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Balanço do PIB: consumo e serviços pós-pandemia seguraram, mas efeito acabou

A retração vista na economia no quarto trimestre mostra que juros altos, desaceleração global e fim do efeito da reabertura trazem cenário de risco para 2023

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Comércio: reabertura após o auge da pandemia liderou crescimento da economia em 2022 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Comércio: reabertura após o auge da pandemia liderou crescimento da economia em 2022 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

O produto interno bruto (PIB) do Brasil em 2022 fechou em alta de 2,9% frente ao ano anterior, mas os olhares se voltaram mesmo para a queda de 0,2% no quarto trimestre. Os resultados piores do fim do ano passado trazem alertas para 2023, em que uma desaceleração é dada como certa por economistas.

Até então, a alta agregada de 2022 se beneficiou do bom momento vivido por serviços e consumo. Pela chamada "ótica da produção", que divide a economia em três setores, os serviços tiveram alta de 4,2% em 2022, muito à frente de indústria (1,6%) e da agropecuária (queda de 1,7%). Pela "ótica da demanda", o mesmo cenário: o consumo das famílias puxou o crescimento, com alta de 4,3%.

O mundo, vale lembrar, havia passado anos em incertezas da covid-19. Ainda que a economia já estivesse em grande parte reaberta em 2021, muitos brasileiros só conseguiram completar a vacinação com duas doses no fim daquele ano. Atividades como viagens e grandes eventos também puderam voltar a ser planejadas.

Bares, restaurantes e turismo em alta

Desse modo, o primeiro semestre de 2022 continuou colhendo os "louros" da reabertura. A rubrica de "outros serviços" medida pelo IBGE, que inclui bares, restaurantes, turismo e outros, cresceu mais de 11% no ano.

"O setor de serviços que mais cresce é o setor de 'outros serviços', hotel, restaurante, bar, teatro, cinema", diz Cláudio Considera, coordenador do Monitor do PIB, do Ibre/FGV. "São coisas que estavam de certa maneira desativadas pelo isolamento."

Estímulos fiscais vindos dos governos em ano de eleição (em frentes como desoneração de combustíveis, aumento do valor do antigo Auxílio Brasil e obras) também seguraram o PIB no ano, dizem economistas, o que levou o consumo do governo a crescer 1,5%.

Crescimento do PIB em 2023 será desafiador

O final do ano, porém, trouxe o lembrete de que períodos mais desafiadores virão.

A queda da economia no quarto trimestre é "a primeira indicação da perda de fôlego da economia brasileira", escreveu nesta quinta-feira a MB Associados em relatório a clientes.

O Brasil vive um cenário de juros altos (com Selic em 13,75% e sem início de queda) e, somado a isso, um mercado de trabalho cuja recuperação pode ter pisado no freio. Após chegar perto de 15% no pior da pandemia, a taxa de desemprego caiu para 9,3% em dezembro (a melhor desde 2015), mas a abertura de vagas começou a desacelerar no segundo semestre passado, diz Natalia Cotarelli, economista do Itaú Unibanco.

"Esse efeito da reabertura passou."Natalia Cotarelli, do Itaú

O setor de serviços e a indústria respondem, juntos, por 90% do PIB, e ambos mostram desaceleração no crescimento no quarto trimestre de 2022:

  • No quarto trimestre, serviços cresceu 0,2%;
  • A indústria variou -0,3%;
  • E a agropecuária cresceu 0,3%.

"Então, embora tenha crescido 2,9% [em 2022], se olharmos os números, o crescimento começa alto no começo do ano e vai caindo. É uma desaceleração muito forte, e resta ver o que vai acontecer agora", diz Considera, do Ibre.

Agro é aposta para 2023

A mediana da projeção dos economistas ouvidos no último boletim Focus é de PIB crescendo 0,8% em 2023. Enquanto serviços foram vetor de alta no fim de 2021 e ao longo de 2022, o destaque do ano será o agro.

"O agro é a única ressalva em 2023, porque temos perspectivas que não tivemos em 2022. Neste ano, a soja deve ter um destaque positivo no primeiro trimestre e que ajuda a contribuir", diz Cotarelli, do Itaú.

O bom cenário para a safra do agro é parte da tese que faz o Itaú projetar crescimento de 1% para o primeiro trimestre (e de 1,3% para o agregado de 2023, acima da mediana do Focus). Cotarelli explica que há ainda um restante de atividade econômica positiva nestes primeiros meses de 2023, embora com desaceleração prevista em boa parte da economia até o final do ano.

Em 2022, o agro encolheu 1,7%, impactado por crise hídrica e quebras na safra vindas de períodos anteriores. A soja, principal produto da lavoura brasileira, teve queda de 11,4% na produção e ofuscou outras culturas que cresceram. O quarto trimestre do agro, na outra ponta, já mostrou sinais de recuperação que vêm da safra 2022/23.

Enquanto isso, efeitos da economia global também estão no radar, embora longe do cenário ideal. Por um lado, depois de um 2022 em que a indústria extrativa (queda de 1,7%) sofreu com os lockdowns na China, uma alta na demanda chinesa é prevista para 2023.

Por outro, o aperto monetário no Brasil e no mundo, com altas de juros para conter a inflação, afetam negativamente os preços das commodities brasileiras, inclusive na agropecuária. A indústria de transformação (queda de 0,3% em 2022) também segue afetada por alta de juros e custo da matéria-prima. Considera, do Ibre, aponta ainda que a indústria de transformação tem progressivamente perdido sua participação no PIB, na casa dos 12% hoje após já ter chegado a mais de 30%.

Crescimento baixo continua

O crescimento menor em 2023 não será tamanho a ponto de uma queda no PIB como as vistas em 2015, 2016 e 2020 recentemente, lembra Alex Agostini, da Austin Rating. Mas se alinha a um cenário de crescimento baixo que o Brasil enfrenta há mais de uma década.

Pelo ranking da Austin com base em dados globais do Fundo Monetário Internacional, o Brasil fechou 2022 como a 12ª economia do mundo, uma posição de "meio de ranking" que vem se repetindo nos últimos anos.

E, mesmo com os efeitos da reabertura pós-pandemia, o Brasil foi um dos piores países em crescimento no ano, tanto no quarto trimestre (34º de uma lista de 47 países) quanto no agregado de 2022 (28º de 47).

"O Brasil cresce mais ou menos como países desenvolvidos, entre 2% e 2,5% ao ano", diz Agostini. É um ritmo baixo. Para o médio prazo, a previsão entre 2023 e 2027 do FMI é que o Brasil cresça 1,6% ao ano, patamar similar ao dos EUA e de economias europeias, que já crescem menos por natureza por serem economias avançadas. Enquanto isso, é previsto que países emergentes cresçam em média na casa dos 4%.

Agostini aponta que incertezas continuam sobre qual é a "trilha de crescimento" que será buscada pelo novo governo. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, aposta principalmente em um novo arcabouço fiscal e na aprovação da reforma tributária para sinalizar ao mercado crescimento futuro, ao passo em que haverá altas de investimento público neste ano, como o retorno do programa Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família ampliado, salário mínimo de R$ 1.320 e reajustes.

Ao mesmo tempo, o expansionismo fiscal traz riscos de curto prazo que seguem no horizonte e podem dificultar a queda nos juros. No curto prazo, o cenário de juros continuará gerando efeitos de retração na atividade econômica, tanto no consumo quanto no capital produtivo. A expectativa por ora é que a Selic caia de 13,75% para 12,5% até o final deste ano.

A formação bruta de capital fixo, que indica investimentos em capital produtivo, subiu 0,9% no acumulado de 2022, mas caiu 1,1% no quarto trimestre, a pior queda dentro da ótica da demanda. Juros altos dificultam o avanço desse número.

"Esse efeito dos juros e do crédito será percebido na demanda doméstica, soma do consumo das famílias e do governo e dos investimentos", diz a MB Associados, que aponta que a demanda deve zerar neste ano, com "crescimento da economia advindo quase integralmente das exportações líquidas."

A atividade real da economia no Brasil está 4,1% acima dos níveis pré-pandemia, apontou Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, em relatório após a divulgação do PIB. Daqui em diante, a reabertura deixa de ajudar — e os problemas reais terão de voltar a ser encarados.

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