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IA e manufatura circular

Uma agenda estratégica para a competitividade industrial

EXAME Saint Paul
EXAME Saint Paul

EXAME Saint Paul

Publicado em 28 de abril de 2026 às 20h52.

Regina Magalhães e Christopher Franco Braga*

 

Indústrias intensivas em recursos enfrentam volatilidade de preços, incertezas no abastecimento e uma dependência crescente de materiais geograficamente concentrados. Cada oscilação nos mercados altera margens e cronogramas, e cada interrupção logística exige reorganização das operações. A vulnerabilidade intensifica-se quando cadeias dependem de insumos estratégicos como cobre, alumínio, terras raras e metais usados em tecnologias de alto desempenho, cuja produção é limitada ou sujeita a tensões geopolíticas. Nesse contexto, ampliar autonomia e reduzir exposição a choques externos deixa de ser vantagem e passa a ser um requisito competitivo.

Modelos circulares ganham relevância justamente por reorganizarem o uso dos materiais ao longo do ciclo produtivo. Eles recuperam valor antes desperdiçado, ampliam a vida útil dos insumos e criam rotas internas de reaproveitamento que funcionam como reserva estratégica. Quando a circularidade é incorporada desde o desenho do produto até as decisões de engenharia, operações e logística, as empresas reduzem dependência de matérias-primas primárias e aumentam a previsibilidade operacional. A eficiência econômica vem acompanhada de ganhos ambientais, já que a pressão sobre áreas de extração diminui e a geração de resíduos é reduzida.

A aplicação de inteligência artificial (IA) na indústria latino-americana, em especial nos setores intensivos em recursos, deixa de ser uma aposta de futuro para se tornar um requisito competitivo imediato. Um estudo do Fórum Econômico Mundial,1 divulgado em janeiro de 2026 em Davos, indica que a IA pode elevar a produtividade da região entre 1,9% e 2,3% ao ano, ao reorganizar fluxos operacionais, ampliar a previsibilidade e reduzir a dependência de insumos críticos com alta concentração geográfica e vulnerabilidade geopolítica. Ao integrar IA à gestão do ciclo de materiais, empresas ganham capacidade de antecipar rupturas, otimizar rotas de reaproveitamento e manter a estabilidade operacional mesmo em cadeias expostas a choques externos. Nesse contexto, a combinação entre análise avançada e circularidade fortalece a autonomia produtiva e aproxima ganhos econômicos e ambientais, atributos cada vez mais determinantes nos mercados globais.

A viabilidade dessa abordagem depende da visibilidade do ciclo dos materiais. Entender como insumos entram, circulam e retornam ao processo é essencial para a definição de rotas de reaproveitamento com segurança técnica e econômica. Essa visibilidade exige

integração de dados, padronização de critérios e capacidade de analisar comportamentos em diferentes etapas da produção. A inteligência artificial cumpre esse papel ao organizar informações dispersas, identificar padrões de uso, projetar cenários de suprimento e orientar ajustes de processos com rapidez e precisão. Os modelos aprendem com dados operacionais reais, ajustam parâmetros automaticamente e reduzem incertezas que, antes, impediam ciclos de reaproveitamento em escala industrial.

Essa dinâmica já se manifesta em plantas industriais nas quais a estabilidade operacional é crítica. Na ArcelorMittal, sistemas de monitoramento contínuo e modelos preditivos reduzem riscos de falhas em processos siderúrgicos complexos, ampliando a confiabilidade necessária para implementar ciclos de reaproveitamento internos com maior consistência. A empresa também vem estruturando iniciativas institucionais dedicadas ao tema, integrando circularidade e análise avançada à sua estratégia corporativa. Esses movimentos mostram que circularidade não depende apenas de ajustes tecnológicos, mas também de decisões de gestão apoiadas por dados consistentes e modelos analíticos robustos.

Em escala territorial, arranjos de simbiose industrial ilustram como a circularidade pode se expandir para além dos limites de uma fábrica. Em Kalundborg, na Dinamarca, empresas de setores distintos compartilham água, energia e materiais de forma integrada. A coordenação desse sistema exige previsibilidade e decisões rápidas diante de variações na disponibilidade de recursos. Ferramentas analíticas baseadas em IA e gêmeos digitais, já adotadas no ecossistema de Kalundborg (por exemplo, na otimização de processos de tratamento de efluentes e em iniciativas de digitalização industrial), simulam fluxos, antecipam gargalos e ajustam combinações de recursos, permitindo que o sistema opere com maior estabilidade. A dinâmica mostra como análises avançadas fortalecem a eficiência de ecossistemas industriais interligados.

A consolidação dessas iniciativas depende de uma governança que alinhe áreas que, historicamente, operaram com prioridades distintas. Quando design, engenharia, produção e suprimentos trabalham com critérios desconectados, ciclos de reaproveitamento perdem consistência. Estruturas de dados compartilhados e métricas coerentes permitem que a inteligência artificial produza análises robustas e sustente decisões integradas. Essa coerência fortalece previsibilidade e consistência dos ciclos circulares, elementos essenciais em setores que operam em alta escala.

A avaliação completa dos ciclos de materiais orna-se ainda mais precisa quando modelos preditivos conectam históricos operacionais a medições em tempo real. Executivos passam a identificar oportunidades antes invisíveis, orientar investimentos com mais segurança e reduzir dependências críticas de insumos primários. O foco deixa de recair apenas sobre o desempenho imediato e passa a também considerar valor acumulado ao longo do ciclo completo, reorganizando prioridades e ampliando a margem de adaptação das empresas.

Essa mudança também influencia o desenvolvimento de materiais e o funcionamento das cadeias de suprimento. Critérios de circularidade são incorporados desde a concepção dos produtos, e a transparência logística permite o planejamento de rotas de retorno com maior precisão. A combinação entre IA e circularidade cria ambientes de experimentação contínua, com ajustes progressivos e escalabilidade das soluções que demonstram robustez técnica e econômica.

O uso da IA qualifica cada etapa da circularidade ao ampliar a capacidade de prever disponibilidade e comportamento dos materiais, ajustar processos e organizar decisões com base em evidências. A análise avançada reduz incertezas, melhora a eficiência dos ciclos e aumenta a possibilidade de reaproveitamento em escala industrial. Ao estruturar esse tipo de inteligência nos fluxos produtivos, a indústria fortalece sua autonomia, reduz vulnerabilidades e ganha margens de adaptação em cadeias expostas a choques externos. Esse movimento posiciona empresas brasileiras para competir em mercados que valorizam estabilidade, eficiência e uso responsável de recursos, não por meio de transformações radicais na lógica produtiva, mas sim por decisões orientadas por dados e alinhadas às competências que cada setor já domina.

A IA permite uma transformação relevante e duradoura na produção industrial ao estabelecer um novo padrão de produtividade sustentado por dados, previsibilidade e aprendizado contínuo. Com governança adequada, essa mudança se mantém, escala e reorienta a forma como a indústria cria valor.

 

Currículo dos autores*

Regina Magalhães

Consultora em Inovação e Sustentabilidade. Atuou em posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC, com experiência em transformação digital, transição energética e sustentabilidade. Doutora em Ciências Ambientais pela Universidade de São Paulo (USP), com formações executivas no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e na Universidade Stanford, participa de comissões do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e integra conselhos de organizações de relevância nacional. É reconhecida pela formação de lideranças em sustentabilidade e transformação digital.

 

Christopher Franco Braga

Mestre em Gestão Pública pela Universidade de Brasília (UnB), com mais de 20 anos de experiência técnica, gerencial e executiva em negócios internacionais, governança, estratégia, M&A e sustentabilidade. Liderou a criação da 1ª vice-presidência de Sustentabilidade no Sistema Financeiro Nacional (SFN). Possui formações em Harvard, na London School of Economics (LSE), na Universidade de Lisboa (ULisboa), na StartSe/Babson, no Insper e no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).