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2026: Desafios e Oportunidades

Mais do que fazer previsões, vale olhar para o que cada classe de ativo entrega hoje e o que, realisticamente, pode entregar nos próximos 12 meses

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Panorama Econômico

Panorama Econômico

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 15h38.

Estratégia, disciplina e adaptação ao novo ciclo

Toda virada de ano traz a mesma tentação: tentar adivinhar os ativos ganhadores, os ativos que irão sofrer e qual deverá ser a grande posição da carteira para o ano. Porém, em meio a essa tentação de acertar o centro do alvo, vale ressaltar que prever o futuro e os movimentos do mercado é estatisticamente ineficiente para a grande maioria dos investidores — e talvez, em 2026, esse caminho seja ainda mais desafiador!

Depois de um 2025 duro, com taxas de juros elevadas em nível global, muitos ativos foram “reprecificados”. Somado a isso, uma sequência quase ininterrupta de ruídos políticos e geopolíticos fez com que o investidor chegasse a este novo período um pouco mais calejado.

A pergunta deixa de ser “qual é o melhor investimento” e passa a ser algo mais simples e difícil ao mesmo tempo: em qual ativo o potencial de retorno faz valer o risco?

Mais do que fazer previsões, vale olhar para o que cada classe de ativo entrega hoje e o que, realisticamente, pode entregar nos próximos 12 meses, além dos devidos riscos envolvidos.

Vamos fazer esse exercício para cada uma das classes?

Renda fixa: sempre bom ter, mas como alocar?

A renda fixa segue sendo o pilar central de muitas carteiras, mas quem acredita que 2026 será apenas escolher as melhores taxas garantidas pelo FGC e esperar provavelmente irá se frustrar.

Títulos pós-fixados ainda fazem sentido, especialmente como instrumento de liquidez e proteção. Eles cumprem muito bem esse papel, mas é preciso sempre lembrar que a taxa Selic pode cair para 2% (como em 2020, durante a Covid), em uma única movimentação, caso o Banco Central precise oferecer liquidez ao sistema econômico brasileiro como resposta a uma crise, por exemplo. Além disso, à medida que, globalmente, o mercado passa a discutir cortes de juros com mais seriedade, esses ativos tendem a perder atratividade, com um retorno mais “aguado”.

Os prefixados voltam a entrar em cena, porém, com essa “modalidade” de renda fixa, é fundamental cautela e controle da exposição ao risco que esses ativos carregam. Existem oportunidades, especialmente em prazos intermediários e longos. No entanto, o investidor brasileiro já aprendeu que o

risco político e fiscal não desaparece nunca em nosso país e que, em um piscar de olhos, os juros podem explodir, deixando-o exposto a um prefixado que perderá para o DI por muito tempo.

Já os títulos indexados à inflação — os famosos IPCA+ — são o grande “coringa” da renda fixa (nem prefixados, nem pós-fixados) e continuam a fazer parte de uma carteira estruturalmente diversificada. A inflação no Brasil raramente é um problema pontual; ela faz parte da nossa história e, provavelmente, do nosso futuro. Enquanto essa característica não mudar, os juros reais continuarão tendo espaço dentro de uma carteira pensada para o longo prazo.

Nesses títulos, busque investimentos isentos, pois, caso você opte por investimentos IPCA+ tributados, quanto maior a inflação, menor será o retorno real capturado, devido à incidência do imposto.

E lembre-se: esses títulos apresentam alta volatilidade. Em algum momento da história da Argentina e da Venezuela, comprar renda fixa longa rendendo inflação + 8% ou 15% ao ano parecia uma jogada de gênio — e o resultado todos já conhecem.

Bolsa brasileira: Já chegamos ao topo?

Após a conhecida pernada dos últimos meses, o investidor inteligente olha para a Bolsa hoje com um filtro rigoroso. É óbvio que vale a pena garimpar as empresas mais baratas, porém companhias de hard assets, com boa governança, negócios financeiramente sustentáveis, grande capacidade de geração de caixa e endividamento controlado são as mais seguras do momento. Empresas com essas características conseguem navegar por diversos momentos dos ciclos macroeconômicos. Já empresas alavancadas ou dependentes de crescimento acelerado tendem a sofrer mais com qualquer mudança de humor do mercado.

Não é um ano de euforia, mas sim um ano de escolhas mais criteriosas, em que errar o ativo pode pesar mais do que ficar de fora de mais uma pernada.

Bolsa dos Estados Unidos: TINA (There is no Alternative)

O mercado americano “parece” caro em alguns setores e segmentos, e isso não é segredo para ninguém. As empresas de tecnologia explodiram; a Nvidia

hoje vale incríveis 4,6 trilhões de dólares e, ainda assim, apresenta capacidade de surpreender novamente.

Em todo caso, mesmo que tudo pareça caro por lá, não há alternativa a não ser estar posicionado no maior mercado de ações do mundo, participando de empresas como a já citada Nvidia e outras companhias incríveis que podem ser as grandes ganhadoras na era da tecnologia e da inteligência artificial. Simplesmente, There Is No Alternative.

Recado para quem toma risco: não possuir outra alternativa além de estar posicionado não significa ausência dos riscos já mencionados. A tecnologia segue relevante, mas o mercado está menos tolerante com promessas vazias. Crescer é importante; entregar resultado (lucro) é ainda mais.

Dólar vs. Real: quem ganha o braço de ferro em 2026?

Disputas comerciais, tensões regionais e rearranjos produtivos continuam influenciando preços, inflação e decisões de política econômica.

O investidor que espera um mundo “mais calmo” talvez esteja esperando demais. O mais prudente é aceitar que o ruído veio para ficar e montar carteiras que naveguem bem em todos os cenários. Possuir posições dolarizadas é prudente e comprovadamente necessário.

Em resumo e concluindo...

2026 não parece ser um ano de apostas óbvias. É um ano que exige mais leitura de cenário, mais disciplina e menos impulso. No final das contas, montar uma carteira de investimentos coerente com seu perfil e com o momento do mundo em que vivemos é o caminho mais adequado para quem busca proteção aliada à rentabilidade.

Em cenários complexos, investir bem passa menos por prever o futuro e mais por estar preparado para ele. Para garantir uma carteira adequada ao cenário atual e ao seu perfil como investidor, é essencial contar com um bom profissional de investimentos.

Um ótimo ano, cheio de ótimos investimentos!

Sobre o autor:

Marcelo Abud, CGA, CGE, é engenheiro de Produção formado pela FEI, com mais de dez anos de experiência no mercado de capitais. É gestor profissional de recursos, habilitado pela CVM. Atualmente, é sócio-diretor e consultor de investimentos na Traxin Investimentos, auxiliando pessoas a investir de maneira inteligente, profissional e personalizada. Possui sólida experiência na gestão de carteiras de investimentos e também acumula expertise em valuation, fusões e aquisições, entre outros temas de finanças corporativas..