A resiliência da formiga

Em sua coluna desta semana, Viviane Martins, CEO da Falconi, traz insights do Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos
 (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)
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Viviane Martins

Publicado em 30/05/2022 às 14:51.

Última atualização em 30/05/2022 às 16:05.

Por Viviane Martins, CEO da Falconi

Todos conhecemos a fábula de Jean de La Fontaine sobre a cigarra e a formiga. Sabedora de quando chegaria e quanto duraria o inverno, a precavida heroína faz estoques que lhe permitem atravessar o recolhimento do inverno sem percalços, ao contrário da esbanjadora cigarra.  

No século XVII, crises climáticas, rupturas globais nas cadeias de abastecimento e guerras com consequências planetárias não apoquentavam La Fontaine. Daí não sabermos o que faria a formiguinha se, ao fim do confinamento, surgisse uma crise antes de ela ter tempo de coletar mais alimento. Inevitável pensar em quanto de resiliência teria para superar um inesperado período sombrio. 

E sombrio foi o tom que marcou o retorno presencial do maior evento para discussão econômica do mundo. Nesta semana, o Fórum Econômico de Davos funcionou como agregador de tudo o que vem atingindo, em crescendo, países, governos e o cidadão comum nos últimos meses, justo quando este esperava ter tempo para se recuperar de tudo sofrido na esteira do Covid. 

Os grandes temas giraram em torno da invasão da Ucrânia pela Rússia, o aumento da inflação, os bloqueios chineses e uma crescente incerteza sobre a globalização. Na verdade, poderíamos até resumir boa parte das conversas a três palavras começadas por R, como disse a CEO do Citigroup, Jane Fraser: “Rússia, recessão e taxas (de juros)” - em inglês, (interest) rate. 

Além de colocar a Europa em xeque pela dependência energética da Rússia, a guerra na Ucrânia agravou o já complicado cenário do abastecimento global de alimentos, prejudicado pelas mudanças climáticas. Para se ter ideia, antes do conflito Rússia e Ucrânia respondiam por cerca de 27% das exportações globais de trigo e 77% das de óleo de girassol. Desde a invasão, os preços do trigo, por exemplo, já subiram cerca de 60%. 

Por seu turno, bloqueios em cidades portuárias da China, por conta das restrições de sua política de Covid Zero estão sobrecarregando as cadeias de suprimentos internacionais. O tempo de espera dos contêineres em Xangai, por exemplo, triplicou no mês passado. Muito mais veloz foi a escalada do temor que causou em Davos: George Soros alertou que, “com a interrupção das cadeias de suprimentos, a inflação global pode se transformar em depressão global”. 

Com o FMI já projetando a diminuição da estimativa de crescimento da economia global de 6,1% em 2021 para 3,6% em 2022 e 2023, sua diretora-geral, Kristalina Georgieva, pediu medidas urgentes para evitar a recessão global. “Os bancos centrais têm um papel importante a desempenhar na proteção dos vulneráveis - e os países devem trabalhar juntos para superar os problemas compartilhados que enfrentam”. 

Nesse cenário de problemas globais e com os países instados a um trabalho conjunto, um dos 300 painéis em Davos ganhou destaque ao perguntar se a globalização estaria morta. A correspondente do Washington Post, Abha Bhattarai, foi precisa ao escrever que não existe resposta fácil à questão.  “Mas há sinais de uma ordem mundial em mudança e existe a apreensão sobre onde, exatamente, as coisas vão aterrissar”. 

Talvez venha exatamente dessa palavra, “mudança”, o sopro de esperança no fim da caixa de Pandora em que se transformou o Fórum deste ano. Como consequência da invasão ucraniana, espera-se a adoção mais veloz de fontes energéticas de baixa emissão de carbono: a União Europeia já anunciou que investirá 210 bilhões de euros para trocar a dependência dos combustíveis fósseis russos por energias renováveis.  

Como resposta à crise na cadeia de abastecimento, por sua vez, começam a surgir redes regionais de produção de bens cruciais na América Latina, África e Ásia, em busca de caminhos comerciais mais resilientes e novos modelos de desenvolvimento.  

E a percepção sobre a retomada em alguns países foi positiva - inclusive a do Brasil, como nos contou o enviado da Exame a Davos, Carlos Cauti, após as falas do Ministro Paulo Guedes e do presidente do BNDES, Gustavo Montezano. O mesmo vale para medidas relacionadas à criação de empregos, bem-estar social e toda uma “agenda verde” mostrada na Suíça pelos presidentes da Colômbia, da República Dominicana e da Costa Rica.  

São, sim, enormes os desafios que, ao se entrecruzarem, ditaram o tom pessimista de Davos. Mas também há ventos de mudança que podem mover mais que turbinas de energia eólica, transformando o pessimismo atual em catalisador para se acelerar decisões que se provarão mais sustentáveis no longo prazo. Haja visto a acolhida a um tema que antes era quase tabu entre a elite mundial: a redução da semana de trabalho. 

Como Kristalina Georgieva bem lembrou, o mundo lidou com crise inimaginável após crise inimaginável, mas ainda assim continuou resiliente. “O próximo capítulo deve se concentrar na construção de pessoas resilientes – apoiadas por educação, saúde e proteção social”, disse ela. 

Se tivesse participado do Fórum, a formiguinha de La Fontaine já estaria buscando novos caminhos para superar os solavancos econômicos, políticos, sociais e ambientais. Porque, além do que preparo para se poder encarar problemas previsíveis, há também de se ter resiliência e rapidez na tomada de decisões que permitam se atravessar não apenas este, mas os cada vez mais frequentes cenários inesperados.