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O Setor Privado se Apresenta

O mundo exige urgentemente uma hercúlea resposta dos governos e do setor privado para evitar uma devastadora recessão

ROCHE: a farmacêutica criou o primeiro teste de COVID-19 aprovado comercialmente. / REUTERS/Arnd Wiegmann (Roche/Getty Images)
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Da Redação

Publicado em 8 de abril de 2020 às 12h20.

NOVA YORK – Se a crise financeira mundial de 2008 expôs o pior do capitalismo, a resposta do setor privado à pandemia do COVID-19 já está mostrando o seu melhor.

Os casos do COVID-19 já ultrapassaram um milhão em todo o mundo, e o número de mais de 70.000 mortos vem aumentando. A extensão total do impacto econômico global ainda é desconhecida. O que sabemos é que o mundo exige urgentemente uma hercúlea resposta dos governos e do setor privado para evitar uma devastadora recessão.

Desde a crise de 2008, empresas têm enfrentado duras críticas e até acusações de maximizar lucros sem a devida consideração às necessidades mais amplas da sociedade. Hoje, no entanto, vemos empresas se adiantando para responder à crise global da saúde. Embora algumas empresas precisem de assistência do governo para sobreviver, dada a gravidade da crise, outras podem aliviar o ônus geral do governo ao se tornar importante parte da solução.

Inicialmente, as principais empresas farmacêuticas redirecionaram recursos para o desenvolvimento de diagnósticos, tratamentos e, espera-se uma vacina para o COVID 19. A gigante farmacêutica suíça Roche, por exemplo, criou o primeiro teste COVID-19 aprovado comercialmente. A decisão do FDA, agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA, de conceder permissão de emergência à empresa para vender seu teste para laboratórios nos Estados Unidos permitirá uma significativa melhora na capacidade de testes do país. A subsidiária do Google na área de saúde, a Verily, por sua vez, remanejou 1.700 engenheiros para desenvolver um aplicativo para teste de rastreamento do COVID-19.

Enquanto isso, algumas seguradoras de saúde – principalmente nos EUA, onde empresas privadas representam a maior parte da cobertura de saúde – ajustaram seus termos para permitir que as pessoas recebam os cuidados médicos de que necessitam. O Programa de Saúde dos Funcionários do Governo Federal dos EUA, Blue Cross e Blue Shield, que cobre milhões de funcionários do governo e suas famílias, está abrindo mão de coparticipação para testes e tratamentos, o que pode chegar a milhões de dólares.

Muitas outras indústrias, como fabricantes de automóveis, também estão contribuindo. Essas empresas redirecionaram seus recursos de atividades geradoras de receita para a produção de equipamentos vitais, como trajes de proteção para profissionais de saúde da linha de frente (incluindo máscaras cirúrgicas, protetores faciais e aventais) e ventiladores.

Da mesma forma, a grande rede de varejo americana, Walmart, concordou em converter alguns dos estacionamentos de suas lojas em locais para teste do COVID-19. E hotéis na Alemanha, Reino Unido e EUA se uniram e se transformaram em hospitais improvisados ​​para auxiliar no enfrentamento da necessidade de internação de pacientes.

Empresas privadas também facilitaram a adesão às regras de distanciamento social e quarentena, expandindo as entregas de alimentos, utensílios domésticos e outros produtos. Graças à rápida tomada de decisões e à flexibilidade operacional por fornecedores e produtores, o fluxo de bens de primeira necessidade continuou majoritariamente ininterrupto em muitos lugares.

Para acompanhar a crescente demanda, muitas dessas empresas começaram a contratar. A Amazon, por exemplo, prometeu criar 100.000 novos empregos pagando acima do salário mínimo. Tais esforços são particularmente valiosos no momento em que paradas forçadas de atividades contribuem para aumentar o desemprego. Nos EUA, um recorde de 6.6 milhões de trabalhadores pediram auxílio desemprego em uma semana de março. Na semana anterior, 3.3 milhões entraram com pedidos do benefício – quase dez vezes o recorde anterior de 695.000, estabelecido em 1982.

As intervenções do setor privado liberam recursos públicos para atividades que estão estritamente dentro do âmbito do estado, como garantir a provisão contínua de educação, assistência médica, infraestrutura e outros bens públicos básicos. Além disso, os governos devem adotar medidas fiscais agressivas, incluindo resgates para os setores mais afetados (como companhias aéreas e segmento de turismo com navios de cruzeiro) e apoio direto a trabalhadores e pequenas empresas. Nos EUA, US$ 2 trilhões serão canalizados para essas medidas – o maior pacote fiscal da história do país.

O governo também será fundamental para injetar liquidez na economia, a fim de evitar uma crise de crédito. Alguns bancos centrais – incluindo o Federal Reserve dos EUA, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra – já implementaram agressivos cortes nas taxas de juros e prometeram apoio financeiro para permitir que os bancos ofereçam empréstimos de baixo custo e férias remuneradas para empresas e indivíduos afetados pelo COVID-19.

Tudo isso é essencial para sustentar a economia, e seria muito mais difícil de ser obtido se o setor privado não estivesse contribuindo para a luta contra a pandemia. Da mesma forma, recuperar-se do que é quase certo ser uma profunda recessão e reconstruir a economia global também exigirá compromisso do setor privado, assim como abordará outros imperativos globais, incluindo redução da pobreza, ampliação do acesso à educação de qualidade e combate às mudanças climáticas.

Atender a todos esses desafios exige o tipo de inovação em que o setor privado se destaca. Se as empresas privadas mantiverem a presciência, a adaptabilidade e a compaixão que muitas vêm demonstrando nas últimas semanas, elas emergirão dessa crise, tendo comprovado seu verdadeiro valor para as economias e comunidades que atendem.

Dambisa Moyo, economista e autora, ocupa o conselho de administração de várias empresas globais. Ela é a autora de Dead Aid, Winner Takes All e How the West Was Lost.

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NOVA YORK – Se a crise financeira mundial de 2008 expôs o pior do capitalismo, a resposta do setor privado à pandemia do COVID-19 já está mostrando o seu melhor.

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Desde a crise de 2008, empresas têm enfrentado duras críticas e até acusações de maximizar lucros sem a devida consideração às necessidades mais amplas da sociedade. Hoje, no entanto, vemos empresas se adiantando para responder à crise global da saúde. Embora algumas empresas precisem de assistência do governo para sobreviver, dada a gravidade da crise, outras podem aliviar o ônus geral do governo ao se tornar importante parte da solução.

Inicialmente, as principais empresas farmacêuticas redirecionaram recursos para o desenvolvimento de diagnósticos, tratamentos e, espera-se uma vacina para o COVID 19. A gigante farmacêutica suíça Roche, por exemplo, criou o primeiro teste COVID-19 aprovado comercialmente. A decisão do FDA, agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA, de conceder permissão de emergência à empresa para vender seu teste para laboratórios nos Estados Unidos permitirá uma significativa melhora na capacidade de testes do país. A subsidiária do Google na área de saúde, a Verily, por sua vez, remanejou 1.700 engenheiros para desenvolver um aplicativo para teste de rastreamento do COVID-19.

Enquanto isso, algumas seguradoras de saúde – principalmente nos EUA, onde empresas privadas representam a maior parte da cobertura de saúde – ajustaram seus termos para permitir que as pessoas recebam os cuidados médicos de que necessitam. O Programa de Saúde dos Funcionários do Governo Federal dos EUA, Blue Cross e Blue Shield, que cobre milhões de funcionários do governo e suas famílias, está abrindo mão de coparticipação para testes e tratamentos, o que pode chegar a milhões de dólares.

Muitas outras indústrias, como fabricantes de automóveis, também estão contribuindo. Essas empresas redirecionaram seus recursos de atividades geradoras de receita para a produção de equipamentos vitais, como trajes de proteção para profissionais de saúde da linha de frente (incluindo máscaras cirúrgicas, protetores faciais e aventais) e ventiladores.

Da mesma forma, a grande rede de varejo americana, Walmart, concordou em converter alguns dos estacionamentos de suas lojas em locais para teste do COVID-19. E hotéis na Alemanha, Reino Unido e EUA se uniram e se transformaram em hospitais improvisados ​​para auxiliar no enfrentamento da necessidade de internação de pacientes.

Empresas privadas também facilitaram a adesão às regras de distanciamento social e quarentena, expandindo as entregas de alimentos, utensílios domésticos e outros produtos. Graças à rápida tomada de decisões e à flexibilidade operacional por fornecedores e produtores, o fluxo de bens de primeira necessidade continuou majoritariamente ininterrupto em muitos lugares.

Para acompanhar a crescente demanda, muitas dessas empresas começaram a contratar. A Amazon, por exemplo, prometeu criar 100.000 novos empregos pagando acima do salário mínimo. Tais esforços são particularmente valiosos no momento em que paradas forçadas de atividades contribuem para aumentar o desemprego. Nos EUA, um recorde de 6.6 milhões de trabalhadores pediram auxílio desemprego em uma semana de março. Na semana anterior, 3.3 milhões entraram com pedidos do benefício – quase dez vezes o recorde anterior de 695.000, estabelecido em 1982.

As intervenções do setor privado liberam recursos públicos para atividades que estão estritamente dentro do âmbito do estado, como garantir a provisão contínua de educação, assistência médica, infraestrutura e outros bens públicos básicos. Além disso, os governos devem adotar medidas fiscais agressivas, incluindo resgates para os setores mais afetados (como companhias aéreas e segmento de turismo com navios de cruzeiro) e apoio direto a trabalhadores e pequenas empresas. Nos EUA, US$ 2 trilhões serão canalizados para essas medidas – o maior pacote fiscal da história do país.

O governo também será fundamental para injetar liquidez na economia, a fim de evitar uma crise de crédito. Alguns bancos centrais – incluindo o Federal Reserve dos EUA, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra – já implementaram agressivos cortes nas taxas de juros e prometeram apoio financeiro para permitir que os bancos ofereçam empréstimos de baixo custo e férias remuneradas para empresas e indivíduos afetados pelo COVID-19.

Tudo isso é essencial para sustentar a economia, e seria muito mais difícil de ser obtido se o setor privado não estivesse contribuindo para a luta contra a pandemia. Da mesma forma, recuperar-se do que é quase certo ser uma profunda recessão e reconstruir a economia global também exigirá compromisso do setor privado, assim como abordará outros imperativos globais, incluindo redução da pobreza, ampliação do acesso à educação de qualidade e combate às mudanças climáticas.

Atender a todos esses desafios exige o tipo de inovação em que o setor privado se destaca. Se as empresas privadas mantiverem a presciência, a adaptabilidade e a compaixão que muitas vêm demonstrando nas últimas semanas, elas emergirão dessa crise, tendo comprovado seu verdadeiro valor para as economias e comunidades que atendem.

Dambisa Moyo, economista e autora, ocupa o conselho de administração de várias empresas globais. Ela é a autora de Dead Aid, Winner Takes All e How the West Was Lost.

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