Brasília (DF) 07/10/2025 O ministro da Fazenda, Fernado Haddad, participa do programa Bom Dia, Ministro Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil (Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Colunista
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 09h27.
Última atualização em 30 de janeiro de 2026 às 11h22.
Há duas certezas recorrentes na esquerda: uma é a de que Lula disputará a reeleição; outra é que não há um nome definido para quando chegar o momento pós-Lula. Na ausência de lideranças óbvias no PT com potencial para esta sucessão, e diante da melhora em sua avaliação dentro e fora do governo, Fernando Haddad volta a ser cogitado para o posto. Ainda distante de um protagonismo consensual no partido, o ministro deve deixar o cargo na Fazenda em breve — que será herdado por seu secretário-executivo, Dario Durigan. Haddad deverá exercer um papel eleitoral que, assim como o próprio destino do partido a partir de 2030, ainda não está bem delineado.
Contra sua vontade, figuras relevantes do PT, a pedido de Lula, têm insistido para que ele dispute o governo de São Paulo. A estratégia vem se consolidando após a escolha de Jair Bolsonaro por seu filho Flavio para disputar a presidência, restando a Tarcisio de Freitas buscar a reeleição no estado. Para repetir o patamar de votos de 2022, o presidente conta com o engajamento de Haddad na campanha no maior domicílio eleitoral do país.
O ministro tem negado taxativamente ter qualquer disposição para esta missão. Aliados de Haddad apontam que, para ele, o melhor seria se tornar candidato a vice-presidente na chapa com Lula, o que já sinalizaria seu futuro como sucessor em 2030. No entanto, esta possibilidade é vista como remota no Planalto, já que não cumpriria o objetivo de reforçar a votação em São Paulo. A aposta, no entorno do presidente, é que Haddad acabará sucumbindo aos apelos de seu chefe.
O enredo para Haddad chegar forte politicamente no ano das eleições teve contornos novelescos. Ao final de 2024, após ter sido colocado em banho-maria por meses durante a discussão do pacote fiscal — desidratado em forma e conteúdo —, o clima de derrota na equipe econômica era perceptível. O episódio envolvendo o pix, no início do ano passado, pareceu ser a pá de cal para enterrar a liderança de Haddad.
No entanto, o ministro conseguiu recuperar espaço após a virada com a narrativa da “justiça tributária” em meio às discussões sobre o IOF — das quais saiu vencedor. De lá para cá, ativou o modo campanha e entregou as demandas eleitorais de Lula, como a isenção do IR até R$ 5 mil, ao mesmo tempo em que garante o cumprimento das metas fiscais, ainda que com exceções.
Ao apoiar uma agenda palatável para o PT, Haddad recuperou o capital político desgastado pelas batalhas que travou para aprovar pautas de aumento da arrecadação. Com um discurso contra a manutenção da Selic em patamar elevado — considerado “excessivamente” restritivo pelo ministro —, fez mais acenos à base petista, que chegou a vê-lo com desconfiança quando foi carimbado como “Taxad” e defendeu revisões em benefícios sociais.
Caso Lula seja reeleito — apesar da rejeição inabalável, hoje o presidente aponta como favorito —, Haddad poderia ocupar um ministério com viés gerencial. A Casa Civil é vista por seu entorno como o lugar adequado para coordenar as ações de governo que defende e se firmar na corrida sucessória para as eleições seguintes. Sua preferência seria manter Dario Durigan na Fazenda após as eleições, mas esta será uma nova frente de disputa interna: há preferência de alguns setores no PT por Gabriel Galípolo e uma minoria que defende um nome de mercado, “à la Henrique Meirelles”, para ancorar expectativas. Ao final, a decisão será exclusivamente de Lula, que ainda não deu dicas do que pretende fazer.
Olhando o horizonte relevante da política, Haddad percebe a necessidade de dar sinais sobre o cenário fiscal caso Lula seja reeleito. Apesar da defesa enfática que tem feito dos resultados entregues pela atual gestão — destaca o crescimento com inflação controlada e o cumprimento de metas — sua equipe não ignora que será preciso reforçar a credibilidade da política econômica para que o próprio governo navegue em um cenário menos adverso.
Essas mensagens dificilmente serão dadas publicamente antes das eleições, mas alguns temas já começam a ser levantados internamente para que a discussão esteja amadurecida após o pleito. Fala-se, por exemplo, em tentar reavivar medidas que a Fazenda defendeu durante as discussões do pacote fiscal frustrado de 2024, como a redução do limite de crescimento das despesas no arcabouço — de 2,5% para 1,5% —, além de uma valorização mais contida do Salário Mínimo. Temas mais polêmicos para a base petista, como a desindexação da Previdência e outros benefícios, e a desvinculação dos pisos de Saúde e Educação também são colocados, mas mais timidamente. A unificação de programas sociais também está no radar do time, que ressalta a ação do próprio Lula, no passado, ao criar o Bolsa Família.
Ainda que o xadrez eleitoral esteja carente de algumas definições, observar o protagonismo que Haddad terá nas eleições será relevante para interpretar os caminhos que eventual quarto mandato de Lula seguirá. No caso de derrota do petista — tese hoje minoritária, dada a rejeição ao sobrenome Bolsonaro —, acompanhar os passos de Haddad em 2026 será importante para entender o que a esquerda pretende construir para o futuro. Neste cenário, a possível desorganização deste campo político num ambiente “pós-Lula” deve trazer mais dúvidas que certezas sobre o legado petista. Haddad, assim, se consolida menos como o nome certo da sucessão e mais como o termômetro da própria capacidade de renovação do lulismo.