Ilustração de continentes digitais: tensão geopolítica está entre as principais preocupações para estratégia de cibersegurança de empresas, diz estudo (Getty Images/Getty Images)
Publicado em 31 de março de 2026 às 20h02.
Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos
Nas últimas décadas, os mercados financeiros globais operaram sob um ambiente relativamente previsível de integração econômica, cadeias produtivas amplamente distribuídas e um arcabouço institucional internacional que, apesar de imperfeito, reduzia o risco de rupturas abruptas.
Contudo, esse equilíbrio vem sendo gradualmente tensionado por uma combinação de fatores geopolíticos que aumentaram de forma significativa a volatilidade dos preços de ativos financeiros. O agravamento de conflitos armados, o recrudescimento de disputas estratégicas entre grandes potências e a reorganização das alianças internacionais têm provocado mudanças estruturais na forma como investidores precificam risco, liquidez e retorno esperado.
Esse novo ambiente se tornou particularmente evidente após eventos como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e a escalada recorrente de tensões no Oriente Médio, incluindo os episódios associados ao conflito Israel–Hamas iniciado em 2023. Tais acontecimentos evidenciaram a fragilidade de cadeias logísticas globais e ampliaram o prêmio de risco geopolítico embutido em ativos financeiros. Commodities energéticas, metais estratégicos e ativos vinculados a cadeias tecnológicas passaram a refletir não apenas fundamentos econômicos tradicionais, mas também a probabilidade de interrupções comerciais, sanções econômicas e reorganização de fluxos comerciais internacionais.
Nesse contexto, o aumento da volatilidade não decorre apenas da ocorrência de conflitos militares em si, mas sobretudo da percepção de que a ordem internacional está passando por um processo de reconfiguração estrutural. Investidores institucionais passaram a incorporar cenários mais amplos de fragmentação geoeconômica, nos quais a lógica da eficiência global — que guiou a globalização das últimas três décadas — vem sendo gradualmente substituída por uma lógica de segurança estratégica e resiliência nacional. Essa transição tem implicações profundas para a precificação de ativos, especialmente em setores considerados críticos, como energia, semicondutores, infraestrutura digital e defesa.
Um elemento frequentemente subestimado nesse processo é o papel de rearranjos políticos e econômicos ocorridos nos Estados Unidos, cuja influência sistêmica sobre o sistema financeiro internacional permanece dominante. Entre esses fatores, analistas têm discutido o chamado “Acordo de Mar-a-Lago”, expressão utilizada para descrever o conjunto de alinhamentos estratégicos e debates de política econômica associados ao círculo político e intelectual ligado ao presidente Donald Trump e a setores relevantes do establishment republicano.
Embora não constitua um acordo formal ou um tratado institucionalizado, o acordo simboliza uma inflexão relevante na visão de política econômica internacional americana. Em termos amplos, ele representa a consolidação de uma agenda que combina três elementos centrais: reindustrialização doméstica, redução da dependência estratégica de cadeias produtivas estrangeiras — particularmente da China — e uma postura mais assertiva no uso de instrumentos comerciais, tecnológicos e financeiros como instrumentos de poder geopolítico.
Essa mudança não surgiu de forma abrupta, mas tornou explícitas disputas que já existiam internamente nos centros de decisão de política econômica dos Estados Unidos. Durante décadas, houve tensões entre duas correntes principais: uma visão liberal-internacionalista, favorável à globalização financeira e comercial, e uma visão mais nacional-desenvolvimentista, preocupada com a perda de capacidade industrial estratégica e com os riscos de dependência tecnológica. O chamado acordo de Mar-a-Lago funcionou, nesse sentido, como um catalisador político que trouxe à superfície essas divergências, transformando-as em diretrizes explícitas de política pública.
A partir desse ponto, tornou-se mais evidente a transição de uma política externa predominantemente orientada pela promoção da integração global para uma estratégia baseada em competição sistêmica entre grandes potências. Essa mudança abriu espaço para o ressurgimento de conceitos estratégicos clássicos, como a noção de esferas de influência.
É nesse contexto que analistas têm revisitado a histórica Doutrina Monroe, formulada no século XIX como um princípio de política externa segundo o qual potências externas não deveriam interferir nos assuntos do hemisfério ocidental. Na formulação contemporânea, alguns analistas passaram a utilizar o termo “Donroe” — uma espécie de releitura moderna da doutrina — para descrever a reinterpretação desse princípio no contexto de competição geopolítica com potências revisionistas.
Sob essa lógica, os Estados Unidos passaram a priorizar de forma mais explícita a consolidação de zonas estratégicas de influência política, tecnológica e militar. Essa abordagem se manifesta em políticas voltadas ao fortalecimento de alianças regionais, à proteção de cadeias produtivas críticas e à contenção da expansão de rivais estratégicos em áreas consideradas sensíveis para a segurança nacional americana.
Essa orientação tem implicações diretas para os mercados financeiros globais. Em primeiro lugar, ela tende a intensificar processos de fragmentação econômica, com o surgimento de blocos geopolíticos parcialmente autônomos. E em segundo lugar, aumenta a probabilidade de políticas industriais agressivas, subsídios estratégicos e restrições tecnológicas — fatores que alteram profundamente a dinâmica competitiva entre empresas e países.
Do ponto de vista da precificação de ativos, esse novo ambiente introduz uma camada adicional de incerteza estrutural. Investidores precisam avaliar não apenas fundamentos macroeconômicos tradicionais, como crescimento, inflação e política monetária, mas também variáveis geopolíticas complexas, como sanções, restrições tecnológicas, reorganização de alianças e riscos de escalada militar.
Consequentemente, a volatilidade observada nos mercados financeiros não deve ser interpretada apenas como uma reação episódica a eventos específicos, mas como um reflexo de uma transição mais ampla no sistema internacional. A reconfiguração das estratégias de segurança nacional dos Estados Unidos, combinada com o aumento da rivalidade entre grandes potências, sugere que o prêmio de risco geopolítico deverá permanecer um componente estrutural relevante na precificação de ativos ao longo dos próximos anos.
Em síntese, o que se observa atualmente é menos uma ruptura súbita e mais um processo gradual de explicitação de conflitos latentes no sistema internacional. O chamado acordo de Mar-a-Lago contribuiu para tornar visíveis essas tensões no interior da política econômica americana, enquanto a releitura contemporânea da Doutrina Monroe — ou “Donroe” — reflete a adaptação da estratégia americana a um mundo caracterizado por competição geopolítica mais intensa. Para os mercados financeiros, esse cenário implica um período prolongado de maior incerteza, realocação de capital e redefinição das métricas tradicionais de risco global.
O texto não reflete necessariamente as opiniões da empresa.