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Desindustrialização: a culpa não é (só) da China

Enquanto tratarmos o câmbio como causa, continuaremos a discutir se desindustrializamos ou não ao sabor do humor das commodities

 (AFP/AFP)

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Sergio Vale
Sergio Vale

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Publicado em 6 de julho de 2026 às 14h32.

Com a indústria voltando a crescer no rastro do choque do petróleo, ressurge a dúvida de sempre: dá para confiar em mais crescimento em um setor que patina há décadas? O tema da desindustrialização nos persegue quase como um fetiche, mas não é exclusividade nossa. Richard Baldwin, em um texto recente, propôs um exercício que ajuda a organizar a conversa. Em vez de começar pela briga sobre as causas, ele decompõe, contabilmente, a própria queda da participação da indústria no produto em três canais: o apetite, que é quanto de manufatura o país consome em relação ao seu tamanho; a autossuficiência, que é quanto dessa demanda é atendida por produção local; e a fatia de valor, que é quantos centavos de cada real que sai da fábrica são de fato agregados aqui, e não comprados fora na forma de insumos e componentes.

Baldwin aplicou a conta ao G7 e identificou dois padrões. Os Estados Unidos perderam indústria sobretudo pelo apetite: ficaram ricos, deslocaram o gasto para serviços, e a fatia de valor até aumentou. Alemanha e Japão seguiram o caminho oposto, o da fatia de valor: terceirizaram etapas inteiras da produção, mas de forma estratégica, guardando projeto e engenharia em casa e preservando o superávit. Curiosamente, o comércio, a penetração de importados, não foi o canal dominante em nenhum dos sete.

E o caso brasileiro? Aqui está a parte que interessa, e a resposta depende inteiramente da régua. A preços correntes, a participação da transformação praticamente se manteve entre 1995 e 2022, e o país figuraria como o menos desindustrializado do grupo, um caso ameno, quase alemão. O problema é que os preços correntes misturam quantidade e preço, que, no Brasil, andam em direções opostas há duas décadas. Quando se passa ao volume, a fatia real da indústria cai de 15,7% para 9,8% do produto, o que representa uma queda de quase 6 pontos percentuais. Os três canais ficam negativos simultaneamente, e é o comércio que puxa a maior parte da queda, algo que Baldwin não viu em nenhum dos países do G7. Comparado corretamente, volume contra volume, o Brasil aparece como provavelmente o caso mais severo do conjunto, e não o mais brando.

Gráfico 1. Variação da participação da indústria no PIB, 1995–2022 (pontos percentuais)

O caso do aço ilustra bem o truque que os preços pregam. Entre 2000 e 2021, a fatia nominal da siderurgia no valor adicionado quase quintuplicou, de 0,26% para 1,24%; em volume, caiu para 0,20%. Quem lê o setor pelos números correntes conclui que ele prosperou. Em termos reais, produziu-se menos.

E o câmbio, o vilão de sempre? Os dados não ajudam a tese. O período em que a indústria mais cresceu foi de 2003 a 2010, justamente quando o real se valorizava com força no boom de commodities. Se a sobrevalorização fosse o veneno, a indústria deveria ter definhado ali, mas aconteceu o contrário. A correlação entre a atividade industrial e o câmbio real é positiva, não negativa, e o investimento conta a mesma história: a taxa de formação de capital chegou perto de 22% do PIB com o real valorizado e desabou para 17% quando a moeda ficou barata. O teste final é constrangedor: depreciamos o câmbio real em cerca de 35% desde 2011 e seguimos na 65ª posição entre 70 economias no ranking de competitividade do IMD. Se bastasse um câmbio competitivo, já teríamos reindustrializado.

Vale, então, descer ao nível dos setores, com a produção física da PIM, porque o quadro fica mais nítido e, ao mesmo tempo, menos óbvio. A desindustrialização não está no ciclo comum que move os setores em bloco, ao sabor de juros, renda e commodities, mas na divergência persistente entre eles. E essa divergência tem uma forma clara: especialização em recursos naturais dentro da própria indústria. Desde 2003, os setores trabalho-intensivos encolheram, com vestuário caindo 44%, couro e calçados, 43%, e têxteis, 38%, enquanto os de base em recursos naturais e os de maior conteúdo tecnológico cresceram, como bebidas, 55%, e celulose, 43%.

Gráfico 2. Variação da produção física por setor da indústria de transformação, 2003 → 2024-25 (%)

A tentação é apontar o dedo para a China, e é aqui que entra a parte mais interessante do exercício. Correlação não é causa, e a correlação simples, nesse caso, tende a esconder o efeito das importações, não a exagerá-lo: quando a economia vai bem, a produção local e as importações sobem juntas. Para separar as duas coisas, apliquei o método que se tornou padrão na literatura (Autor, Dorn e Hanson, 2013). Em vez de olhar o que a China vendeu ao Brasil, que depende do nosso apetite, olho o que ela vendeu, setor a setor, para oito países parecidos conosco, da Argentina à Indonésia. Se as exportações chinesas de um produto explodiram no mundo inteiro ao mesmo tempo, isso mede a força da fábrica chinesa, e não a demanda brasileira.

O resultado refina o quadro. A China machuca, sim: um setor com grau típico de exposição perde cerca de 2,5 pontos de produção a cada cinco anos, e o dano se concentra onde ela domina o mercado mundial, como em eletrônicos, máquinas e materiais elétricos. Mas a intensidade fatorial continua mandando no jogo: a desvantagem dos setores trabalho-intensivos é da ordem de 14 pontos por período, quase seis vezes o efeito da exposição à China. Nos setores que mais encolheram, como vestuário, calçados e madeira, a China explica pouco. Eles teriam definhado quase na mesma medida sem ela, porque a desvantagem ali é estrutural, diante de toda a Ásia de salários baixos. Teríamos perdido boa parte deles, com ou sem a China, para o Vietnã, para Bangladesh ou para quem viesse depois. A China é o soldado; o general é a vantagem comparativa.

A razão de os três canais de Baldwin dispararem juntos no Brasil é que não são três problemas distintos, e sim três sintomas do mesmo mal: a perda de competitividade da indústria, com produtividade estagnada e o velho custo-Brasil. Uma indústria que não compete perde o mercado interno para o importado, passa a depender de insumos comprados fora à medida que as cadeias locais definham e, num país que, por isso, investe pouco e se especializa em recursos naturais, pode gerar menos demanda real de manufatura geral em relação ao seu tamanho. Sendo a origem uma só, atacar um canal isolado não resolve. É por isso que a depreciação não reindustrializa: um câmbio barato não devolve a um país a vantagem comparativa em confecção diante de quem produz muito mais barato. E é por isso que a tentação de reindustrializar na marra, taxando insumos importados, erra o alvo. O contraexemplo alemão que Baldwin evoca é instrutivo: o país que melhor preservou sua indústria fez o oposto, comprou componentes onde eram mais baratos e usou isso para exportar mais.

Enquanto tratarmos o câmbio como causa, continuaremos a discutir se desindustrializamos ou não ao sabor do humor das commodities. A pergunta que de fato importa (por que se produz tão pouco e a um custo tão alto) já tem uma resposta pouco animadora há bastante tempo. A agenda é a produtividade e o custo de produção nos setores em que o Brasil ainda pode competir.