Coreia do Sul no topo novamente

Enquanto os 37 estados membros da OCDE deverão passar por uma contração real do PIB de 7,6% em média, o país asiático deve encolher apenas 0,8%
 (Kim Hong-Ji/Reuters)
(Kim Hong-Ji/Reuters)
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Visão Global

Publicado em 24/08/2020 às 09:58.

Última atualização em 24/08/2020 às 09:59.

LONDRES - Em 11 de agosto, a OCDE sinalizou que revisaria sua projeção de PIB real (ajustado pela inflação) para 2020 da Coreia do Sul de -1,2% para -0,8%, contribuindo para a convicção de que o país está se saindo economicamente melhor do que qualquer outro membro da OCDE. Em média, os 37 estados membros do grupo deverão passar por uma contração real do PIB de 7,6%. Pior, essa notícia veio apenas um dia antes de o governo do Reino Unido reportar uma contração recorde de 20,4% no segundo trimestre, seguindo previsões anteriores de que a economia do Reino Unido estava a caminho de encolher 11,5% no geral este ano.

Previsões são previsões e o histórico da OCDE não é melhor (nem pior) do que outras fontes oficiais desses dados. Com base em minha própria leitura de recentes indicadores de alta frequência, suspeito que os números da produção global em 2020 serão menos sombrios do que muitos esperam.

Ainda assim, para fins de fazer comparações entre países, as prospecções da OCDE são confiáveis. Por exemplo, os dados mostram claramente que a Coreia do Sul se destaca no contexto. O país tem sido um exemplo para outras economias em desenvolvimento e agora está se tornando cada vez mais também um modelo para economias mais “avançadas” como  Estados Unidos e Reino Unido.

Em retrospecto, não seria irracional supor que a Coreia do Sul sofreria mais com a pandemia do que outros países da OCDE. No final de janeiro, tornou-se um dos primeiros países a relatar infecções por COVID-19 fora da China, e o risco de um grande surto não era menor do que em qualquer outro lugar.

Mas, ao contrário da Itália – outra vítima precoce – a Coreia do Sul evitou uma epidemia disruptiva em todo o país, contendo surtos ocasionais à medida que surgiam. Além disso, na medida em que as previsões da OCDE são corretas, a contração da Coreia do Sul em 2020 não é nada em comparação com o que o país experimentou após a crise financeira asiática de 1997-98.

Em meados de março, muitos comentaristas respeitados se concentraram no fato de que o Reino Unido estava apenas duas semanas atrás da Itália, quase sem fazer menção à Coreia do Sul. No evento, tanto a Itália quanto o Reino Unido passaram a sofrer crises especialmente profundas, em relação a outros países. Por que a Coréia do Sul – um importante polo comercial – administrou o novo coronavírus tão melhor e que lições iniciais podem ser tiradas de sua experiência?

Nesse ponto, ninguém pode dizer com certeza quais fatores fizeram a maior diferença. Mas se eu fosse especular, apontaria para as características da economia da Coreia do Sul que a têm servido especialmente bem nas últimas décadas. Em 20 de fevereiro, publiquei um comentário intitulado “Todos os Olhares sobre a Coreia do Sul” em resposta ao Oscar deste ano, onde o filme do diretor sul-coreano Bong Joon-ho Parasita ganhou o prêmio de melhor filme. A Coreia do Sul costuma ser estereotipada como sendo muito rígida e obcecada por educação, mas eis aí um filme sul-coreano recebendo uma das maiores honrarias artísticas do mundo.

Para meu espanto, entre a redação e a publicação daquele comentário, a Coreia do Sul começou a passar por seu primeiro surto de COVID-19. Temia que os acontecimentos no assunto logo refutassem todos os meus elogios ao país. Mas eu não deveria ter me preocupado. Quase seis meses depois, está claro que a Coreia do Sul mais uma vez se saiu bem.

De forma mais ampla, a Coreia do Sul se tornou um modelo para outros países por simples duas razões. Em primeiro lugar, nos últimos 40 anos, foi a única economia “em desenvolvimento” ou “emergente” de médio a grande porte (por população) a ter aumentado sua renda per capita ao nível das economias avançadas. Quando eu estava entrando no mercado de trabalho no início da década de 1980, a Coreia do Sul era em média, tão rica quanto a maioria dos países africanos. Hoje, é tão rica quanto a Espanha.

Em segundo lugar, a Coreia do Sul não apenas cresceu; também subiu na hierarquia econômica ao abraçar a tecnologia. Quando fui Economista-Chefe da Goldman Sachs, presidi a criação de um índice de desenvolvimento sustentável para mais de 180 países. Descobrimos que, além de se classificar entre os dez primeiros na maioria dos indicadores, a Coreia do Sul teve uma pontuação especialmente alta em medidas de adoção e difusão tecnológica – mais alta até mesmo do que os EUA.

Crucialmente, os subcomponentes em nosso índice capturaram não apenas quem estava inventando ou fabricando certas tecnologias – de mainframe de computadores a telefones celulares – mas também quem as estava usando. Hoje, a Coreia do Sul é uma sociedade com tecnologia intensiva e isso quase certamente fez a diferença no contexto da pandemia, especialmente no que se refere ao monitoramento de riscos localizados e à contenção da disseminação do vírus. Ao contrário, no Reino Unido, ainda estamos muito longe de ter um sistema de testagem e rastreamento de “classe mundial”, porque as tecnologias necessárias simplesmente não estão disponíveis em quantidade suficiente para nossa população

A Coreia do Sul é altamente aberta ao comércio mundial e reporta seus dados comerciais no primeiro dia de cada mês. Os dados de julho mostram que o desempenho das exportações têm melhorado notavelmente (o que significa que não está diminuindo tanto quanto nos meses anteriores).

Essa melhoria pode ou não ser um prenúncio do que aguarda a economia global enquanto se recupera de um colapso histórico. Mas é claramente outro sinal de que a Coréia do Sul administrou bem a crise, especialmente em comparação com as ridículas demonstrações de bravata, negação e incompetência em algumas das economias avançadas do mundo. É hora de todos começarem a aprender com a Coreia do Sul.

Jim O’Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management e ex-Ministro do Tesouro do Reino Unido, é presidente da Chatham House.