O Sensato Estímulo de Biden

Os Estados Unidos de fato erraram em 2009-10 ao limitar o tamanho e a duração da expansão fiscal. Biden tem razão em cuidar para que ele não se repita agora
 (Ken Cedeno/CNP/Bloomberg/Getty Images)
(Ken Cedeno/CNP/Bloomberg/Getty Images)
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Visão GlobalPublicado em 30/03/2021 às 10:03.

CAMBRIDGE – Os Estados Unidos e o mundo entraram em recessão há um ano. Normalmente, economistas não conseguem prever onde uma recessão começa. Porém, como a atual nasceu da pandemia de COVID-19, eles puderam traçar seu início de modo confiável sem esperar os tradicionais indicadores econômicos.

No fim do segundo trimestre de 2020, o PIB dos EUA tinha mergulhado para um nível recorde de 11%, arrastando a economia de uma estimativa de 1% acima da produção potencial no fim de 2019 para 10% abaixo. Agora, as previsões indicam um crescimento tão acelerado em 2021 que o PIB vai voltar ao pico pré-pandêmico muito em breve. Em 2022, é provável que ele esteja muito acima do potencial. Também há expectativa de que a economia global se recupere, ainda que  não tão depressa quanto a dos EUA.

Alguns advertem agora que a economia americana pode entrar em superaquecimento. Considerando-se esta possibilidade, será que o presidente Joe Biden está oferecendo estímulos demais com seu Plano de Resgate Americano de US$ 1.9 trilhão, em vigor desde o início deste mês?

Afinal, as previsões cor-de-rosa para a economia dos EUA refletem não só a atual distribuição de vacinas, mas também a liberação da procura reprimida por bens e  serviços. Estima-se que os lares americanos tenham poupado cerca de US$ 1.5 trilhões provenientes das transferências federais que o Congresso aprovou há um ano, e parecem ansiosos por gastar parte deste dinheiro o mais depressa possível. Além disso, a flexibilização monetária que o Federal Reserve introduziu na primavera de 2020 está baixando as taxas de juros de curto prazo para zero, e o presidente do Fed, Jerome Powell, comprometeu-se em mais de uma ocasião a deixá-las nesse nível durante vários anos.

Um terceiro fator turbinando a demanda é o recém-renovado estímulo fiscal – não só pelo plano Biden, mas também pelos US$ 0,9 trilhão em gastos que o Congresso aprovou em dezembro. Além disso, o governo Biden planeja um quarto impulso na demanda por meio do aumento dos gastos com investimentos em infraestrutura. Não é surpresa, portanto, que em 17 de março funcionários do Fed tenham aumentado suas projeções de crescimento dos EUA para 6,5% em 2021. A OCDE vem fazendo o mesmo.

A base das previsões de superaquecimento é bastante simples. Imagine-se que os gastos do governo federal em 2021 superaram os do ano passado em US$ 1.9 trilhão, o equivalente a cerca de 9% dos US$ 22 trilhões da economia americana. Com as taxas de juros fixadas em zero, o multiplicador keynesiano poderia ser de até 1,5. Porém, quando a despesa extra do governo assume a forma de transferências de dinheiro, apenas a parte do aumento da renda prescindível que as famílias de fato consomem entra no fluxo da demanda. Em geral as famílias costumam guardar um pouco, como certamente o fizeram em 2020.

Portanto, imagine-se um multiplicador de um. Nesse caso, um estímulo fiscal igual a 9% do PIB resulta em uma alta de 9% da produção. Como a produção econômica dos EUA esteve 3% abaixo do potencial no fim de 2020, um aumento de 9% colocaria o PIB cerca de 6% acima do potencial.

Alguns economistas, entre eles o ex-secretário do Tesouro Larry Summers, apoiam a ideia básica do programa de incentivos de Biden, mas acham o programa muito grande, alertando para uma alta da inflação no próximo ano. Os mercados financeiros também reagiram: a taxa de juros dos títulos de dez anos do Tesouro subiu para 1,7%, uma alta de 0,9% desde janeiro.

O argumento contrário é que não sabemos de fato o nível de produção potencial, e talvez estejamos subestimando-o. Por exemplo, há quem questione se a economia dos EUA em 2018-19 realmente teve um desempenho acima do potencial, uma vez que a inflação subiu para meros 2,3% em 2019, apesar da taxa de desemprego ter caído para 3,5%.

Contudo, uma explicação mais provável para a pequena alta da inflação no período pré-pandêmico é o que os economistas chamam de uma curva plana de Phillips. Ou seja, as variações no emprego e produção dos EUA mostra apenas modestos efeitos na inflação dos salários e dos preços. Antes do mistério de por que a inflação não subiu mais do que em 2018-19, havia o mistério de por que a inflação não caiu mais do que em 2010-15, no rescaldo da Grande Recessão, quando o desemprego vinha descendo lentamente de seu pico de 10%.

Portanto, embora seja provável que o crescimento da produção dos EUA esteja acima do potencial no próximo ano, uma curva de Phillips relativamente plana sugere ser pouco provável que a inflação aumente de forma exagerada. De fato, o Fed receberia de bom grado e efetivamente uma pequena retomada no crescimento dos preços.

Sem dúvida, oferecer tantos estímulos pode ter outros inconvenientes. A dívida pública americana é a mais alta em relação ao PIB desde 1945, e irá se tornar menos sustentável se as taxas de juros subirem. A expansão financiada pelo dinheiro corre o risco de alimentar bolhas de ativos. O déficit comercial está fadado a crescer, o que pode aumentar o protecionismo. E, se o céu é o limite para gastar, parte desse dinheiro pode ser desperdiçado.

Mas os assessores de Biden estão claramente tentando garantir que o país não repita o erro de 2009, quando o estímulo de US$ 800 bilhões do presidente Barack Obama – ainda que grande em termos históricos – foi pequeno demais e de vida curta para permitir à economia se recuperar totalmente após a crise financeira global. Embora a Grande Recessão tenha acabado quase na sequência da entrada em vigor da Lei Americana de Recuperação e Reinvestimento de Obama, a recuperação subsequente foi lenta demais.

Não está claro se o tamanho insuficiente do estímulo de 2009 foi de fato culpa do governo Obama (a menos, talvez, que Obama tenha errado ao buscar um módico bipartidarismo). As autoridades do governo diriam que receberam o maior estímulo politicamente viável através do Congresso, considerando-se a oposição republicana.

Pode ser exagero dizer que foram os eleitores americanos que cometeram um erro. Mas muitos atribuíram reflexivamente a fraqueza da recuperação de 2009-10 a Obama e aos democratas, e deram aos republicanos o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato em 2010 – permitindo assim ao Partido Republicano bloquear novas medidas para impulsionar a economia.

Os Estados Unidos de fato erraram em 2009-10 ao limitar o tamanho e a duração da expansão fiscal. Não importa onde exatamente esse erro tenha sido cometido, Biden tem razão em cuidar para que ele não se repita agora.

Jeffrey Frankel é Professor de Formação de Capital e Crescimento na Universidade de Harvard.

 

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