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Trump é misto de Nixon e Dilma

Enfim, o impossível às vezes acontece. E ultimamente temos falado isso mais do que seria aceitável. Se o Brexit já parecia improvável o suficiente, na sequência veio a negativa ao acordo de paz colombiano e, tragédia das tragédias, a vitória de Trump nos EUA. O duro é pensar que ainda há muito por vir e […]

DONALD TRUMP: pedidos de recontagem de votos contra o presidente eleito foram feitos em três estados / Win McNamee/ Getty Images
DR

Da Redação

Publicado em 15 de novembro de 2016 às 10h42.

Última atualização em 22 de junho de 2017 às 18h30.

Enfim, o impossível às vezes acontece. E ultimamente temos falado isso mais do que seria aceitável. Se o Brexit já parecia improvável o suficiente, na sequência veio a negativa ao acordo de paz colombiano e, tragédia das tragédias, a vitória de Trump nos EUA. O duro é pensar que ainda há muito por vir e talvez o default agora seja pensar que esses fatos estranhos se repetirão em massa na Europa. Várias eleições a partir de dezembro podem trazer mais instabilidade para o velho continente, com Áustria e França correndo o risco de cair nas mãos populistas de direita.

Um mal menor talvez seria dizer que, dado que nenhum experimento populista jamais funcionou e estamos falando de democracias consolidadas, essa tendência pode ter vida curta. Em países com democracias ainda muito jovens como o Brasil experimentos populistas e irresponsáveis como o governo Dilma acabaram por ser expelidos. No caso de Dilma e Nixon, levou mais tempo e suas saídas se deram no segundo mandato apenas. Não creio que Trump consiga chegar tão longe, mas hoje o futuro tem pregado muitas peças que não é possível afirmar mais isso com tanta clareza.

De qualquer forma, os elementos que estiveram presentes para que Dilma e Nixon não se sustentassem estão muito presentes em Trump. No caso do ex-presidente americano, sua queda se deu pela neurose de achar que estava sendo perseguido pelos democratas e que havia como que uma guerra entre os partidos. O desejo de vitória a qualquer preço, como em um reality show, parece permear a carreira de Trump, que conquistou inúmeras vitórias empresariais, mas nunca passou a impressão de alguém que conseguisse as sustentar. Em algum lugar li um perfil psicológico seu que dizia ser este presidente alguém que tem o prazer da conquista, mas que depois da vitória o bem conquistado deixa de ser interessante. Apenas quem tem o prazer de fazer política 24 horas se mantém são em um cargo como esse e infelizmente essa não parece uma característica desse presidente. No caso de Dilma, ele parece prestar muita atenção no que não é relevante, como se viu muito bem nos três debates entre os candidatos presidenciais.

Mas o que mais aproxima Dilma e Nixon de Trump parece estar na economia. Os dois se juntaram com seus executivos do Tesouro e Fazenda e do Fed e Banco Central para gerar a estagflação dos anos 70 nos EUA e dos anos 2010 no Brasil. Choques de oferta foram ocorrendo nos dois governos e seus bancos centrais tratavam como problemas de preços administrados apenas, para os quais os bancos centrais tinham pouco a fazer. No fiscal, a destruição nos dois casos foi semelhante, mas nos EUA ficou menos aparente, pois a inflação diminuiu artificialmente parte da dívida/PIB. Ao final da década, os desarranjos na economia geraram as crises que todos já conhecemos.

Trump injeta uma novidade nesse caldeirão de irresponsabilidades. Algo que nem se discutia mais, que é retroceder todos os ganhos de comércio que se teve nas últimas décadas com medidas protecionistas e retirada de acordos comerciais. Na visão de equilíbrio parcial do agora presidente, fechar a economia trará empregos para, especialmente, seus votantes do Cinturão da Ferrugem, os estados de Pensilvânia, Wisconsin e Michigan, que eram industrializados e entraram em decadência com a perda de competitividade americana. Mas olhando em equilíbrio geral, como nós economistas preferimos, mais comércio é mais bem-estar geral, pois aumenta a capacidade de inovação e competição de toda a economia e traz preços mais baixos pelo aumento de produtividade. Todos saem ganhando, mas são ganhos pouco aparentes, invisíveis em comparação com Detroit, por exemplo, que hoje é uma cidade fantasma.

Dado que estamos falando de um apresentador de televisão preocupado com seus ratings medidas que sejam visíveis podem inundar os EUA, na tentativa de trazer o que ele prometeu em campanha. Claro que muito do que ele propôs será barrado no Congresso, mas como um presidente acostumado a ter as coisas resolvidas do seu jeito enfrentará tamanha oposição?

Mas a beleza de tudo é que a flexibilidade de sistemas democráticos sólidos é que aberrações como essas podem surgir, mas ou se enquadram ou são expelidas nas eleições seguintes ou mesmo antes em caso de impeachment. A leitura de Trump é de que o sistema democrático se move para tentar dar soluções às crises que vão aparecendo. Muito diferente de sistemas ditatoriais que dependem da falta de liberdade e/ou partidos únicos para sobreviverem.

Houve comemoração na China como se isso fortalecesse o país, que estaria livre para dominar a Ásia com acordos comerciais. Entretanto, a China tem consistentemente crescido via crédito e empresas estatais pouco eficientes com um presidente, que, sabendo disso, faz o caminho de ter mais controle para tentar atravessar as dificuldades.

A duras penas os países desenvolvidos descobrirão que tentar mudar o curso da história se fechando vai apenas gerar menos crescimento e mais empobrecimento. Entretanto, o retorno a uma rota mais liberal, tanto internamente nos países, mas também no sistema internacional que agora parece mais ameaçado parece inexorável. Foi assim com Reagan nos anos 80 e está sendo agora com Temer no Brasil.

A solução para quem perdeu seu emprego no Cinturão da Ferrugem, infelizmente, talvez não volte nessa geração, mas ao mesmo tempo, parece não haver no horizonte um efeito Japão/Coreia do Sul nos anos 70 e 80 e um efeito China nos anos 90 e 2000 para aumentar de forma radical a produtividade desses países e diminuir a competitividade dos desenvolvidos, especialmente os EUA. Talvez a Índia, mas ela ainda enfrenta inúmeras dificuldades macroeconômicas e é mais desorganizada institucionalmente do que era o Japão e a China no auge de seus países. Pode haver ao longo da próxima década uma acomodação em que não haja um país com a capacidade de desestabilizar o comércio dos outros como os dois países asiáticos. O comércio poderá ser visto menos como um vilão, mas como algo natural que não gera tantas distorções.

Talvez o mais preocupante como tendência que possa ter vindo para ficar e que pode gerar menos desenvolvimento nos países desenvolvidos é a imigração. Em países com queda de população não aceitar imigrantes é um retrocesso. Há aqui uma questão racial mais complicada ainda. Enquanto os EUA recebiam irlandeses e italianos não havia sentido de discriminação, mas os americanos sempre foram refratários à entrada de imigrantes muito diferentes dele. Por exemplo, em 1882 o Congresso aprovou o Chinese Exclusion Act, proibindo a entrada de chineses, medida essa que valeu até 1943. Hoje na Europa, a distinção é a mesma em relação aos refugiados do Oriente Médio e África. O diferente ainda assusta os países desenvolvidos e esse tipo de característica é mais difícil de mudar. Ao mesmo tempo, não mudar significará populações cada vez menores e crescimento cada vez menor. Populações que normalmente recebem menos imigrantes como o Japão sofrem já quase três décadas de recessão.

Aceitar o outro talvez seja o grande desafio para o mundo desenvolvido querer voltar a crescer, mas isso parece estar bem longe de acontecer.

SERGIO VALE

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Enfim, o impossível às vezes acontece. E ultimamente temos falado isso mais do que seria aceitável. Se o Brexit já parecia improvável o suficiente, na sequência veio a negativa ao acordo de paz colombiano e, tragédia das tragédias, a vitória de Trump nos EUA. O duro é pensar que ainda há muito por vir e talvez o default agora seja pensar que esses fatos estranhos se repetirão em massa na Europa. Várias eleições a partir de dezembro podem trazer mais instabilidade para o velho continente, com Áustria e França correndo o risco de cair nas mãos populistas de direita.

Um mal menor talvez seria dizer que, dado que nenhum experimento populista jamais funcionou e estamos falando de democracias consolidadas, essa tendência pode ter vida curta. Em países com democracias ainda muito jovens como o Brasil experimentos populistas e irresponsáveis como o governo Dilma acabaram por ser expelidos. No caso de Dilma e Nixon, levou mais tempo e suas saídas se deram no segundo mandato apenas. Não creio que Trump consiga chegar tão longe, mas hoje o futuro tem pregado muitas peças que não é possível afirmar mais isso com tanta clareza.

De qualquer forma, os elementos que estiveram presentes para que Dilma e Nixon não se sustentassem estão muito presentes em Trump. No caso do ex-presidente americano, sua queda se deu pela neurose de achar que estava sendo perseguido pelos democratas e que havia como que uma guerra entre os partidos. O desejo de vitória a qualquer preço, como em um reality show, parece permear a carreira de Trump, que conquistou inúmeras vitórias empresariais, mas nunca passou a impressão de alguém que conseguisse as sustentar. Em algum lugar li um perfil psicológico seu que dizia ser este presidente alguém que tem o prazer da conquista, mas que depois da vitória o bem conquistado deixa de ser interessante. Apenas quem tem o prazer de fazer política 24 horas se mantém são em um cargo como esse e infelizmente essa não parece uma característica desse presidente. No caso de Dilma, ele parece prestar muita atenção no que não é relevante, como se viu muito bem nos três debates entre os candidatos presidenciais.

Mas o que mais aproxima Dilma e Nixon de Trump parece estar na economia. Os dois se juntaram com seus executivos do Tesouro e Fazenda e do Fed e Banco Central para gerar a estagflação dos anos 70 nos EUA e dos anos 2010 no Brasil. Choques de oferta foram ocorrendo nos dois governos e seus bancos centrais tratavam como problemas de preços administrados apenas, para os quais os bancos centrais tinham pouco a fazer. No fiscal, a destruição nos dois casos foi semelhante, mas nos EUA ficou menos aparente, pois a inflação diminuiu artificialmente parte da dívida/PIB. Ao final da década, os desarranjos na economia geraram as crises que todos já conhecemos.

Trump injeta uma novidade nesse caldeirão de irresponsabilidades. Algo que nem se discutia mais, que é retroceder todos os ganhos de comércio que se teve nas últimas décadas com medidas protecionistas e retirada de acordos comerciais. Na visão de equilíbrio parcial do agora presidente, fechar a economia trará empregos para, especialmente, seus votantes do Cinturão da Ferrugem, os estados de Pensilvânia, Wisconsin e Michigan, que eram industrializados e entraram em decadência com a perda de competitividade americana. Mas olhando em equilíbrio geral, como nós economistas preferimos, mais comércio é mais bem-estar geral, pois aumenta a capacidade de inovação e competição de toda a economia e traz preços mais baixos pelo aumento de produtividade. Todos saem ganhando, mas são ganhos pouco aparentes, invisíveis em comparação com Detroit, por exemplo, que hoje é uma cidade fantasma.

Dado que estamos falando de um apresentador de televisão preocupado com seus ratings medidas que sejam visíveis podem inundar os EUA, na tentativa de trazer o que ele prometeu em campanha. Claro que muito do que ele propôs será barrado no Congresso, mas como um presidente acostumado a ter as coisas resolvidas do seu jeito enfrentará tamanha oposição?

Mas a beleza de tudo é que a flexibilidade de sistemas democráticos sólidos é que aberrações como essas podem surgir, mas ou se enquadram ou são expelidas nas eleições seguintes ou mesmo antes em caso de impeachment. A leitura de Trump é de que o sistema democrático se move para tentar dar soluções às crises que vão aparecendo. Muito diferente de sistemas ditatoriais que dependem da falta de liberdade e/ou partidos únicos para sobreviverem.

Houve comemoração na China como se isso fortalecesse o país, que estaria livre para dominar a Ásia com acordos comerciais. Entretanto, a China tem consistentemente crescido via crédito e empresas estatais pouco eficientes com um presidente, que, sabendo disso, faz o caminho de ter mais controle para tentar atravessar as dificuldades.

A duras penas os países desenvolvidos descobrirão que tentar mudar o curso da história se fechando vai apenas gerar menos crescimento e mais empobrecimento. Entretanto, o retorno a uma rota mais liberal, tanto internamente nos países, mas também no sistema internacional que agora parece mais ameaçado parece inexorável. Foi assim com Reagan nos anos 80 e está sendo agora com Temer no Brasil.

A solução para quem perdeu seu emprego no Cinturão da Ferrugem, infelizmente, talvez não volte nessa geração, mas ao mesmo tempo, parece não haver no horizonte um efeito Japão/Coreia do Sul nos anos 70 e 80 e um efeito China nos anos 90 e 2000 para aumentar de forma radical a produtividade desses países e diminuir a competitividade dos desenvolvidos, especialmente os EUA. Talvez a Índia, mas ela ainda enfrenta inúmeras dificuldades macroeconômicas e é mais desorganizada institucionalmente do que era o Japão e a China no auge de seus países. Pode haver ao longo da próxima década uma acomodação em que não haja um país com a capacidade de desestabilizar o comércio dos outros como os dois países asiáticos. O comércio poderá ser visto menos como um vilão, mas como algo natural que não gera tantas distorções.

Talvez o mais preocupante como tendência que possa ter vindo para ficar e que pode gerar menos desenvolvimento nos países desenvolvidos é a imigração. Em países com queda de população não aceitar imigrantes é um retrocesso. Há aqui uma questão racial mais complicada ainda. Enquanto os EUA recebiam irlandeses e italianos não havia sentido de discriminação, mas os americanos sempre foram refratários à entrada de imigrantes muito diferentes dele. Por exemplo, em 1882 o Congresso aprovou o Chinese Exclusion Act, proibindo a entrada de chineses, medida essa que valeu até 1943. Hoje na Europa, a distinção é a mesma em relação aos refugiados do Oriente Médio e África. O diferente ainda assusta os países desenvolvidos e esse tipo de característica é mais difícil de mudar. Ao mesmo tempo, não mudar significará populações cada vez menores e crescimento cada vez menor. Populações que normalmente recebem menos imigrantes como o Japão sofrem já quase três décadas de recessão.

Aceitar o outro talvez seja o grande desafio para o mundo desenvolvido querer voltar a crescer, mas isso parece estar bem longe de acontecer.

SERGIO VALE
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