O livre comércio e a ignorância voluntariosa

“O marido dela foi responsável pelo pior acordo comercial da história mundial.” O autor dessa frase é Donald Trump, o incontrolável candidato republicano. O “marido dela” é, obviamente, Bill Clinton. O “pior acordo da história mundial” não poderia ser outro — trata-se do Nafta, sacramentado em 1994 entre o México, o Canadá e os Estados […]
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Monica de Bolle

Publicado em 06/05/2016 às 10:56.

Última atualização em 22/06/2017 às 18:19.

“O marido dela foi responsável pelo pior acordo comercial da história mundial.” O autor dessa frase é Donald Trump, o incontrolável candidato republicano. O “marido dela” é, obviamente, Bill Clinton. O “pior acordo da história mundial” não poderia ser outro — trata-se do Nafta, sacramentado em 1994 entre o México, o Canadá e os Estados Unidos.

A campanha eleitoral americana tem sido marcada, desde o início, por inflamado repúdio ao livre comércio e ao avanço da globalização. De um lado, a imagem recorrente da imensa muralha, muito grande, muito grande mesmo, que Trump pretende erguer com dinheiro mexicano na fronteira entre os dois países. De outro, Bernie Sanders a vociferar contra empresas predadoras e o desaparecimento da classe média. Em tom mais ameno, Hillary Clinton tem destacado o sumiço dos empregos da indústria, deixando apenas implícita a ideia de que seria uma sequela de acordos comerciais malfeitos, ou malfundamentados, sem mencionar seu marido. O Nafta surge e ressurge como o algoz da classe média americana, como o mal de todos os males.

Não é de hoje que o livre comércio é atacado de modo visceral, símbolo de todos os problemas que afligem diferentes países em variadas épocas. A oposição feroz à abertura comercial é movida por dois sentimentos intensos. De um lado, o medo. Medo de perder empregos, de enfrentar a redução do poder geopolítico, de ver minguar as receitas do governo. De outro, o desejo. Desejo de proteger grupos de interesse distintos, grupos que, em geral, conseguem capturar o imaginário popular de modo exemplar por meio do medo. A sangria das manufaturas, as cidades-fantasma, as fábricas e os galpões dilapidados. Não à toa a retórica inflamada de Bernie Sanders e de Donald Trump encontraram tamanha ressonância nos Estados Unidos pós-crise, uma economia que se recupera lentamente com uma classe média mais enfraquecida e repleta de medos e angústias. Os custos do livre comércio, afinal, são visíveis. Fábricas fecham, sim, em razão da abertura. Empregos somem nos setores menos competitivos. Estruturas produtivas sofrem transformações por vezes bastante dolorosas. Há ampla documentação empírica de tudo isso.

Os ganhos do livre comércio, entretanto, são bem menos evidentes, muitas vezes equivocadamente associados a outras políticas de governo, e não à abertura comercial em si. Há farta literatura empírica e teórica mostrando que a abertura favorece o crescimento, ainda que muitas vezes não seja de imediato. A abertura também tem efeitos positivos sobre a desigualdade, passada a fase inicial de ajuste. Estudo de Valerio e Rojas-Ramagosa (2007) para os acordos comerciais da América Central com os Estados Unidos (Cafta) e com a União Europeia (CAAA) revelam notável redução da pobreza em países como Nicarágua e Costa Rica após sua implementação. Análise recente de pesquisadores do Peterson Institute for International Economics (PIIE) sobre o impacto do Nafta, 20 anos depois de sua adoção (ver Hufbauer et al (2014), “NAFTA at 20”), revela que os ganhos com o acordo superaram em muito os prejuízos em todos os países envolvidos. Exemplo disso é o florescimento da indústria automotiva no México, que, em duas décadas deixou para trás o atraso, destacando-se na América Latina. Não à toa o Brasil perdeu uma fatia importante desse mercado na região.

Outro estudo recente do PIIE mostra que o Trans-Pacific Trade Partnership (TPP), recém-negociado entre os Estados Unidos e 11 países, incluindo Chile e Peru na América Latina, poderá trazer grandes benefícios aos países mais pobres por meio não só de transferências tecnológicas, pesquisa e inovação como também em razão das mudanças regulatórias e da harmonização de regras que o mega-acordo regional pretende implantar. Ou seja, enquanto o senso comum percebe o livre comércio como um jogo em que perdedores e ganhadores se anulam, a realidade mostra que os ganhos tendem a superar as perdas, ainda que as perdas possam muitas vezes aparecer antes da materialização dos ganhos.

O movimento anticomércio e antiglobalização que tomou forma e ganhou substância na campanha americana é perigoso tanto para a geopolítica global quanto para a economia mundial. Neste momento delicado em que povos e credos são vistos com extrema desconfiança, posturas isolacionistas no centro do mundo em nada contribuem para diminuir tensões. Ao mesmo tempo, nestes tempos em que dúvidas abundam sobre a higidez da economia mundial, a procura do próprio umbigo pode acentuar riscos percebidos, além de criar outros ainda não identificados. Em meio a essa confusão padece o Brasil, justamente quando parecia estar começando a enxergar na abertura comercial um raio de nitidez. Eis mais um legado funesto da ignorância voluntariosa que reinou incólume no país.

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