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O verdadeiro custo da desintermediação

Cada vaga de estágio aberta não é apenas uma posição preenchida no organograma; é uma ferramenta poderosa de mobilidade social

 (We Are/Getty Images)

(We Are/Getty Images)

Publicado em 1 de agosto de 2026 às 10h43.

*Humberto Casagrande

 

Nos últimos anos, a desintermediação digital tornou-se a grande tese de eficiência do mercado global. Plataformas tecnológicas aproximaram produtores de consumidores, encurtaram cadeias de suprimentos e reduziram custos transacionais em diversos setores. Essa lógica de simplificação é legítima e bem-vinda em inúmeras atividades econômicas. Contudo, um equívoco perigoso tem se desenhado quando tentam transpor esse modelo mecânico para o ecossistema do estágio. Afinal, desintermediar o desenvolvimento humano tem o mesmo efeito que automatizar uma relação de mentoria: esvazia-se a essência.

Diferentemente de uma contratação convencional regida pela CLT, o estágio não nasceu para ser apenas uma engrenagem de suprimento de mão de obra. Ele é, por definição e força de lei, um ato educativo escolar supervisionado. Seu propósito fundamental é fundir a teoria acadêmica à prática profissional, moldando competências humanas e técnicas. Quando essa essência é negligenciada, o estágio perde seu valor pedagógico e se degrada. Quando é preservada, cria-se um ciclo virtuoso que eleva o jovem, fortalece a empresa e oxigena a sociedade.

O desafio de conectar educação e mercado no Brasil é dimensionado por uma assimetria gritante: o país conta hoje com cerca de 10 milhões de estudantes matriculados no ensino superior, mas o mercado oferece pouco mais de 830 mil vagas de estágio. Diante desse gargalo, o acesso à experiência prática ainda é um privilégio restrito.

Cada vaga de estágio aberta não é apenas uma posição preenchida no organograma; é uma ferramenta poderosa de mobilidade social e de redução de desigualdades. Por isso, as empresas que investem em programas estruturados não estão apenas contratando; estão exercendo um papel social de relevância estratégica, assumindo a corresponsabilidade de formar a próxima geração de líderes do país.

A simplificação, porém, é uma ilusão quando aplicada a uma atividade pedagógica: o estágio exige um tripé de sustentação indissociável entre a empresa, o estudante e a instituição de ensino. Manter esse ecossistema em equilíbrio exige um acompanhamento permanente. Não basta emitir um contrato digital e abrir as portas da empresa. É preciso garantir que o plano de atividades dialogue com a grade curricular e que haja supervisão qualificada no ambiente de trabalho.

É exatamente nessa intersecção que a figura do agente de integração se faz indispensável. Embora a legislação não imponha a sua obrigatoriedade, a prática de mercado consolidou o agente como um garantidor desse equilíbrio. Ele não atua como um mero emissor de documentos, mas como um parceiro de governança e compliance. É quem apoia a empresa no monitoramento pedagógico e na orientação contínua, garantindo que o estágio mantenha sua essência de aprendizado e evite distorções operacionais na rotina do estudante.

Há outro custo invisível na desintermediação que muitas organizações só percebem tardiamente: a vulnerabilidade gerada pelo desajuste normativo. Quando um programa de estágio carece de acompanhamento técnico, resultando em desvio de finalidade, ausência de relatórios semestrais ou falta de seguro, a natureza educacional do vínculo é comprometida. No ambiente corporativo, a descaracterização desse modelo gera impactos significativos na segurança jurídica e na reputação da marca.

A verdadeira proteção, no entanto, nasce da gestão estruturada. O agente de integração atua como um suporte preventivo tanto para a empresa quanto para o jovem. Ele assegura que a conformidade com a Lei nº 11.788/2008 seja uma consequência natural de um processo bem gerido. Ao mitigar riscos de forma sutil e constante, preservamos o que realmente importa: a integridade do programa e o desenvolvimento do estudante.

Em um mundo obcecado por cortar etapas, precisamos lembrar que certos processos existem para proteger, não para obstruir. A intermediação qualificada no estágio é o que separa o verdadeiro investimento em talentos da mera precarização do trabalho juvenil.

A discussão sobre desintermediação, portanto, não deve orbitar a redução de cliques em uma tela, mas sim a salvaguarda do propósito do estágio. Quando blindamos o caráter educativo dessa jornada, todos saem fortalecidos: o estudante ganha uma carreira promissora, a empresa ganha segurança e inovação, e o Brasil ganha um capital humano altamente qualificado para os desafios complexos do futuro.

*Humberto Casagrande é CEO do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE).