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Carteira à prova de previsões

Investindo com método em tempos de incerteza

 (DircinhaSW/Getty Images)

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PE
Panorama Econômico

Panorama Econômico

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Previsões expõem o que a gente acredita sobre o mundo e o quanto a gente está disposto a admitir que não controla quase nada. Daqui para a frente, o objetivo não é cravar nada; é provocar, chamar atenção e deixar algumas ideias úteis para quem investe com seriedade. 

2025 o regime virou o assunto 

A leitura de 2025 é menos sobre um evento específico e mais sobre um padrão: foi um ano de transição de regime. Ao longo dos meses, o mercado alternou expectativas sobre juros, fiscal, geopolítica e tecnologia e, a cada mudança, os preços se ajustaram com força, nem sempre de forma linear. 

Esse é o tipo de ano que deixa uma lição incômoda: estar certo no tema não garante estar certo no preço, porque preço é função de expectativa, posicionamento e liquidez, não apenas de fundamento. Em regimes instáveis, a diferença entre “boa tese” e “boa carteira” fica muito mais evidente. 

2026: ano de decisões difíceis, com três forças que podem dominar o preço 

Questione palpites fechados sobre 2026. Esse ano, um conjunto de forças pode definir o comportamento do mercado e, principalmente, definir os erros que tendemos a cometer. 

1) O regime de juros no Brasil: o potencial de reprecificação vem com risco de trajetória 

Se 2026 for o ano em que o mercado passa a precificar cortes de juros com mais convicção, isso altera o jogo: a duration volta a importar, os múltiplos reagem, o crédito muda de dinâmica, os fundos listados ficam mais sensíveis e o câmbio pode oscilar com mais intensidade. 

Existe um caminho “mais correto”? Sem qualquer pretensão de certeza: queda de juros não é um presente; é uma troca. Você troca um carrego alto e previsível por um ambiente em que a marcação a mercado pesa mais. E isso exige maturidade do investidor. 

Se tiver que escolher uma direção prudente, escolha não sair correndo para o extremo da duration longa, nem ficar “parado” só porque o CDI está confortável. Faz mais sentido uma transição gradual, com prefixados intermediários e inflação de média duration, para capturar eventual reprecificação sem deixar a carteira frágil a choques. Se o cenário mudar, você não fica preso. 

2) A eleição como variável financeira: o caminho importa tanto quanto o resultado 

Em ano eleitoral, o mercado não reage apenas ao desfecho. Ele reage, principalmente, ao processo: pesquisas, narrativa, sinalizações, equipe econômica, compromisso fiscal e capacidade de governabilidade. 

O erro do investidor é tentar “adivinhar” o resultado e montar uma carteira binária. A pergunta correta não é “quem vence”, e sim: minha carteira aguenta o percurso sem depender de um único cenário? 

Se a resposta for “não”, então o problema não é político — é de diversificação e controle de risco. 

3) Tecnologia e produtividade: o ciclo tende a ficar mais seletivo 

A tecnologia, especialmente a IA, continua sendo um tema estrutural, mas o mercado tende a separar mais claramente promessa de entrega. Em algum momento, a discussão migra de “o que é possível” para “o que é monetizável” e “em que prazo”. 

Isso costuma aumentar a dispersão de performance: empresas com execução consistente se destacam; narrativas sem base perdem tração. Para a carteira, isso pede exposição, mas com método, sem transformar tese em fé. 

O que fazer com isso: um guia objetivo para investir em 2026 

Não acredite no “ativo do ano”. Acredite em combinação de ativos que faça sentido com risco, horizonte e objetivo. Se tivesse que desenhar um norte para 2026, seria algo assim: 

  1. Aceitar o carrego do prazo médio, mas preparar a carteira para a marcação a mercado.
    O pós-fixado é eficiente quando os juros estão altos e pode continuar sendo uma âncora. Mas é saudável construir, aos poucos, uma parcela com duration intermediária para o caso de o mercado começar a enxergar queda de juros de forma mais consistente. 
  1. Ser seletivo em crédito privado, especialmente quando tudo parece “tranquilo demais”.
    Quando os spreads comprimem, o risco-retorno piora para quem compra sem filtro. Em 2026, priorize qualidade, liquidez e estrutura; evite transformar a busca por taxa em substituto de estratégia. 
  1. Usar fundos listados e Bolsa como diversificação estrutural, não como aposta de curto prazo.
    Em ciclos de juros em queda, ativos de risco podem reagir bem, mas com oscilações relevantes, ainda mais em ano eleitoral. O ponto não é prever o mês certo; é dimensionar o tamanho da posição. 
  1. Limites de concentração são regra de sobrevivência.
    Limite por emissor, por classe, por duration e por liquidez não é conservadorismo: é engenharia. Em um ano de ruído alto, são esses limites que impedem o erro grande. 

Olhe para a frente 

2025 foi um laboratório; 2026 tende a ser um teste de estresse: juros, política, tecnologia e geopolítica convivendo em um ambiente em que a confiança muda rápido. 

Em 2026, não tente “acertar o cenário”. Tenha: 

  • uma carteira que você consegue sustentar quando ela oscila; 
  • um processo que impede decisões impulsivas; 
  • coerência entre objetivo, risco e horizonte. 

No fim, retorno é consequência do processo. Em um ano com ruído alto, essa estrutura costuma definir o resultado. 

Igor Vendramini de Souza, sócio da Ticker Wealth, 8 anos no mercado financeiro, economista e consultor de investimentos.