(AFP)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 6 de julho de 2026 às 08h00.
Os países não vivem apenas das instituições que constroem, das empresas que criam ou das riquezas que produzem. Vivem também do vocabulário com que descrevem a si mesmos. A linguagem não é apenas um instrumento de comunicação; é uma forma de organizar a inteligência coletiva. Quando ela perde precisão, o pensamento perde profundidade; quando o pensamento perde profundidade, a política passa a administrar sintomas em vez de enfrentar causas. Ludwig Wittgenstein observava que os limites da linguagem são também os limites do mundo que conseguimos compreender. George Orwell advertia que a corrupção das palavras acaba por corromper a própria capacidade de pensar.
Talvez poucas advertências sejam, hoje, tão atuais para o Brasil. Chamo de vocabulário de sombras o conjunto de palavras que, em vez de revelar a realidade, a suavizam, a vulgarizam, a deslocam ou a naturalizam. São palavras que escondem o Brasil dos próprios brasileiros. "Penduricalhos" talvez seja o exemplo mais eloquente. Pela própria definição, penduricalho é um detalhe, um acessório, algo pequeno preso a uma estrutura maior. A palavra não pode designar benefícios que, em determinados casos, representam parcela equivalente ou superior à remuneração principal.
O vocábulo produz um efeito psicológico antes mesmo do debate: diminui aquilo que permanece grande. O mesmo mecanismo aparece na chamada "taxa das blusinhas". Nunca esteve em discussão apenas uma peça de roupa. Discutiam-se a tributação, a competitividade da indústria nacional, o comércio eletrônico, os juros, o custo Brasil, o déficit público e o poder de compra das famílias. Um dos debates econômicos mais complexos do país foi comprimido em um apelido bem-humorado, como se mudar o nome diminuísse a dimensão do problema. Também ocorre quando um amplo debate sobre produtividade, organização do trabalho, competitividade, renda e crescimento econômico passa a ser resumido ao "fim da escala 6x1". Dois números passam a representar uma discussão que exige economia, direito, tecnologia, relações de trabalho e visão de futuro. Há ainda a palavra "comunidade".
Em qualquer democracia madura, comunidade é um dos conceitos mais nobres da vida social: comunidade científica, médica, empresarial, acadêmica, religiosa, cultural, jornalística ou de bairro. Santa Catarina construiu parte importante de sua história justamente sobre comunidades organizadas, cooperativas, associações e instituições civis geradoras de confiança e capital social. Entre nós, porém, o termo passou a ser utilizado quase exclusivamente para designar as favelas, restringindo um conceito universal a um único contexto e empobrecendo seu significado original. Também banalizamos conceitos históricos. "Comunista", "fascista" e "racista" deixaram, muitas vezes, de designar fenômenos específicos para se tornarem rótulos destinados a encerrar conversas.
Quando tudo recebe o mesmo nome, os próprios conceitos perdem força. A linguagem deixa de esclarecer para apenas dividir. Existe, porém, uma consequência ainda mais profunda: a naturalização dos absurdos. Um país que convive com juros extraordinariamente elevados no crédito ao consumidor, baixa produtividade, burocracia excessiva, insegurança jurídica, déficit fiscal persistente e um Estado de alto custo deveria viver em permanente estado de inconformismo. Em vez disso, aprendemos a tratar a exceção como rotina. O espanto desaparece antes da solução.
A naturalização alcança também a violência. Crimes hediondos, assassinatos por motivos banais, latrocínios e atos de extrema crueldade sucedem-se com tal frequência que passam a integrar a paisagem cotidiana. Um país em que um criminoso pode decidir, por causa de um telefone celular, se uma pessoa viverá ou morrerá jamais poderia considerar isso normal. No entanto, a repetição desses fatos e a velocidade com que desaparecem do debate público produzem um efeito perigoso: a anestesia moral. O extraordinário torna-se ordinário. O grotesco transforma-se em rotina. Talvez esse seja um traço persistente da cultura pública brasileira. Nossa tradição de humor, bordões, caricaturas e charges produziu momentos brilhantes de crítica social.
O problema começa quando o chiste deixa de revelar o absurdo e passa a administrá-lo. O slogan substitui o conceito. O apelido ocupa o lugar do diagnóstico. A caricatura torna-se mais conhecida do que a realidade. Esse processo empobrece a democracia. Democracias dependem de eleições livres e de instituições sólidas, mas dependem igualmente de um vocabulário comum, capaz de distinguir diagnóstico de propaganda, causa de consequência, realidade de narrativa. Se deixamos de compreender o significado das palavras, deixamos também de compreender uns aos outros.
Sem linguagem comum, desaparece a possibilidade do diálogo, da construção de consensos e da busca compartilhada por soluções. Talvez exista, por trás desse vocabulário de sombras, algo mais preocupante do que a simples imprecisão semântica: uma perda gradual do sentimento pelo próprio país. Quem ama uma nação não lhe oferece eufemismos. Não transforma feridas em apelidos nem problemas estruturais em slogans. Dá nome às dificuldades porque deseja superá-las. O afeto começa pela honestidade intelectual. Recuperar o significado das palavras é um ato de patriotismo. Não por rigor acadêmico, mas por respeito ao Brasil. Porque nenhuma sociedade consegue transformar aquilo que já não consegue nomear com clareza.
Na alegoria da caverna, as sombras eram confundidas com a realidade. O Brasil parece correr um risco ainda maior: produzir um vocabulário que transforme a própria realidade em sombra. Talvez o primeiro dever de uma geração que pretenda reconstruir o país não seja encontrar novas respostas, mas recuperar o significado das palavras. Porque nenhum povo reconstrói o país que ama enquanto continuar chamando suas sombras de realidade.