A bolsa brasileira B3 (Cris Faga/Getty Images)
Panorama Econômico
Publicado em 30 de dezembro de 2025 às 14h57.
Por Lucas Rufino*
O Brasil termina 2025 com um mercado mais forte e com o investidor mais confiante. Esse é justamente o tipo de virada que costuma gerar duas reações opostas: alguns organizam a carteira para atravessar o próximo ciclo; outros correm para “não ficar de fora”.
Para 2026, a combinação de incerteza doméstica e ruído global tende a deixar o caminho mais irregular.
Em anos de eleição, por exemplo, o mercado brasileiro costuma conviver com mais volatilidade e mudanças rápidas de humor, e isso aparece em séries históricas e estudos que analisam esse comportamento.
Some-se a isso um mundo com inovação acelerada — inteligência artificial mudando setores —, juros em transição e tensões geopolíticas que afetam o preço da energia, as cadeias globais e o sentimento de risco.
Nesse tipo de ambiente, a pergunta mais útil não é “qual ação vai subir mais”, e sim “como minha carteira se comporta se eu estiver errado em parte do cenário”. É aqui que a alocação de capital vira o principal diferencial do investidor.
A base teórica para isso existe há décadas. Harry Markowitz mostrou, no artigo que fundou a moderna teoria de portfólios, que o risco de uma carteira não é a soma dos riscos individuais, mas o resultado de como os ativos se relacionam entre si. Em outras palavras: diversificar não é ter muitos ativos; é combinar exposições que não andam todas na mesma direção ao mesmo tempo.
Na prática, isso significa diversificar entre diferentes classes de ativos: renda fixa, ações, fundos imobiliários, ativos globais (como stocks, REITs e ETFs) e, dependendo do perfil e da tolerância a risco, uma parcela em criptomoedas.
A frase atribuída a Warren Buffett, de que investir deveria ser tão emocionante quanto ver a grama crescer, reforça uma ideia simples: não existe milagre. Para a maioria dos investidores, uma boa estratégia de alocação, mantida com disciplina e baixo custo, tende a ser suficiente para construir bons resultados no longo prazo.
A boa notícia é que uma boa alocação não precisa ser complicada. Para 2026, faz sentido pensar a carteira em três blocos: liquidez (para não ser forçado a vender em um momento ruim), estabilidade (para reduzir a volatilidade da carteira) e crescimento (para capturar boas rentabilidades no longo prazo).
No bloco de estabilidade, a renda fixa continua tendo um papel central para o investidor brasileiro.
Ainda há prêmios interessantes e, em um cenário de queda de juros, títulos com duração mais longa podem se beneficiar da valorização de preço — a chamada marcação a mercado —, desde que o investidor entenda o risco de oscilação ao longo do caminho.
Aqui vale um cuidado: o investidor precisa separar “renda fixa” em caixinhas diferentes. Pós-fixados são importantes nos blocos de liquidez e estabilidade, pois protegem mais contra surpresas nos juros; enquanto prefixados e títulos atrelados à inflação longa costumam oscilar mais, mas podem entregar ganho adicional se os juros caírem, sendo úteis no bloco de estabilidade.
No bloco de crescimento, a renda variável segue sendo importante para quem tem horizonte mais longo.
No entanto, em vez de transformar a carteira em um concurso de acertos, o investidor pode buscar eficiência com instrumentos amplos e diversificados, como ETFs, que ajudam a reduzir risco específico e custos de montagem.
Isso conversa com um ponto que pouca gente gosta de admitir: em anos mais voláteis, o erro comum é “mexer demais”. Uma carteira bem alocada funciona melhor quando o investidor tem um processo simples de rebalanceamento. Quando um bloco sobe muito e outro cai, o rebalanceamento obriga você a fazer o oposto do instinto: reduzir excessos e recomprar o que ficou para trás, mantendo o risco sob controle.
Outro ajuste que tende a ganhar relevância em 2026 é a diversificação geográfica. Não é por moda, nem por medo. É porque choques locais existem e, quando acontecem, geralmente vêm acompanhados de câmbio e prêmio de risco. Ter uma parcela de exposição global pode reduzir a dependência de um único país e de uma única moeda, sem exigir apostas complexas.
Nada disso elimina risco, mas muda o tipo de risco que você corre. Em vez de depender de um único acerto, você passa a depender de disciplina e diversificação. E isso é o que, historicamente, mais protege o patrimônio sem destruir o potencial de retorno.
Se eu pudesse deixar um conselho prático para 2026, seria este: antes de aumentar o risco para buscar retorno, aumente a qualidade da sua alocação. Organize a carteira para sobreviver aos cenários ruins e, como consequência, você ficará vivo para colher os cenários bons.
*Lucas Rufino é CEO e fundador da Simpla Invest, holding financeira que atua no ramo educacional e é reconhecida como uma das maiores consultorias de investimentos do país.