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Décadas de erosão explicam a América de Trump

Os números mostram que o recuo democrático dos EUA no segundo mandato de Trump é mais acelerado

US President Trump speaks during the National Prayer Breakfast at the Washington Hilton in Washington, DC on February 5, 2026. (Photo by SAUL LOEB / AFP)

US President Trump speaks during the National Prayer Breakfast at the Washington Hilton in Washington, DC on February 5, 2026. (Photo by SAUL LOEB / AFP)

Sergio Vale
Sergio Vale

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Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 16h07.

Vivemos em tempos estranhos. Os Estados Unidos, outrora líderes incontestes do mundo nas últimas décadas, se veem em dificuldades, não apenas pelo desafio representado pela China, mas também pelas próprias dificuldades enfrentadas pelo país. Trump é a cereja num bolo que tem sido feito há décadas. Um bolo bem indigesto, que não se resume à cereja intragável de seu presidente.

De fato, os dados sugerem que o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos não é um fenômeno recente, mas o resultado de tendências estruturais acumuladas ao longo de décadas. No campo educacional, a pontuação americana no PISA de matemática caiu de 483 para 465 pontos entre 2003 e 2022, o pior resultado da série histórica, mantendo-se sempre abaixo da média da OCDE e a cerca de 60 pontos da Coreia do Sul.

Em inovação, a China ultrapassou os EUA em pedidos de patentes por volta de 2011 e, em 2024, já registrava cerca de três vezes mais pedidos de patentes do que os americanos. Paralelamente, o investimento federal em P&D, que representava 1,86% do PIB em 1964 e respondia por 67% de toda a pesquisa doméstica, despencou para apenas 0,63% do PIB em 2022, passando a representar apenas 18% do total.

Por fim, a infraestrutura americana recebeu da Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE) notas entre D e D+ ao longo de 27 anos de avaliações (1998–2021), só atingindo C em 2025, sem jamais alcançar a nota B. Vale dizer que esse C se deu pelo pacote de infraestrutura lançado no governo Biden, cujos recursos se extinguirão esse ano.

Tomados em conjunto, esses indicadores apontam para uma erosão gradual das bases que sustentaram a liderança econômica e tecnológica americana no pós-guerra, tornando fenômenos políticos como o trumpismo menos uma causa e mais um sintoma de um declínio estrutural mais profundo.

Trump obviamente aprofunda o processo e também é consequência dele. O Financial Times, com dados elaborados por John Burn-Murdoch, reforça a dimensão institucional desse declínio. Com base em um índice de 30 pontos que avalia 10 domínios, incluindo o uso de força estatal contra civis, a perseguição política e a independência do Judiciário e do serviço público, os dados comparam a velocidade de erosão democrática em episódios recentes de retrocesso autoritário.

Os números mostram que o recuo democrático dos EUA no segundo mandato de Trump é mais acelerado do que qualquer precedente recente: em menos de um ano, os Estados Unidos já acumularam uma deterioração comparável à que Hungria, Venezuela, Rússia e Turquia levaram entre dois e três anos para atingir. Enquanto esses países percorreram trajetórias de erosão institucional ao longo de uma década ou mais, a inclinação da curva americana sugere que o ritmo de desmonte é sem paralelo entre as democracias analisadas, indicando que a fragilidade estrutural documentada nos indicadores econômicos e educacionais encontra agora correspondente no plano político-institucional.

Não à toa, as lideranças mundiais têm dado sinais de preocupação com a crise geopolítica que o mundo vive. A pesquisa de percepção de riscos globais do Fórum Econômico Mundial para 2025-2026 reforça esse quadro de instabilidade sistêmica.

Quando perguntados sobre o risco mais provável para o mundo no curto prazo, 18% dos respondentes apontaram a confrontação geoeconômica como principal ameaça, seguida por conflitos armados entre Estados (14%), eventos climáticos extremos (8%), polarização social (7%) e desinformação (7%). No horizonte de dois anos, os riscos geopolíticos e societais dominam: confrontação geoeconômica, desinformação, polarização e conflitos armados ocupam quatro das cinco primeiras posições.

Já na perspectiva de dez anos, o cenário se reconfigura: os riscos ambientais passam a dominar o topo do ranking, com eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e mudanças críticas nos sistemas terrestres ocupando as três primeiras posições, enquanto os impactos adversos da inteligência artificial sobem para a quinta posição.

A leitura conjunta dos dois horizontes temporais sugere que, se no curto prazo o mundo enfrenta os efeitos imediatos da fragmentação geopolítica e da erosão institucional, dos quais o caso americano é simbólico, no longo prazo são os riscos ambientais e tecnológicos que ameaçam redefinir as bases da estabilidade global.

Ironicamente, é justamente no momento em que a ciência climática apresenta seus alertas mais urgentes que os Estados Unidos promovem o mais temerário recuo ambiental de sua história. Desde o primeiro dia de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, Trump assinou uma série de ordens executivas retirando os EUA do Acordo de Paris, declarando emergência energética nacional, revogando políticas climáticas da era Biden, impondo moratória a novos projetos eólicos em terras federais e ampliando a exploração de petróleo e gás em áreas protegidas.

Nos meses seguintes, a administração cortou bilhões de dólares no financiamento climático internacional, retirou-se das parcerias de transição energética com países em desenvolvimento, demitiu milhares de funcionários federais de agências como a EPA, a NOAA e a NSF, envolvidas em pesquisa climática e monitoramento ambiental, e não enviou representantes à COP30 no Brasil.

Em janeiro de 2026, Trump determinou a retirada dos Estados Unidos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o tratado climático ratificado pelo Senado em 1992, do qual todos os países do mundo são signatários, e também do IPCC, o principal organismo científico global sobre clima, tornando os EUA o primeiro e único país a abandonar a convenção.

O ponto culminante veio em 12 de fevereiro de 2026, quando a EPA revogou formalmente o endangerment finding de 2009, a determinação científica que classificava o dióxido de carbono e outros cinco gases de efeito estufa como uma ameaça à saúde pública, eliminando a base legal para praticamente toda a regulação federal de emissões, desde padrões veiculares até limites para usinas termelétricas.

Tudo isso ocorre em contraposição direta ao que a ciência registra. O relatório State of the Global Climate 2024, publicado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) em março de 2025, confirma que os sinais das mudanças climáticas atingiram patamares sem precedentes, com consequências potencialmente irreversíveis por séculos.

O ano de 2024 foi provavelmente o primeiro ano civil a ultrapassar 1,5 °C acima da era pré-industrial, com uma temperatura média global de superfície de 1,55 ± 0,13 °C acima da linha de base de 1850-1900, o mais quente em 175 anos de registros. As concentrações atmosféricas de CO₂ encontram-se nos níveis mais altos dos últimos 800 mil anos, ultrapassando 422 ppm em 2024, com uma taxa de crescimento de 3,5 ppm/ano, a maior desde o início das medições em 1984.

Os dados de precipitação revelam um padrão global de extremos hídricos cada vez mais pronunciados, com vastas regiões simultaneamente afetadas por secas e inundações anômalas, enquanto, de 2022 a 2024, as geleiras registraram a maior perda em três anos consecutivos.

A justaposição entre a escalada dos indicadores climáticos e o desmonte sistemático da governança ambiental americana revela uma contradição histórica: o país que é o maior emissor acumulado de CO₂ da história opta por desmantelar suas defesas institucionais precisamente quando a ciência demonstra que a janela para ação significativa se estreita de forma acelerada. Trump, assim, não se torna apenas um acelerador do processo de desmonte institucional que os americanos vivem nos últimos anos, mas também aprofunda os dilemas climáticos do mundo para os próximos anos.