Trump em Davos: “O que os Estados Unidos ganham com todo esse trabalho?" (Fabrice COFFRINI/AFP)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 18h40.
Última atualização em 17 de fevereiro de 2026 às 18h41.
No Brasil, não se prestou atenção, mas Larry Fink, fundador e presidente da BlackRock, abriu o Fórum Econômico Mundial, o World Economic Forum, em Davos, com uma pergunta desconcertante: “Will anyone outside this room care?”
Em vez de defender o clube, admitiu que a crítica procede. No texto que publicou como co-presidente interino do Fórum, traduziu a virada de época: queda da confiança institucional, antipatia contra “elites” e a necessidade de Davos descer das montanhas e ouvir o mundo real. “The mountain will come down to earth.”
O tom não foi retórico. Foi de conscientização. Davos, pela primeira vez em décadas, falou menos como oráculo e mais com os pés no chão. Não porque Fink tenha mudado de lado, mas porque enxerga, com lentes financeiras sofisticadas, algo que deixou de ser uma soma de ruídos políticos: a licença social do capitalismo ocidental está se deteriorando.
O efeito aparece na instabilidade política, na frustração das novas gerações e no aumento do risco sistêmico. Populismos de esquerda e direita deixaram de ser apenas guerra cultural, wokes versus magas, e tornaram-se custo de capital.
De fato, ali mesmo, aos pés dos Alpes, a Europa vive sua pior fase desde o pós-guerra; guerra na Ucrânia, decadência demográfica, desindustrialização, radicalismo islâmico, antissemitismo e o fantasma da Rússia também não são mais puro alarmismo.
A sombra de Donald Trump também pairou sobre Davos por um motivo específico: ele, abruptamente, retirou o Ocidente de um torpor confortável, aceito por anos pelo consenso globalista do Fórum. Ao romper dogmas, questionar cadeias produtivas excessivamente longas, recolocar produção, soberania e interesse nacional no centro do debate, Trump expôs fragilidades que Davos preferia tratar como externalidades administráveis.
O constrangimento atual não nasce somente do estilo pessoal, mas do fato de que parte do diagnóstico estava correta, ainda que dito sem filtros e de uma forma grosseira, estudada para atropelar os teatros da mídia “mainstream”.
A exposição de Larry Fink, o maior dos banqueiros que falou, pesa porque vem de quem mede o pulso do sistema. A BlackRock encerrou 2025 com cerca de US$ 14 trilhões sob gestão e US$ 698 bilhões em captações líquidas.
Em um mundo dominado por ETFs e indexação, isso significa presença transversal: por meio de fundos, a gestora é acionista indireta de milhares de empresas, em praticamente todos os setores. Seu braço de ETFs, o iShares, já supera US$ 5 trilhões, com cerca de 29% do mercado global. No Brasil, está presente em muitos grandes grupos, discretamente.
E a BlackRock não está sozinha. Segundo o Thinking Ahead Institute, os 500 maiores gestores do mundo somavam US$ 139,9 trilhões em ativos sob gestão ao fim de 2024. Esse capital é silencioso, mas reage rapidamente quando percebe riscos estruturais.
Por que Fink falou tanto? Pela instabilidade política global, pelas frustrações das pessoas, mas, acima de tudo, pelo estrutural: porque a próxima onda de produtividade pode ser politicamente explosiva. A inteligência artificial tende a repetir o padrão da globalização pós-Guerra Fria, disse, quando a riqueza imensa gerada acabou concentrada. Daí a pergunta simples e devastadora: “What happens to everyone else?”
Nesse contexto, a discussão sobre renda mínima reapareceu em Davos não como bandeira ideológica, mas como variável de estabilidade macroeconômica. A tese, defendida há anos por líderes da tecnologia, é que a IA pode gerar um excedente de produtividade tão elevado que parte dele precisará ser redistribuída para preservar coesão social e previsibilidade institucional, virando alto risco político. Mais fácil falar, no entanto, do que fazer.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Os Estados Unidos têm cerca de US$ 70 mil de produtividade anual por trabalhador; o Brasil, cerca de US$ 17 mil. Mesmo assim, os EUA já enfrentam dificuldades para expandir, ou sequer manter, a sua classe média, hoje marcada por estagnação e ressentimento. Se uma economia altamente produtiva já sofre para converter tecnologia em mobilidade social, o impacto da IA em países de baixa produtividade tende a ser ainda mais severo.
A sombra mais longa sobre Davos, porém, é a da China. Seu capitalismo de Estado tem custos políticos evidentes, mas entrega o que o Ocidente passou a adiar: escala, coordenação e resultados. A China avança em inteligência artificial, energia, manufatura avançada e infraestrutura, enquanto democracias ocidentais se enredam em disputas distributivas sem uma estratégia clara de produtividade. É da China que vem o maior crescimento da classe média. É de lá que vem a resposta da mobilidade social.
O subtexto é inequívoco. Se a globalização pressionou o emprego industrial, a IA pressiona o emprego intelectual de rotina. A fábrica já vinha sendo automatizada; agora é a fábrica de colarinho branco. Sem um plano crível de transição, a política responde com populismo, ruptura regulatória e conflito distributivo, e o caríssimo mercado perde previsibilidade.
O paradoxo é que o Brasil é peça grande do tabuleiro, mas joga pouco. De Davos foi quase um ausente. Energia, agro, minerais críticos e serviços oferecem caminhos reais de difusão de renda. No turismo, por exemplo, a IA automatizará preços e back office, mas hospitalidade, confiança e curadoria seguem humanas. Usada para elevar qualidade e gasto médio, e não apenas cortar custos, pode ampliar renda local.
Quando o maior termômetro do capital global admite, em Davos, uma crise de confiança e um choque distributivo iminente, não é virtude performática. Trata-se de um alerta sobre uma soma de fatores e mudanças que ocorreram lentamente, “at Davos Watch”, e que, como água fervendo, estão entrando em ebulição. A pergunta final não é ideológica, é estratégica: quem capturará a produtividade e quem ficará para trás?