O que será da nossa Educação?

Num contexto de flexibilização das medidas restritivas, é hora de fazer balanços importantes, inclusive sobre as deficiências no ensino pós-pandemia
Escola pública de São Paulo na retomada das aulas presenciais: pandemia causou maior queda no aprendizado dos alunos desde o início da série histórica, em 2010 (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Escola pública de São Paulo na retomada das aulas presenciais: pandemia causou maior queda no aprendizado dos alunos desde o início da série histórica, em 2010 (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Por Regina EstevesPublicado em 11/03/2022 18:31 | Última atualização em 11/03/2022 18:31Tempo de Leitura: 5 min de leitura

No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS), declarou oficialmente que a Covid-19 se transformara em uma pandemia, ou seja, uma doença espalhada pelos diversos continentes do globo, com transmissão sustentada entre as pessoas.

Dois anos após esta declaração tivemos mais de 450 milhões de casos no mundo, que, infelizmente, levaram a óbito, mais de 6 milhões de pessoas.

O alento, mundialmente e no Brasil, é que o número de vacinados têm crescido muito e, especificamente aqui, já temos 74,51% de brasileiros completamente vacinados, que correspondem a uma população de 157.250.835 milhões de pessoas.

Diante de um contexto de flexibilização das medidas restritivas, é hora de fazer balanços importantes.

Um deles deveria ser relativo à questão econômica, mas, nem saímos ainda da pandemia e já nos defrontamos com uma guerra, que impacta negativamente o mundo e o Brasil, especialmente em relação aos preços do petróleo e dos fertilizantes.

Outro balanço é quanto aos prejuízos e problemas causados pela administração da pandemia no país, especialmente no que se refere à educação de nossas crianças e jovens.

Para ilustrar este ponto imaginemos a seguinte situação: uma mãe negra, pobre, moradora de qualquer centro urbano brasileiro ou do interior, cuja criança estivesse completando 6 anos, em 2020, antes do dia 31 de março, e, portanto, matriculada no primeiro ano do ensino fundamental.

Dependendo da região do país, esta criança pode ter passado grande parte dos últimos 24 meses sem atividades letivas, ou frequentando apenas aulas remotas e, só agora, em 2022, está voltando à sala de aula presencialmente e de maneira regular.

Considerando as condições de desigualdade social, o estresse causado pelas medidas de prevenção à circulação do vírus e o agravamento da situação financeira das famílias, para não falar das dificuldades da educação pública brasileira, o aprofundamento de nossa crise de aprendizagem é uma realidade que precisa ser medida e, na sequência, implementadas ações de correção e, principalmente, criado um plano consequente de recuperação da gigantesca defasagem que se construiu.

Em fevereiro de 2021, o Banco Mundial já alertava para o tamanho da crise educacional que seria legada em função da pandemia, na América Latina e no Caribe.

Naquele momento, a instituição contabilizava que cerca de 120 milhões de crianças em toda a região já haviam perdido, ou corriam o risco de perder, um ano letivo de educação presencial e, como resultado, a pobreza de aprendizagem poderia ter subido de 51% para 62,5% entre crianças de 10 anos de idade.

Como a pandemia se agravou no primeiro semestre de 2021, o quadro tornou-se, portanto, ainda mais caótico.

A partir de dados da PNAD Contínua, de 2012 a 2021, o Todos pela Educação publicou, no início de fevereiro de 2022, uma nota técnica sobre o impacto da pandemia na alfabetização de nossas crianças, apontando entre outros os seguintes dados:

Entre 2019 e 2021, houve um aumento de 66,3% no número de crianças de 6 e 7 anos de idade que, segundo seus responsáveis, não sabiam ler e escrever. O número passou de 1,4 milhão em 2019 para 2,4 milhões em 2021.

Este impacto reforçou a diferença entre crianças brancas e crianças pretas e pardas. Os percentuais de crianças pretas e pardas de 6 e 7 anos de idade que não sabiam ler e escrever passaram de 28,8% e 28,2% em 2019 para 47,4% e 44,5% em 2021, sendo que entre as crianças brancas o aumento foi de 20,3% para 35,1% no mesmo período.

Dentre as crianças mais pobres, o percentual das que não sabiam ler e escrever aumentou de 33,6% para 51,0%, entre 2019 e 2021. Dentre as crianças mais ricas, o aumento foi de 11,4% para 16,6%.

Agora em março, o Governo de São Paulo divulgou os resultados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), através da Secretaria Estadual de Educação (Seduc-SP). E a conclusão é que estamos diante da maior queda da série histórica de aprendizagem, iniciada em 2010.

As provas foram aplicadas em dezembro de 2021 para mais de 642 mil alunos do 5º e 9º anos do ensino fundamental e 3ª série do ensino médio da rede estadual. E, dentre as séries testadas, o 5º ano teve a maior queda em 2021. Em língua portuguesa, o aluno que está no 5º ano tem a mesma proficiência de um estudante do 3º ano do ensino fundamental.

Aquela mãe que citamos, só agora que sua criança está com 8 anos pode esperar que ela inicie de maneira correta o processo de alfabetização.

E, se ela tem outros filhos mais velhos, já sabe que eles não aprenderam o suficiente durante esses últimos dois anos e, assustada, busca respostas para que o futuro de suas crianças não fique definitivamente comprometido.

Na era do conhecimento e da tecnologia, nenhuma outra área de política pública merece mais atenção que a educação.

Em um país tão desigual quanto o nosso, nenhuma pauta pública é mais relevante que o futuro de nossas crianças e jovens.

Apoiar, avaliar e entender as políticas educacionais que serão utilizadas para mitigar esses prejuízos não pode deixar de estar na agenda de nenhum de nós. Governantes, líderes e sociedade civil: a Educação precisa ser uma agenda de ESTADO, perene e sustentável. Precisamos viver e reviver a educação!