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Muito além da previdência

Os desafios de um país que envelhece sem garantir financiamento sustentável para suas políticas sociais

Regina Esteves: "A pergunta central não é só 'quem pagará as aposentadorias?'. Precisaremos discutir quem vai cuidar de quem" (Pedro França/Agência Senado)

Regina Esteves: "A pergunta central não é só 'quem pagará as aposentadorias?'. Precisaremos discutir quem vai cuidar de quem" (Pedro França/Agência Senado)

Regina Esteves
Regina Esteves

CEO da Comunitas e colunista

Publicado em 28 de maio de 2026 às 16h50.

Última atualização em 28 de maio de 2026 às 16h52.

Há diagnósticos que parecem simples porque chegaram tarde ao debate público. Um deles vem sendo repetido por economistas brasileiros há alguns anos, e Samuel Pessôa o sintetizou numa formulação difícil de ignorar: o Brasil envelheceu sem ficar rico. A frase importa porque captura, em poucas palavras, uma assimetria que definirá boa parte do século XXI no Brasil. Países que hoje sustentam populações idosas com relativa qualidade chegaram a esse momento demográfico com renda alta, instituições maduras, poupança acumulada, infraestrutura urbana adaptada e sistemas de cuidado organizados. O Brasil percorre esse caminho em ordem mais difícil: a transição demográfica chega antes do desenvolvimento que deveria sustentá-la.

Os números são conhecidos. Em 2025, segundo a PNAD Contínua, o Brasil tinha 212,7 milhões de habitantes e cresceu apenas 0,39% em relação ao ano anterior. A população com 60 anos ou mais chegou a 16,6% do total. As projeções do IBGE indicam que o país deve parar de crescer em 2041, quando alcançará cerca de 220,4 milhões de habitantes, e depois começará a diminuir. A taxa de fecundidade, que era de 2,32 filhos por mulher em 2000, caiu para 1,57 em 2023 e deve recuar até 1,44 em 2040 — bem abaixo do nível de reposição populacional, estimado em torno de 2,1 filhos por mulher.

Nada disso descreve uma catástrofe. Descreve, antes, uma conquista: brasileiros vivem mais, mulheres têm mais autonomia reprodutiva e a mortalidade caiu. A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024. O problema não é que o Brasil esteja envelhecendo. O problema é que suas instituições foram desenhadas para um país jovem que está deixando de existir.

Comecemos pela Previdência, porque é o ponto em que o debate público costuma se concentrar. Em 2024, segundo o Balanço do Setor Público Nacional divulgado pelo Tesouro, a função da Previdência Social representou 20,6% do total das despesas públicas consolidadas e 12% do PIB. Não é preciso recorrer ao alarmismo para reconhecer a dificuldade: uma sociedade com mais idosos, menos crianças e proporção menor de pessoas em idade ativa precisará rediscutir regras, financiamento, idade de saída do mercado de trabalho e proteção contra pobreza na velhice.

Mas a Previdência é apenas a superfície. O envelhecimento reorganiza tudo: saúde, cuidado, habitação, transporte, educação, trabalho, imigração, orçamento público e a própria forma como o Estado mede necessidades. A pergunta central não é só “quem pagará as aposentadorias?”. Precisaremos discutir quem vai cuidar de quem.

A primeira resposta precisa vir do cuidado de longa duração. Hoje, no Brasil, boa parte do cuidado de idosos com dependência funcional é feita dentro das famílias, sobretudo por mulheres, quase sempre sem remuneração, formação adequada ou suporte institucional. O IBGE estimou que, em 2022, mulheres dedicavam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens. Esse trabalho invisível sustenta a vida cotidiana, mas cobra preço alto: reduz participação no mercado de trabalho, limita renda, aprofunda desigualdades de gênero e transforma afeto em sobrecarga.

Esse arranjo já funcionava precariamente quando as famílias eram maiores: mais filhos, mais mulheres fora do mercado formal e menos idosos mais longevos. Funcionará cada vez menos. Famílias encolheram, filhos moram longe, mulheres trabalham mais, domicílios unipessoais crescem e a dependência tende a se concentrar nos anos finais da vida. Em 2025, os domicílios unipessoais já eram 19,7% do total, contra 12,2% em 2012. O envelhecimento brasileiro será, em grande medida, urbano, feminino e solitário.

O Brasil deu um passo institucional importante ao aprovar a Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei 15.069/2024. A lei reconhece o cuidado como direito, trabalho e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, setor privado e sociedade. É um avanço conceitual relevante. Mas política de cuidado sem financiamento estável, rede territorial, metas verificáveis, formação profissional e integração entre SUS e SUAS corre o risco de virar declaração generosa sem serviço na ponta.

A experiência internacional mostra que a agenda do cuidado pode ir além de ajustes pontuais no desenho atual das políticas públicas. Alguns países já criaram modelos mais estruturados para financiar o cuidado de longa duração. A Alemanha instituiu, em 1995, um seguro obrigatório de cuidados de longa duração, a Pflegeversicherung; o Japão adotou um sistema semelhante em 2000. Em ambos os casos, a lógica é antecipar parte do financiamento do cuidado, por meio de contribuições obrigatórias e regras públicas de cobertura, em vez de deixar que famílias e indivíduos enfrentem sozinhos a conta quando a necessidade já se impôs.

Há ainda um ângulo frequentemente subestimado no debate brasileiro: a chamada longevity economy, ou economia da longevidade. O envelhecimento populacional não representa apenas pressão sobre a previdência, a saúde e a assistência social. Uma população mais velha e numerosa também forma um mercado consumidor relevante e pode estimular inovação em áreas como tecnologias assistivas, cuidado domiciliar, monitoramento remoto, arquitetura acessível, turismo sênior e serviços profissionais de cuidado. A Comissão Europeia, por exemplo, trata a silver economy como um campo associado a novos empregos, investimentos e soluções tecnológicas para sociedades envelhecidas.

Essas abordagens não substituem a urgência das respostas imediatas discutidas ao longo deste artigo. Mas ajudam a recolocar o problema em outro horizonte. A transição demográfica não exige apenas pagar uma conta maior; ela exige redesenhar instituições, mercados e políticas públicas para uma sociedade que viverá mais tempo.

O país precisará construir e integrar sua rede de cuidados. Nem toda pessoa idosa precisa de instituição de longa permanência; muitas precisam de adaptação da casa, visitas domiciliares, fisioterapia, manejo de medicamentos, centro-dia, transporte acessível, apoio ao cuidador familiar e acompanhamento regular na atenção primária. Uma boa política pública deve reservar instituições para quem precisa delas, fortalecer o cuidado domiciliar quando ele é possível e impedir que famílias pobres sejam deixadas sozinhas diante da dependência severa.

É aqui que a tecnologia pode ajudar. O Brasil já conta com uma base de ferramentas digitais importantes: e-SUS APS, CadÚnico, Meu INSS, prontuários eletrônicos, dados de internação, mortalidade, vacinação, visitas domiciliares e benefícios sociais. O desafio é fazer essas bases conversarem. Um Estado que sabe onde estão seus idosos frágeis, quem vive sozinho, quem teve internação recente, quem usa múltiplos medicamentos e quem depende de uma cuidadora também idosa consegue agir com mais previsibilidade.

A transição demográfica traz também consigo uma segunda pergunta, ainda mais negligenciada: quem terá condições de ter filhos?

Quando tratamos do assunto, aborda-se muito o aumento da velhice e pouco a queda da natalidade. Evidentemente, a liberdade de não ter filhos é conquista civilizatória. Mas a liberdade de escolher ter filhos também precisa ser real. Hoje, para muitos casais jovens, filhos deixaram de ser apenas uma decisão afetiva e passaram a ser um risco financeiro e profissional. Moradia cara, trabalho instável, jornadas rígidas, creches insuficientes, penalização da maternidade e divisão desigual do cuidado formam uma estrutura silenciosa de desincentivo à natalidade.

Não há política pública capaz de garantir, por decreto, o aumento da natalidade. A experiência internacional recomenda cautela: transferências monetárias costumam ter efeito limitado, e países que gastaram muito em incentivos familiares nem sempre conseguiram reverter a queda da fecundidade. Mas a evidência também sugere que políticas consistentes de conciliação entre trabalho e família (creches acessíveis, licença parental, segurança econômica, moradia e divisão mais equilibrada do cuidado) podem reduzir o custo real de ter filhos e permitir que famílias tenham o número de filhos que desejam.

O envelhecimento não precisa ser uma tragédia

O Brasil ainda trata essa agenda de modo fragmentado. O Bolsa Família reconhece que crianças elevam necessidades, mas o apoio fica restrito à política de combate à pobreza. Para a classe média e os mais ricos, o principal “benefício familiar” são as deduções no Imposto de Renda — por dependente, educação e saúde privadas —, mecanismo que, por sua própria lógica, beneficia mais quem tem renda tributável mais alta e alíquota marginal maior.

Em um país que envelhece rápido, faz pouco sentido manter uma estrutura tributária que subsidia de forma regressiva o consumo privado de famílias mais ricas enquanto o custo real de criar filhos pesa sobre a maioria. Um Estado que se preocupa com demografia deveria caminhar na direção oposta: menos renúncia mal focalizada no topo, mais apoio direto e previsível às famílias com crianças — seja por crédito tributário reembolsável, seja por um Benefício Universal Infantil que unifique e corrija a regressividade do arranjo atual.

Também é preciso avançar em licença parental. A ampliação gradual da licença-paternidade, sancionada em 2026 para chegar a 20 dias em 2029, é um passo pequeno, mas simbólico: reconhece que cuidado não é assunto exclusivamente materno. O Brasil precisará ir além, discutindo licença parental compartilhada, proteção contra discriminação de mães no trabalho, horários flexíveis, trabalho híbrido quando possível e incentivos para que homens cuidem de fato, não apenas “ajudem”.

A transição demográfica também vai exigir mudanças estruturais, especialmente na integração entre saúde e planejamento urbano. O foco da saúde deve passar do atendimento episódico para o cuidado contínuo e a manutenção da autonomia do idoso. Isso depende de cidades mais acessíveis, pois falhas básicas de infraestrutura resultam em quedas que geram dependência física e altos custos hospitalares.

A queda na natalidade e a redução da força de trabalho impõem adaptações na educação e no mercado de trabalho. A infraestrutura escolar com capacidade ociosa pode ser convertida em centros de serviços integrados para a comunidade. Simultaneamente, o prolongamento da vida laboral exigirá políticas de requalificação que respeitem as disparidades de desgaste físico entre as ocupações, enquanto a imigração precisará ser estruturada como política estratégica de recomposição da força de trabalho.

A boa notícia, embora exija ressalvas, é que ainda há tempo. A população brasileira só deve parar de crescer em 2041, e o país ainda carrega parte do bônus demográfico. Mas bônus demográfico pode ser desperdiçado em consumo corrente, disputa distributiva de curto prazo e improviso fiscal, ou convertido em produtividade, educação, cuidado, tecnologia, infraestrutura social e capacidade estatal.

O Brasil precisa começar por cinco frentes. Consolidar um Sistema Nacional de Cuidados, com financiamento, formação de cuidadores, centros-dia, apoio ao cuidador familiar e integração entre SUS e SUAS. Reorganizar a atenção primária em torno da capacidade funcional e da prevenção da dependência. Adaptar cidades e moradias, tratando calçada, transporte e habitação como política de saúde. Preparar o mercado de trabalho para trajetórias mais longas, com requalificação e combate ao etarismo. E, finalmente, construir uma política familiar moderna: creches, licença parental, eventual Benefício Universal Infantil, revisão de renúncias regressivas, apoio financeiro por criança e redução do custo real de criar filhos.

Nada disso é simples, barato e rápido. Mas a alternativa pior é: deixar que a transição demográfica seja administrada pela exaustão das famílias, pela solidão dos idosos, pela saída de mulheres do mercado de trabalho, por reformas previdenciárias tardias e por uma natalidade que cai não apenas porque as pessoas escolheram ter menos filhos, mas porque o país tornou essa escolha cada vez mais difícil.

Se o Brasil não se preparar para a transição demográfica dos próximos quinze anos, ele será atropelado pela ausência dessas medidas. E essa ausência tem uma gramática conhecida: famílias sobrecarregadas, mulheres exauridas, idosos invisíveis, escolas sem crianças, previdência pressionada e uma sociedade mais velha sem instituições suficientemente adultas.

O envelhecimento brasileiro não precisa ser uma tragédia. Ele pode ser a prova de maturidade de um país que aprendeu a viver mais, mas agora precisa aprender a cuidar melhor — dos idosos que chegam, das crianças que ainda nascerão e das famílias que as sustentam.