O real problema é 2018

A cruzada moralizante (e moralista) das operações Lava-Jato e cia são importantes para o país, mas são absolutamente insuficientes. Diria mesmo que essa é a parte fácil e aquela que sabemos fazer. O problema grave é de ordem política. É redefinir o pacto social que poderá balizar o próximo ciclo político e econômico do Brasil. […]
 (Ueslei Marcelino/Reuters)
(Ueslei Marcelino/Reuters)
Por Ricardo SennesPublicado em 09/06/2017 13:53 | Última atualização em 22/06/2017 18:02Tempo de Leitura: 6 min de leitura

A cruzada moralizante (e moralista) das operações Lava-Jato e cia são importantes para o país, mas são absolutamente insuficientes. Diria mesmo que essa é a parte fácil e aquela que sabemos fazer. O problema grave é de ordem política. É redefinir o pacto social que poderá balizar o próximo ciclo político e econômico do Brasil. A crise de lideranças, partidos e projetos está minando a formação de maiorias estáveis e com visão estratégica do país. E para isso não há resposta fácil e rápida e nem passa por delações premiadas ou bravatas na televisão.

Acumulam-se os sinais de que o acordo tácito que foi sendo montado durante a transição democrática, a Constituição de 1988 e com o Plano Real gerou um ciclo bastante positivo para o país, mas que se esgotou. Nesse período os avanços foram evidentes e contundentes. Sob quase todos os aspectos da vida política, social e econômica brasileira a situação hoje é substancialmente melhor do que a de 30 anos atrás. Embora alguns temas tenham ficado para trás, com destaque para a perda de competitividade do país, a maior parte das dimensões do desenvolvimento do país avançaram: a qualidade institucional, a independência dos órgãos que compõem o sistema de integridade, aumento significativo da expectativa de vida, redução drástica do tamanho médio da família brasileira, quase universalização do ensino básico dos jovens, entre vários outros.

Porém esse ciclo foi baseado também em alguns processos bastante negativos. O primeiro deles foi a enorme fragmentação que se produziu no sistema partidário, assim como no aprofundamento de um sistema de financiamento eleitoral 100% baseado em caixa 2. Somado ao enorme assalto aos cofres públicos – que nessa fase estavam estufados de recursos derivados do boom econômico dos anos 2006-2014 – por parte dos partidos dominantes do cenário político nacional. A somatória desses dois processos está sendo desmontada pela Lava Jato, mas não está sendo acompanhada pela criação de uma alternativa. O processo está levando a um vácuo político. Combater os desvios é obviamente necessário, mas tão ou mais necessário é abrir espaço para que o novo surja desse processo.

Outro processo altamente danoso para o país que também foi dominante durante o ciclo anterior é a perda de competitividade sistêmica. A economia do Brasil hoje é muito maior do que era 20 anos atrás, porém também muito menos competitiva. Nosso crescimento não foi acompanhado de desenvolvimento das capacidades produtivas e tecnológicas necessárias para sustentar as demandas da sociedade brasileira. Em uma certa medida o país mais “inchou” do que se desenvolveu. A elevação dos salários, das condições de vida e de consumo da enorme classe média criada nos últimos anos não foi associado ao ganho de capacidade competitiva para lhe dar suporte econômico. Vários economistas viram nesse processo o típico crescimento via consumo e não via investimento. A expansão dos últimos anos foi largamente baseada no crescimento do setor de serviços de baixo valor agregado e voltado a atender as demandas básicas da classe média e baixa, e não na montagem de cadeias produtivas modernas e internacionalizadas.

Dilma e seu grupo político não souberam interpretar o que estava ocorrendo. Ao contrário, atuaram para aprofundar esses problemas estruturais e os vícios do sistema. Alguns elementos do grupo de Lula apontaram para eles, mas foram votos vencidos no PT e nem chegaram perto do círculo decisório de Dilma. Viraram vozes isoladas.

A incapacidade da coalizão liderada pelo PT de se antecipar à decadência do modelo que sustentou o ciclo de crescimento com vícios foi evidente e acabou afundando junto com ele. A sabedoria e astúcia que Lula demonstrou para gerir a transição política no início de seu governo não foram mobilizadas para liderar a crise anunciada já no primeiro governo Dilma. Portanto, esse agrupamento político parece estar virtualmente incapaz de se tornar novamente majoritário na sociedade em 2018. Segue bastante questionável a real capacidade eleitoral de seu grupo. Não deverá vir daí as propostas inovadoras para o novo ciclo pós 2018.

Restam os demais grupos políticos mais ao centro e à direita fazerem isso. Contudo, não está claro se existe de fato um grupo político de centro-direita com capacidade de liderar esse processo. Antes da crise deflagrada pelas denúncias da JBS parecia que Temer estava estruturando um bloco para 2018 formado por PSDB-PMDB-DEM-PSD. Essa coalizão está abalada e não dá sinais que sairá unida dessa nova crise que assola o centro do governo federal. O próprio PSDB não mostra a convicção necessária para apostar em liderar um projeto para o novo ciclo.

Das lideranças desses partidos apenas Alckmin se organiza e aponta com uma estratégia para ser um candidato competitivo em 2018. Mas não é exatamente um líder inovador e capaz de redesenhar um ciclo virtuoso para o país. Ele mesmo é, em parte, figura do ciclo anterior, também atingido pela Lava-Jato, embora tenha sabido se preservar mais que as lideranças federais do seu partido e coalizão. Alckmin figura, no máximo, como um elemento de transição negociada entre a decadência do ciclo anterior e algo que possa se esboçar para o futuro. Talvez o máximo que o momento seja capaz de parir.

Apostar em outsiders é, além de uma falácia, um enorme perigo. Seja quem for sabe-se que terá uma bancada mínima na Câmara. E, dado que serão fundamentais estrutura partidária e acesso a recursos do fundo partidário para financiar as eleições, a única alternativa para viabilidade eleitoral de candidatos com esse perfil será radicalizar seu discurso para atrair a atenção e tentar vencer pelas propostas fáceis e sedutoras. A história está recheada de desastres com essas mesmas bases.

Se o principal problema do Brasil fosse corrupção seria ótimo. Bastaria reforçar o Ministério Público, a Defensoria, a Polícia Federal e estaria resolvido o problema do país. Prender todos corruptos é necessário e sobre isso não resta dúvida. Mas não produz resposta para os dilemas do país. A principal agenda estratégica do país no momento é preparar-se para 2018 de forma consequente e sofisticada. É da alta política que virão as respostas para o futuro do Brasil. Temos apenas um ano para investir nisso.