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A esponja lulista e o teflon bolsonarista

A base popular lulista vota pela porta material; é a voz de quem não tem saída, sensível ao emprego e ao preço do arroz

Lula e Flávio Bolsonaro: segundo Futura, senador amplia vantagem em simulações de 2º turno (Divulgação/Exame)

Lula e Flávio Bolsonaro: segundo Futura, senador amplia vantagem em simulações de 2º turno (Divulgação/Exame)

Sergio Vale
Sergio Vale

Colunista

Publicado em 25 de maio de 2026 às 19h46.

A poucos meses da eleição, virou esporte tentar explicar por que a economia de Lula não vira popularidade. A pesquisa da Genial/Quaest da semana passada deu algum alívio ao governo, com a aprovação subindo de 43% para 46%, e o escândalo Vorcaro-Flávio Bolsonaro aumentou a distância entre esquerda e direita, mas a pergunta de fundo permanece: por que números macroeconômicos respeitáveis, com o índice de miséria em níveis historicamente baixos, custam tanto a se converter em voto? O debate ganhou corpo na Ilustríssima da Folha de S.Paulo. Laura Carvalho e Guilherme Klein argumentaram que a desconexão decorre de fatores que a economia tradicional não capta: a comparação com o “milagrinho” dos anos 2000, a aspiração de consumo inflada pelas redes sociais, o endividamento das famílias e a frustração de uma geração que se escolarizou e não ascendeu. Leonardo Weller respondeu acusando a esquerda de ignorar o elefante na sala, a recessão de 2014-2016 sob Dilma, e de preferir falar em novos desejos de consumo a encarar o desgaste de uma agenda que não gera produtividade.

Os dois lados têm razão em pontos importantes, mas falta um terceiro ângulo, que vem dos dados. Estimamos, sobre trinta anos de séries mensais, um modelo que mede quanto a aprovação de cada presidente responde ao índice de miséria, a velha soma de desemprego e inflação, deixando essa resposta variar de um governo para outro em vez de impor que um choque tenha o mesmo efeito em 1998, em 2015 e hoje. O resultado não derruba nenhuma das duas teses, mas acrescenta a elas uma camada que faltava: a sensibilidade da popularidade à economia varia em até 5 vezes entre os presidentes. Bolsonaro era o menos sensível de todos, com um ponto a mais de miséria lhe custando apenas 1,4 ponto de aprovação em doze meses. Lula, no mandato atual, é o mais sensível desde 1996, com 5,8 pontos para o mesmo choque, e Dilma vem logo atrás, com 4,3. Em outras palavras, a base bolsonarista era revestida de teflon, indiferente à conjuntura, enquanto a base lulista de hoje funciona como uma esponja, que absorve cada oscilação econômica para o bem e para o mal.

Albert Hirschman ofereceu, há mais de meio século, uma análise que ainda nos serve para compreender esse contraste. Diante da deterioração de uma organização ou de um governo, seus membros têm três opções: sair, protestar ou permanecer leais. A lealdade neutraliza as outras duas, e é o que descreve o teflon bolsonarista, uma adesão de natureza identitária, feita de valores e antipetismo, que blinda o presidente contra o custo de vida e que, quando muito, leva o eleitor a um exit silencioso, à abstenção ou ao centrão, sem virar protesto. A base lulista é o oposto, e Hirschman dá a chave do porquê: a voz é exercida com mais energia justamente por quem não tem para onde ir. O eleitor de baixa renda, dependente de emprego e de transferências, é quem tem menos opções de saída; não pode trocar de classe nem de país e, por isso, converte a deterioração econômica em voz, não em fuga. A esponja, portanto, não é só uma base sensível ao bolso. É uma base sem rota de saída, presa ao resultado material do governo, e é isso que a torna tão reativa.

É tentador ler esse coeficiente recorde do Lula 3 como um problema de hoje, mas, na verdade, é um efeito do passado. O índice de miséria que entra no modelo é um fluxo corrente: a inflação e o desemprego de agora; já a sensibilidade a esse fluxo carrega um estoque acumulado: a cicatriz de uma década de renda deprimida, endividamento elevado e frustração material que remontam à recessão de 2014-2016. A base que sustenta Lula em 2026 chega ao ano eleitoral já no limite, com o orçamento doméstico esticado, endividado e inadimplente, e, por isso, qualquer problema adicional na inflação ou no emprego tende a ser sentido mais do que por qualquer outro eleitorado. É a diferença entre cutucar a pele íntegra e cutucar exatamente onde já existe um machucado: o cutucão é o mesmo; a dor é maior. Ao deixar o coeficiente variar ao longo do tempo, o modelo capta exatamente isso. Em 2006, essa base vinha de uma trajetória ascendente, com folga e expectativa de mais, e reagia pouco; em 2026, vem de uma década perdida, sem folga, e reage muito.

A alta elasticidade do Lula 3 reafirma Weller e é a visão econométrica da fadiga material que ele descreve: uma base endividada e de renda apertada é, por definição, hipersensível ao bolso, e o desgaste da agenda de que ele fala e a hipersensibilidade que meu modelo mede são duas faces da mesma moeda. O fato de o canal ser material, uma reação à inflação e ao desemprego concretos, e não a um sentimento difuso, pesa a favor do diagnóstico dele, porque, se a fragilidade fosse pura aspiração subjetiva, não precisaria se manifestar como reação ao preço do arroz. Afinal, a inflação de alimentos já foi muito maior no passado e não machucou tanto Lula quanto tem machucado nos últimos anos. O elefante que ele acusa a esquerda de ignorar, a recessão da Dilma, aparece nos números em ambas as pontas.

Há, porém, um segundo mal-entendido a desfazer, e esse atinge a minha própria metáfora. Não existe um único canal pelo qual a economia vira voto. Em pesquisa que desenvolvo com Lourdes Sola e Paulo Flores, com microdados eleitorais de 48 países, encontramos algo que, à primeira vista, surpreende: a versão popular dessa tese, a de que um choque de inflação empurra a classe média para o voto extremo, não se sustenta estatisticamente. O que canaliza a alienação da classe média rumo ao voto antissistema não é o bolso, e sim a percepção de ineficácia política, o sentimento de que o voto não muda nada e de que protestar é inútil. São dois mecanismos distintos para dois eleitorados distintos, e confundi-los é a origem de boa parte da confusão do debate atual.

A base popular lulista vota pela porta material; é a voz de quem não tem saída, sensível ao emprego e ao preço do arroz. Já a classe média que migrou para o bolsonarismo votou por outra porta. Seguindo Hirschman, ela é o eleitorado de demanda inelástica que, ignorado pelos partidos que correm ao centro, não tem para onde migrar e acaba radicalizando a própria voz. Os anos 2000 produziram nela o efeito túnel de que ele falava: a tolerância à desigualdade enquanto havia a expectativa de subir junto. Quando essa expectativa estancou, a tolerância virou indignação e, em 2018, com um canal partidário finalmente disponível, a voz acumulada explodiu: a posição ideológica média do partido escolhido pelo eleitor brasileiro saltou de cerca de 3,5 para 7,5 numa única eleição.

Tanto a pergunta de Carvalho e Klein quanto a resposta de Weller pressupõem um sujeito único, o eleitor brasileiro no singular. Esse sujeito não existe: há pelo menos dois Brasis eleitorais, cada um movido por um mecanismo diferente. Para a base popular que sustenta Lula, “comer PIB” é exatamente o que está em jogo; para a classe média que se radicalizou, “ninguém come PIB” é quase literal, porque sua revolta foi política antes de ser econômica. As próprias pesquisas confirmam a clivagem: entre os beneficiários do Bolsa Família, Lula vence Flávio com folga; entre os não-beneficiários, perde.

Isso reorganiza a leitura de outubro. O destino de Lula está mais amarrado à conjuntura do que o de qualquer presidente recente porque sua base é a que vota pela porta material. Se o índice de miséria ficar perto dos atuais dez pontos, a aprovação tende a se acomodar entre 44% e 47%, faixa competitiva que favorece o incumbente no segundo turno; se piorar em dois pontos, num cenário de El Niño forte sobre os alimentos e de preços altos de petróleo sobre os combustíveis, a aprovação cairia para algo entre 38% e 42%. E aqui mora a ironia de sempre, o fiscal: para uma base tão sensível ao bolso, o governo se vê tentado a gastar para sustentar a popularidade, justamente no ano em que o ajuste seria mais necessário e os juros seguem nas alturas. Programas como o Desenrola 2.0 e as subvenções pontuais funcionam como anestesia, não como cura, e cada fiapo de receita extra vira gasto eleitoral em vez de redução de déficit.

A outra metade do eleitorado, por sua vez, não será reconquistada por nenhum dado de inflação, pois sua adesão passa por uma porta que a macroeconomia não abre. No fim, Carvalho, Klein e Weller discordam sobre por que a economia não basta para Lula, e a resposta talvez seja que ela basta, e muito, mas só para a metade que vota com o bolso porque não tem para onde mais ir. Outubro será, no fundo, uma disputa sobre qual das duas metades comparece com mais força.