intenções e consequências. Mas como mudar políticas com consequências dolorosas para colher benefícios difusos que só aparecem em de muito tempo?

Guimarães – Eu acho que muitas vezes a população nem percebe que há um ganho. O discurso é que se o governo não der aquele crédito do BNDES, aquele dinheiro vai sumir. Como fazer reformas nesse mundo?

Acho que esse foi um dos grandes méritos do time do Palocci, Marcos Lisboa e Bernard Appy: fazer pequenas reformas entre 2003 e 2005 - como a fiduciária, do crédito consignado, etc. O caminho deve ser gradual porque isso dá tempo do mercado se ajustar. Se você tirar tudo de uma vez, um monte de coisa vai dar errado e você não vai ter para onde correr.

Ir tirando o crédito do BNDES dá tempo para o mercado privado de fato começar a dar crédito de longo prazo. Se um dia não tiver BNDES, vai ter dinheiro pra caramba pra investir, mas hoje não tem porque ninguém vai competir com uma taxa de longo prazo de 6,5%. 

EXAME.com – A explosão dos recursos do BNDES criou um público cativo, mas ao mesmo tempo, o Brasil tem um problema crônico de falta de investimento. O desafio para mudar o modelo são interesses ou o medo do desconhecido?

Guimarães – De fato você tem uma dificuldade política de mexer em uma coisa que interessa a muita gente. Se mais pessoas entendessem que não estamos criando crédito do além e sim direcionando, teríamos mais apoio a reduções do tamanho do banco.

O projeto do pessoal da “Agenda Perdida” lá no começo do governo Lula era de diminuir as restrições implícitas para gerar poupança e investimento. Foi quando se começou a criar esse negócio de LCA e LCI com a ideia de que o mercado de crédito estava atravancado e precisava ser mais livre. E eu acho que o caminho é esse.

EXAME.com – O corte dos juros no primeiro governo Dilma acabou sendo revertido diante da alta da inflação. Mas também refletiu a ideia de que existe algo disfuncional que faz, por exemplo, que os bancos tenham lucros recordes em um momento de crise. Há uma desconfiança de que o modelo atual não seria substituído. O que tem de verdade nisso?

Guimarães – Tem um mercado cada vez mais concentrado e sem muito risco, e isso faz com que eles ganhem muito dinheiro mesmo na crise. Por ser menos livre, não passamos por tantas crises: a gente não tinha os problemas de alavancagem e hipotecas dos EUA.

Mas tem coisa que dá pra fazer: uma que sempre volta para a pauta e é esquecida é o cadastro positivo. Se o Itaú puder ver que eu sempre paguei meu cheque especial do Bradesco, tem todo o incentivo para me dar um juro mais baixo. E se combinam de não dar, vai chegar outro que quer dar a 4% pra fazer dinheiro, e assim você cultiva uma competição que não teria de outras maneiras.

Eu entendo esse medo do desconhecido, mas a resposta é olhar para o problema de fundo. Não dá pra baixar juros ou spread sem pensar porque eles estavam altos antes, e parece que esse governo não está fazendo esse tipo de pergunta. 

EXAME.com – O livro também fala das resistências internas na transição do Fome Zero para o Bolsa Família. A transferência direta de renda vem aparecendo muito – do terceiro setor na África a experimentos locais na Europa. É uma tendência?

Guimarães – Com certeza é. O Fernando Henrique Cardoso viu o sucesso de coisas como o Bolsa Escola e que tinha um monte de programas, mas que precisava ter só um para chegar nos mais pobres. E não sou lulista, mas é um mérito do Lula ter percebido que o Fome Zero não estava funcionando.

A oposição também teve esse problema de falar que tudo que foi feito nos últimos 12 anos foi errado. Daí a pessoa vê que a própria renda aumentou e não acredita. Precisamos ter um debate sério sobre o que é ruim e o que é bom, o que deu certo ou não, independente do político que implementou - um debate menos Fla-Flu.

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