(Magnific/Reprodução)
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 07h49.
Marcelo Montenegro - Sócio-diretor de Relações Estratégicas e Negócios da FSB Holding
As decisões tomadas nos conselhos de administração e nas salas da diretoria executiva não ficam mais restritas aos relatórios anuais ou às reuniões fechadas com investidores.
Em um mundo onde o debate público é travado em tempo real nas redes sociais, tópicos como governança corporativa, disputas de mercado, transição energética e políticas trabalhistas ganharam contornos públicos imediatos. Ignorar o ecossistema digital não isola
a empresa do debate, apenas retira a liderança da mesa onde as narrativas fundamentais do mercado são ativamente construídas por diversos agentes sociais.
Atualmente, a reputação deixou de ser uma preocupação exclusiva do departamento de comunicação para se consolidar como um dos ativos intangíveis mais determinantes para o
valor de mercado e a sustentabilidade do negócio no longo prazo. Uma crise reputacional não afeta apenas a percepção do consumidor final. Ela compromete a capacidade de
atração de capital, encarece a captação de recursos e afasta os melhores talentos da organização. Nesse cenário altamente complexo, a influência digital emergiu não apenas como um canal complementar de mídia, mas como uma engrenagem central da própria
estratégia corporativa e comercial.
A relevância financeira dessa dinâmica é visível nos números do próprio mercado. Segundo a pesquisa Digital Adspend da IAB Brasil, o investimento em publicidade digital no país ultrapassou a casa dos R$ 35 bilhões anuais, com as redes sociais absorvendo a maior fatia desse ecossistema. Além disso, estudos da entidade mostram que mais de 90% dos internautas brasileiros tomam decisões ou seguem recomendações de criadores de conteúdo. No entanto, o erro de muitas organizações ainda é tratar esse montante expressivo apenas como alavanca de vendas no varejo, negligenciando o imenso potencial,
e o risco proporcional, que a influência digital exerce sobre a construção da marca institucional e o valuation no longo prazo.
Lideranças empresariais modernas já compreenderam que o modelo tradicional de comunicação reativa, baseado em respostas formais após o agravamento de um problema,
está completamente ultrapassado. O mercado exige uma postura ativa de inteligência, escuta contínua e presença consistente no ambiente onde as opiniões e juízos de valor são
formados. A integração desse ativo exige uma mudança profunda de mentalidade na alta gestão. Decisões estratégicas de comunicação precisam ser fundamentadas em inteligência
de dados, mapeamento de tendências e análise de cenários em tempo real, prevendo riscos e identificando oportunidades antes que se tornem crises institucionais graves.
Somado a isso, o avanço veloz da inteligência artificial e a proliferação de conteúdos manipulados ou desinformação colocam a gestão de reputação em um novo nível de alerta.
Em um ecossistema onde narrativas falsas ou distorcidas podem viralizar em minutos e afetar o valor das ações de uma companhia, a presença contínua de vozes de autoridade e
criadores de conteúdo alinhados aos valores da empresa atua como uma barreira de proteção. Construir essa rede de influência legítima previamente é a forma mais eficiente de
garantir que a verdade corporativa prevaleça diante de ruídos mal-intencionados. Esse cenário de alto complexidade será a temática central do RepCom Influência 2026, organizado pela FSB Holding.
Outro ponto crítico que ganha relevância nas agendas de governança é a necessidade de estabelecer diretrizes claras de compliance e conduta para a atuação no ecossistema
digital. A relação entre corporações e criadores não pode ser improvisada. Conselhos de administração precisam exigir políticas estruturadas de mitigação de riscos, garantindo que
parcerias institucionais passem por rigorosas checagens de integridade e histórico, evitando que a imagem da companhia seja associada a polêmicas de terceiros que contrariem seus
valores institucionais, princípios éticos e compromissos com uma atuação
responsável.
Além disso, a atuação de uma corporação na arena pública precisa refletir compromissos reais, práticos e verificáveis. O público e os criadores de conteúdo atuais são extremamente
analíticos. Discursos descolados da prática corporativa geram ruídos imediatos e danos duradouros à imagem da organização. A convergência entre relações públicas, inteligência de pesquisa, gestão de crise e influência institucional cria uma blindagem reputacional robusta que protege o valor da marca perante todos os atores da sociedade civil e do
mercado financeiro.
Conectar a influência digital aos objetivos estratégicos do negócio é o único caminho viável para transformar o diálogo público em vantagem competitiva sustentável. As empresas que aprenderem a habitar esse ambiente com transparência, maturidade e rigor estratégico não
apenas protegerão seus ativos intangíveis contra volatilidades do ecossistema, mas liderarão a transformação, a reputação e o crescimento de seus mercados nos próximos anos.