Contexto externo abre espaços de atuação para o Brasil

Toda mudança em ambientes complexos abre espaço para riscos e oportunidades. No campo internacional, os deslocamentos de grandes países ou blocos de países abrem margens de atuação para quem conseguir antever tendências. Atualmente pelo menos três grandes movimentos internacionais têm potencial de impacto sobre o Brasil. O primeiro deles certamente é a mudança de eixo […]
Por Ricardo SennesPublicado em 31/03/2017 16:10 | Última atualização em 22/06/2017 18:00Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Toda mudança em ambientes complexos abre espaço para riscos e oportunidades. No campo internacional, os deslocamentos de grandes países ou blocos de países abrem margens de atuação para quem conseguir antever tendências. Atualmente pelo menos três grandes movimentos internacionais têm potencial de impacto sobre o Brasil.

O primeiro deles certamente é a mudança de eixo que pode ocorrer nos EUA após a posse Trump. Ao recuperar as visões isolacionista e mercantilista, que nos últimos 75 anos foram secundárias nos EUA, Trump está tentando liderar uma guinada em várias políticas, com especial ênfase no campo internacional. No curto prazo, os maiores impactos devem ser comerciais.

O Brasil deve ser afetado negativamente dada a expressividade da parceria: é o segundo maior parceiro, atrás apenas da China, e o mais diversificado em termos de perfil das trocas e das ações protecionistas em setores como aço, têxtil e moda, peças e máquinas. Trump deve escolher os produtos associados às indústrias de média capacidade tecnológica – aquelas que mais perderam competitividade internacional e postos de trabalhos – para focar suas ações protecionistas, que deve atingir em cheio o Brasil. Mas deve ser menos agressivo em campos como agricultura, produtos de alto valor agregado e serviços. Existe um arsenal enorme nos EUA que pode ser mobilizado para proteção comercial caso o presidente e uma parte significativa do Congresso apoiem essa diretriz.

No médio prazo, caso suas ações gerem respostas semelhantes para os principais parceiros comerciais (Europa, Japão e China), pode ocorrer uma onda de protecionismo contra qual o Brasil tem poucas armas para enfrentar.

Ainda assim algumas oportunidades podem ser perseguidas. O México é uma delas. Por conta dos problemas políticos e econômicos com a nova administração norte-americana, os mexicanos estão buscando alternativas para atenuar o efeito desse afastamento relativo. Trata-se da segunda economia da América Latina, que tem o comércio exterior como uma de suas principais áreas. É, portanto, um candidato natural para figurar entre as prioridades da atuação externa do Brasil. Como são poucos os acordos sob a égide da ALADI, cabe oportunamente um investimento para ampliar de forma significativa o espaço para as trocas econômicas entre os dois países.

As ações de Trump devem também atrapalhar ou mesmo interromper algumas das negociações comerciais e regulatórias com países da Europa e da Ásia. O Brasil não tem muito peso nem energia política no momento para ações grandiloquentes nessas frentes, mas pode aproveitar para pelo menos avançar no acordo Mercosul-União Europeia, considerando que já está em andamento. Menos factível parece ser a abertura de uma nova frente de negociação com Japão.

O terceiro campo que se abre para o Brasil é a América Latina em si, em particular uma aproximação do Mercosul com os países da Aliança do Pacífico. Um dos legados ruins deixado pelos governos anteriores foi a divisão de blocos na América Latina. O modelo adotado para o Mercosul nos últimos anos deixou de ser interessante para países com economias mais abertas e os estimulou a desenhar uma aliança da qual o Brasil não foi chamado para participar. Tal divisão é inusitada e desloca o Brasil de seu papel central na região.

O momento é favorável para uma reaproximação e, se possível, reintegração dos dois blocos baseada em uma nova agenda econômica regional. Os primeiros passos já começaram a ser dados com a reunião entre os blocos nesta semana. Há espaço para proposições de agenda mais ambiciosas. Aliás, seria uma ótima marca no meio de tantas notícias internacionais negativas no campo comercial.

Ainda que hajam oportunidades, não é desprezível o risco associado à Venezuela, o maior exemplo de caos econômico e político criado na bolha das commodities dos anos 2000. Quem acompanha de perto tem dificuldade de entender como ainda não eclodiu uma guerra civil ou um golpe de estado. A situação limite aumenta a preocupação sobre os possíveis efeitos de uma ruptura tanto interna, quanto externamente, em especial sobre a Guiana, o Brasil e a Colômbia.

Existem, portanto, espaços para atuação internacional do Brasil – ofensiva ou defensiva -, mesmo no atual contexto de conturbação. Mesmo debilitado internamente pela crise política e econômica, uma agenda pragmática e comedida pode trazer benefícios para o país.

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