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Fintechs à frente na era da IA

Não é difícil imaginar fintechs brasileiras liderando o desenvolvimento de soluções de pagamentos inteligentes

 (krugli/Getty Images)

(krugli/Getty Images)

Publicado em 21 de junho de 2026 às 09h49.

Por Carlos Akira Sato*

 

A Ata da 65ª reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) trouxe um dos sinais mais importantes já emitidos pelo Banco Central do Brasil sobre o futuro da Inteligência Artificial no sistema financeiro.

Pela primeira vez, o regulador brasileiro reconhece explicitamente que os avanços recentes da IA podem criar novos riscos para a estabilidade financeira, especialmente pela capacidade desses modelos explorarem vulnerabilidades tecnológicas e potencialmente afetarem infraestruturas críticas do Sistema Financeiro Nacional. O documento destaca ainda a necessidade de fortalecer a resiliência cibernética do setor diante dessa nova realidade.

A preocupação é legítima. A Inteligência Artificial já é capaz de analisar milhões de linhas de código, identificar falhas de segurança, automatizar processos de engenharia social, desenvolver ferramentas sofisticadas de ataque e reduzir drasticamente o tempo necessário para exploração de vulnerabilidades.

O que antes exigia equipes especializadas e meses de trabalho pode, em breve, ser realizado em questão de horas. O Banco Central demonstra compreender que a próxima geração de ameaças ao sistema financeiro poderá surgir da combinação entre inteligência artificial, hiperconectividade e dependências tecnológicas compartilhadas. Mas existe uma segunda leitura igualmente importante. Se a IA pode ser utilizada para atacar o sistema financeiro, ela também será fundamental para defendê-lo.

A próxima geração de segurança cibernética será construída por sistemas inteligentes capazes de monitorar eventos em tempo real, detectar anomalias, antecipar ameaças, responder automaticamente a incidentes e fortalecer mecanismos de prevenção a fraudes. Nesse aspecto, a discussão não deveria se limitar aos riscos e, sim, precisaria de uma abordagem às oportunidades.

E é justamente nesse ponto que as fintechs brasileiras assumem protagonismo. Ao contrário dos bancos tradicionais, que frequentemente carregam décadas de sistemas legados, muitas fintechs nasceram em ambiente digital, estruturadas sobre arquiteturas modernas, APIs, computação em nuvem e modelos de desenvolvimento mais ágeis.

Essa característica transformou o Brasil em um dos mercados mais avançados do mundo na aplicação prática de tecnologia financeira, possibilitando a rápida evolução do Pix, do Open Finance, da bancarização digital e do crescimento das instituições de pagamento, fintechs de crédito, plataformas de investimento e provedores de infraestrutura financeira.

A próxima onda de transformação deverá ser impulsionada pela Inteligência Artificial. Em crédito, modelos avançados já permitem análises mais sofisticadas de risco, reduzindo assimetrias de informação e ampliando o acesso a produtos financeiros.

Em prevenção à fraude, sistemas inteligentes conseguem identificar padrões comportamentais praticamente impossíveis de serem detectados por modelos tradicionais baseados exclusivamente em regras. Em compliance, a IA passa a ser uma ferramenta estratégica para monitoramento transacional, prevenção à lavagem de dinheiro, identificação de operações suspeitas e automação regulatória.

Em atendimento ao cliente, agentes conversacionais evoluem rapidamente de simples assistentes para consultores financeiros digitais capazes de auxiliar consumidores na contratação de produtos, renegociação de dívidas, planejamento financeiro e investimentos. Curiosamente, nenhum desses temas aparece na ata do Comef.

Também chama atenção a ausência de referências aos chamados ‘pagamentos agênticos’, uma das tendências mais relevantes da próxima década. Grandes empresas de tecnologia e instituições financeiras globais já trabalham em modelos nos quais agentes de Inteligência Artificial podem pesquisar produtos, negociar preços, contratar serviços, escolher meios de pagamento e executar transações automaticamente dentro de parâmetros definidos pelos usuários.

Se o Pix representou a digitalização dos pagamentos, os pagamentos agênticos poderão representar sua automatização. Nesse cenário, a interação deixa de ocorrer entre pessoas e empresas para ocorrer entre agentes digitais representando consumidores, empresas e instituições financeiras.

A ausência desse debate é compreensível, pois se trata de um mercado ainda emergente. Entretanto, sua relevância estratégica para o Brasil é evidente. O país possui um dos sistemas de pagamentos mais avançados do mundo, uma das maiores populações bancarizadas digitalmente e um dos ecossistemas de fintechs mais dinâmicos do planeta.

Não é difícil imaginar fintechs brasileiras liderando o desenvolvimento de soluções de pagamentos inteligentes, crédito automatizado, compliance digital e serviços financeiros operados por agentes de IA.

Talvez a principal mensagem da ata do Comef esteja justamente nas entrelinhas: o Banco Central iniciou a discussão sobre os riscos da Inteligência Artificial. O próximo passo será discutir como essa mesma tecnologia poderá aumentar a eficiência, a competitividade e a inclusão financeira.

E quando essa conversa avançar, as fintechs brasileiras provavelmente estarão no centro dela. Da mesma forma que o Brasil se tornou referência mundial em pagamentos instantâneos e Open Finance, existe uma oportunidade real para que o país também se torne uma referência global na integração entre Inteligência Artificial e serviços financeiros.

A IA transformará o sistema financeiro e já é evidente. Resta saber quem deve liderar essa transformação: os grandes bancos, as empresas globais de tecnologia ou o vibrante ecossistema de fintechs, que ajudou a redefinir o mercado financeiro brasileiro nas últimas duas décadas.

 

*Carlos Akira Sato - Vice-Presidente de Relações Institucionais da PAGOS (Associação de Gestão de Meios de Pagamentos Eletrônicos). Especialista em Mercados Regulados, Criptoativos, Infraestrutura Financeira, Governança e Inovação. Co-Founder da Syscapital.