Carney durante discurso no Fórum de Davos deste ano (Fabrice COFFRINI / AFP/Getty Images)
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 20h33.
Por Daniel Caldeira*
O discurso de Mark Carney em Davos é, sem dúvida, eloquente. Invoca Václav Havel, fala sobre a "tirania das mentiras" e convoca as potências médias a se unirem em um "realismo baseado em valores". É uma retórica desenhada para agradar aos ouvidos diplomáticos. No entanto, ao analisar friamente a geopolítica dos últimos 15 anos, percebe-se que essa visão ignora a lição mais dura da realidade: regras sem mecanismos de imposição são apenas sugestões.
Carney está certo ao apontar que valores importam: eles definem o que se pretende preservar. O erro é supor que valores, sozinhos, substituem capacidade — e capacidade exige enforcement.
Minha impressão é que passamos as últimas décadas construindo uma ordem onde as democracias liberais — as democracias ocidentais — se amarraram voluntariamente a normas rígidas, enquanto as autocracias revisionistas seguiram operando na realidade nua e crua. De um lado, infrações simbólicas elevadas a grandes transgressões, com custo reputacional desproporcional; e, de outro, regimes reprimindo dissenso — ainda que o dissenso seja não cobrir o cabelo — com violência e impunidade.
O resultado dessa assimetria está diante de nós. Vimos uma Europa que, em nome de uma tolerância irrestrita, perdeu o controle de sua segurança interna. Como nos alerta a própria psicologia social, uma tolerância que não impõe limites ao intolerante acaba por destruir a estrutura que permite a própria liberdade. Quando "respeitar a todos" significa permitir a entrada de quem deseja destruir o seu modo de vida, a virtude torna-se um risco civilizacional.
Carney sugere fortalecer as instituições multilaterais. Mas como funciona esse mundo na prática? É um mundo onde potências liberais são constrangidas por regras e por opinião pública, mas a Rússia invade a Ucrânia e a China militariza o Pacífico? Se a resposta para a agressão for apenas mais burocracia e notas de repúdio, criamos um incentivo perverso para os transgressores. Instituições só importam quando há capacidade de impor custo real.
É aqui que entra uma mudança de postura americana, mais transacional e coercitiva — personificada, hoje, em Donald Trump.
Critica-se muito a forma agressiva e as tarifas — a estética é, de fato, caótica. Mas, no fundo, será que não estamos assistindo a um retorno necessário ao bom senso e à responsabilidade? Não se trata de clamar por um tirano, mas de reconhecer a necessidade de um "xerife" que tenha credibilidade — alguém que mostre claramente que existem consequências reais para quem sai da linha.
Um mundo onde as sociedades abertas seguem as regras e ficam à mercê de fundamentalistas não é moralmente superior; é apenas ingênuo. A ordem precisa de um guardião disposto a usar a força para mantê-la.
Além disso, há a questão da sustentabilidade. A verdade desconfortável é que os Estados Unidos cansaram de ser o "caixa eletrônico" da ordem global. Durante décadas, Washington subsidiou a defesa de países ricos que negligenciaram seus próprios exércitos para financiar estados de bem-estar social, enquanto a classe média americana pagava a conta. A correção de curso pode ser brusca, mas é economicamente necessária para evitar que a própria América entre em colapso.
Estamos, possivelmente, entrando numa uma Pax Americana mais sóbria. Não mais a ordem idealista do pós-Guerra Fria, mas uma dinâmica mais sóbria, onde a dissuasão nuclear e a força militar voltam a ser os pilares da paz, e não apenas o consenso de comitês — muitos dos quais perderam qualquer credibilidade ao operar com dois pesos e duas medidas: basta observar as assimetrias de condenação e tolerância seletiva.
O mesmo vale para a tecnologia. É nobre dizer que devemos pausar a Inteligência Artificial por questões éticas. Mas não adianta o Ocidente concordar com isso enquanto rivais estratégicos correm para desenvolver uma IA militar sem restrições. Isso não é prudência; é auto-sabotagem. A verdadeira ética exige que as democracias mantenham a superioridade tecnológica para garantir que o futuro não seja ditado por autocracias.
Nos últimos 15 anos, o Ocidente pecou pelo excesso de respeito à forma, em detrimento do conteúdo e da segurança comum. O discurso de Carney propõe uma adaptação, mas ainda se apega a estruturas antigas. A realidade exige mais do que "coalizões de valores". Exige força, capacidade de defesa real e a compreensão de que a paz não é a ausência de conflito, mas a presença de uma justiça capaz de se defender e servir como instrumento de dissuasão.
*Daniel Caldeira é empresário do setor financeiro