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O crescimento dos FIDCs e a agenda que não pode esperar

À medida que chegam ao varejo, fundos de direitos creditórios pedem evolução proporcional em governança e transparência

Julya Wellisch
Julya Wellisch

Diretora da Anbima

Publicado em 23 de julho de 2026 às 05h00.

Poucos movimentos recentes traduzem tão bem a democratização do mercado de capitais brasileiro quanto o avanço dos FIDCs, os fundos de investimento em direitos creditórios. Desde que passaram a ser acessíveis também aos investidores de varejo, em outubro de 2023, esses fundos começaram a se aproximar da vida financeira de um público muito mais amplo, para além do espaço cativo que já ocupavam entre investidores profissionais e qualificados.

E o efeito aparece nos números. A presença de FIDCs nas carteiras dos investidores quadruplicou nos últimos dois anos. Em março, a alocação de pessoas físicas nesses fundos somava R$ 56,5 bilhões, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), sendo mais da metade desse valor (55%) detida pelo varejo tradicional, segmento no qual o salto foi mais expressivo. O restante está nas mãos do varejo de alta renda e do segmento private.

Esse crescimento não se deu por acaso. O contexto macroeconômico, com juros em patamares historicamente altos, mas spreads ainda comprimidos em outros produtos de crédito privado, favoreceu a demanda dos investidores.

Ao mesmo tempo, e dada a flexibilidade de estruturação, os FIDCs passaram a desempenhar papel cada vez mais relevante como fonte de financiamento para pequenas e médias empresas.

Em um país no qual o crédito se concentrou no sistema bancário por décadas, fortalecer instrumentos de financiamento via mercado de capitais é, sem dúvidas, uma agenda estratégica. Mas, a expansão de um produto financeiro, especialmente quando ele passa a alcançar investidores não profissionais, precisa, necessariamente, vir acompanhada de uma evolução proporcional em termos de governança, transparência e compreensão de riscos.

Assegurar que o avanço dos FIDCs seja sustentável é o ponto central de uma agenda de atuação específica voltada para esse produto e conduzida pela Anbima nos últimos dois anos.

Uma das frentes mais importantes dessa agenda é o aumento da transparência. Embora estejam sempre ligados ao crédito, esses fundos são muito diferentes da renda fixa tradicional e muito distintos entre si. Um FIDC de crédito consignado não se comporta como um FIDC de recebíveis de cartão de crédito. Recebíveis pulverizados têm dinâmica distinta de carteiras concentradas.

Quanto mais informação qualificada o mercado tiver, melhor será a capacidade de análise dos investidores, gestores e reguladores. Nessa linha, ampliar o conjunto de dados disponíveis sobre os FIDCs é uma das prioridades dessa agenda, conferindo maior visibilidade às carteiras: que tipo de crédito financiam, quais setores alcançam, quais lastros sustentam as operações. Em outras palavras, é dar clareza sobre os principais fatores que impactam o produto.

Esse é, aliás, o principal objetivo da modernização da classificação Anbima para os FIDCs. Precisamos assegurar que os agentes do mercado disponham de toda informação necessária para transmitir aos investidores, de forma clara e precisa, os tipos de estratégias que estão incluindo em suas carteiras ao adquirir um FIDC.

Além disso, há outros avanços importantes que, embora fiquem nos “bastidores” por serem menos visíveis ao público, são igualmente relevantes. Desde 2025, a Anbima mantém uma agenda contínua junto às registradoras de crédito, envolvendo o mapeamento de fluxos, a padronização de processos e a interoperabilidade do registro de ativos. Os ganhos são óbvios: ao evitar problemas como a dupla cessão de recebíveis, fortalecemos a segurança do mercado.

Da mesma forma, publicamos o Guia de PDDs (provisões para devedores duvidosos), que funciona como um norte para o mercado na forma de mensurar e reconhecer perdas em FIDCs, trazendo mais disciplina, comparabilidade e qualidade nas práticas adotadas pelos diferentes players.

Naturalmente, nada disso significa eliminar riscos, que são inerentes a qualquer produto de investimento. O que se pretende é que tais riscos sejam conhecidos, adequadamente dimensionados, precificados e comunicados de forma clara ao investidor. E é na atividade de distribuição que esse fluxo toma sua forma final e onde os desafios de entregar um produto sofisticado a um público em expansão ficam mais evidentes.

Os FIDCs têm potencial para ocupar espaço ainda mais relevante no financiamento da economia brasileira. Mas, esse potencial somente será plenamente realizado se crescimento e confiança caminharem juntos. Avançar com transparência, responsabilidade e visão de longo prazo é o que transformará esse produto em verdadeiro instrumento de desenvolvimento para o país e, em última análise, é essa a missão que nos cabe enquanto agentes do mercado de capitais.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da EXAME.