Colunistas

ESG: o novo caminho do crédito no agronegócio

Sustentabilidade deixa de ser custo e passa a ser ativo financeiro para quem busca competitividade e acesso a capital internacional

 (Getty Images)

(Getty Images)

Publicado em 19 de dezembro de 2025 às 10h54.

Por João Soares*

 

O crédito rural brasileiro passa por uma transformação silenciosa, porém profunda. Por muito tempo, práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) foram vistas como custo adicional ou formalidade exigida por compradores e investidores. Mas essa percepção mudou. O ESG se consolida como ferramenta de gestão financeira — um ativo estratégico que reduz risco, melhora acesso a crédito e abre portas para financiamentos internacionais com taxas mais baixas.

Quando o produtor entende que o ESG não é custo, mas um caminho para acessar crédito mais barato, ele muda sua forma de gerir o negócio. Sustentabilidade e governança passam a ser elementos centrais de competitividade e longevidade.

O crédito rural, além de caro, enfrenta limitação estrutural de oferta. No ciclo do Plano Safra 2025/26, iniciado em julho, foram desembolsados R$ 105,4 bilhões até setembro, queda de 18,5% em relação à safra anterior, segundo dados do Banco Central. O valor liberado representa apenas 26% dos R$ 405,9 bilhões previstos para o ciclo.

Por modalidade, o custeio somou R$ 65,8 bilhões, o investimento R$ 19,2 bilhões e a industrialização R$ 11,1 bilhões. Mesmo com um saldo total de crédito rural em torno de R$ 594,4 bilhões, a inadimplência média segue próxima de 7%, refletindo o impacto do custo de capital e das condições ainda restritivas. Com a Selic a 15% ao ano, o crédito doméstico permanece caro.

Essa conjuntura obriga o agronegócio a buscar novas fontes de capital. É nesse ponto que o ESG deixa de ser discurso e se torna estratégia financeira. Linhas internacionais voltadas a projetos sustentáveis — como as do Banco Mundial e do BID — chegam a praticar juros próximos de 2% ao ano em dólar, segundo estimativas de mercado. Diferença que pode definir a competitividade de um projeto agrícola.

Para acessar esses recursos, o primeiro passo é estruturar um projeto sólido, com diagnóstico ESG, indicadores de impacto e governança formalizada. O processo leva de três a seis meses e se paga rapidamente ao permitir crédito de longo prazo em condições mais vantajosas.

Na prática, o produtor que mede e comprova o impacto ambiental e social de sua operação passa a ser visto como baixo risco financeiro — e, portanto, mais financiável. Além disso, melhora sua reputação junto a investidores e fundos de impacto, que movimentam mais de US$ 1,3 trilhão anuais em finanças climáticas, segundo a Climate Policy Initiative (2023).

O crédito rural precisa ser parte da estratégia de negócio, e não solução pontual de caixa. Cada produtor tem um perfil específico. Dessa forma, é fundamental identificar a estrutura de capital ideal, conectando o cliente às linhas mais adequadas, sejam nacionais ou internacionais.

O futuro do crédito no agronegócio passa pela originação qualificada — a capacidade de traduzir bons projetos em linguagem financeira. Há capital disponível para agricultura regenerativa, energia limpa e recuperação de áreas degradadas. O que falta, muitas vezes, é a estruturação adequada.

O ESG não é custo. É eficiência de capital — o elo que conecta o agronegócio produtivo ao sistema financeiro global. Incorporar essa mentalidade é o primeiro passo para transformar o crédito em uma verdadeira ferramenta de crescimento sustentável.

* Sócio da Rio Negro Investimentos