Brasil: O paraíso e o inferno das fintechs

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Você e o Dinheiro

Publicado em 01/03/2016 às 12:14.

Última atualização em 24/02/2017 às 07:45.

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Você já ouviu falar de “fintech”? Se ainda não ouviu, saiba que, em algum momento, vai “trombar” com as empresas nascentes que começam a invadir o segmento de serviços financeiros, crédito e investimentos.

O fintech (de “financial technology”) é um termo que vem virando sinônimo de empresas startups que estão desenvolvendo soluções financeiras, geralmente baseadas em tecnologias emergentes ou modelos de negócios inovadores.

Talvez não seja nenhuma surpresa que o epicentro do fintech são os EUA, mas a onda já começa a chegar por aqui. Não quero mencionar nomes, mas já temos algumas iniciativas interessantes explorando coisas como cartões de crédito, ferramentas de planejamento e controle financeiro (que se comunicam diretamente com os bancos), plataformas de investimento automatizadas, operações de crédito “P2P”, entre outras.

Aqui cabe fazer uma observação: o Brasil foi, por muito tempo, reconhecido mundialmente como um mercado financeiro inovador e tecnológico. O período de hiperinflação, que vivemos nos anos 80 e 90, levou nossos bancos e instituições financeiras a tomarem a dianteira no desenvolvimento de novas tecnologias para dar mais velocidade às operações. Nossos bancos compensavam cheques e ordens de pagamento “de um dia para o outro” numa época em que, nos EUA (já que adoramos nos comparar a eles), um simples pagamento poderia levar dias para ser processado.

Porém, depois do advento da internet, o ritmo das inovações financeiras caiu um pouco aqui no Brasil. Temos um sistema financeiro razoavelmente sólido e o Sistema Brasileiro de Pagamentos é surpreendentemente bom, mas a vantagem que tínhamos sobre os outros países em informatização das transações financeiras ficou no passado.

Com o tempo, nosso sistema financeiro acabou se tornando menos inovador e altamente concentrado na mão de poucas instituições com atuação nacional. Basicamente, temos hoje os grandes “bancões” (que atuam como “supermercados financeiros”, oferecendo todo tipo de serviço para os clientes) e instituições pequenas e altamente especializadas, muitas vezes voltadas para clientes sofisticados e com necessidades pontuais.

Os bancos e instituições de porte médio praticamente sumiram do Brasil – a “classe média” do mercado financeiro ficou muito pequena e os clientes foram “empurrados” para os grandes bancos que vêm, em muitas ocasiões, agindo de uma forma “não muito bacana” com eles. Frequentemente, ouvimos pessoas se queixando de atendimento ruim, altos custos e tarifas, vendas casadas, pressões por “reciprocidade” (leia-se “chantagem”), orientações deficientes (ou claramente mal-intencionadas) para investimentos, entre outras coisas.

Temos o cenário perfeito para grandes “inovações disruptivas” no mercado financeiro: Clientes insatisfeitos, grandes grupos empresariais que estão “deitando e rolando” sobre esses clientes e uma infinidade de empreendedores criativos, com boas ideias e condições de executá-las, prontos para atender esses clientes ávidos por bons serviços e um pouco de respeito.

Ou seja, o Brasil é um paraíso para as fintechs. O cenário, do ponto de vista mercadológico e tecnológico, não poderia ser mais perfeito – as pessoas já têm um razoável grau de intimidade com as novas tecnologias e estão, em grande parte, dispostas a experimentar novos serviços.

Só falta uma coisa para virarmos um paraíso “de fato”: Um ambiente regulatório mais aberto e mais favorável às inovações. E é neste ponto que vamos, sem escalas, do paraíso para o inferno…

É extremamente difícil, para um empreendedor, atuar no mercado financeiro brasileiro. Sabemos que o aparato regulatório dos mercados financeiros existe por um motivo justo: Garantir (uhmmm…) a segurança da população e do próprio sistema. Porém, nossas autoridades financeiras frequentemente “erram a mão” e acabam engessando demais o mercado, levantando suspeitas se todo esse emaranhado regulatório e as exigências para se atuar no mercado financeiro são, realmente, algo com o objetivo de dar segurança às pessoas ou se são apenas para criar uma reserva de mercado.

Um caso particular, que me chamou a atenção, é o de uma empresa de origem estrangeira, que opera com empréstimos “P2P” (onde usuários podem emprestar diretamente dinheiro para outras pessoas e empresas), que precisou se aliar a um banco brasileiro para atuar aqui. Na prática, essa empresa altamente inovadora, que poderia ajudar nosso mercado de crédito a ficar mais dinâmico, teve que alterar de forma radical seu modelo de negócios para atuar no país e atender às exigências regulatórias. O que era para ser uma empresa, de fato, revolucionária, acabou virando uma empresa de crédito tradicional, mas com uma roupagem “hi-tech”.

A verdade é que muitas das empresas altamente inovadoras e criativas que vem surgindo em outros países, que possibilitam coisas interessantíssimas como recursos para novos empreendimentos, pagamentos e orientação para investidores (ou mesmo a execução automática de estratégias de investimento), simplesmente não poderiam atuar no Brasil por não atenderem aos requisitos de nossas autoridades financeiras, apesar de serem originárias de países com mercados financeiros muito mais complexos e desenvolvidos que o nosso.

É preciso, urgentemente, que as nossas autoridades financeiras abram os olhos para essas inovações e trabalhem para reduzir as barreiras de entrada ao mercado financeiro, deixando-o mais permeável para que empreendedores com muita criatividade (mas, muitas vezes, com poucos recursos) tenham uma chance de sobreviver, prosperar e, quem sabe, deixar nosso o mercado financeiro mais forte e mais moderno.

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