O espírito do tempo

How does it feel? How does it feel? To be on your own With no direction home A complete unknown Like a rolling stone? Bob Dylan, Like a Rolling Stone, 1965 Da fartura à ruína, a poesia da música mais famosa de Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, é a perfeita ilustração do mundo, […]
 (Hulton Archive/Getty Images)
(Hulton Archive/Getty Images)
Por Monica de BollePublicado em 14/10/2016 12:53 | Última atualização em 22/06/2017 18:10Tempo de Leitura: 4 min de leitura

How does it feel?

How does it feel?

To be on your own

With no direction home

A complete unknown

Like a rolling stone?

Bob Dylan, Like a Rolling Stone, 1965

Da fartura à ruína, a poesia da música mais famosa de Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, é a perfeita ilustração do mundo, da economia, da política. O espírito de hoje está tão ou mais forte nessa letra, nesse refrão, do que na época em que um garoto genial de 24 anos teve o brilhantismo de escrevê-los.

E que espírito do tempo é esse? É o espírito do tempo que não consegue lidar com as rachaduras da globalização, com seus desafetos, com os que foram deixados para trás ou caíram em desgraça na esteira da crise financeira. É a classe média que um dia foi aluna das melhores escolas, hoje tendo de aprender a viver nas ruas, a apanhar as migalhas do que sobrou. São os trabalhadores da indústria nos Estados Unidos, cujos empregos sumiram ou pagam salários miseráveis. São os destituídos que apoiaram o Brexit em junho, os milhões de desconhecidos sem direção. São os revoltados com o “sistema” por terem perdido tanto, tanto. Todos os que dão as costas para a política tradicional e erguem figuras deploráveis como Donald Trump em meio ao seu desespero. Desespero de pedra que rola ladeira abaixo.

Pedra que rola ladeira abaixo. A libra esterlina é pedra que rola ladeira abaixo, a moeda com o pior desempenho esse ano, comparada, recentemente, às moedas emergentes pela Bloomberg. O desatino da libra é o desatino da economia britânica, cuja escolha de sair da União Europeia trará graves consequências econômicas e institucionais para o Reino Unido. O desatar de laços comerciais, o divórcio, que pelas contas do Financial Times, poderão custar cerca de 20 bilhões de euros aos cofres britânicos. A debandada de bancos e instituições financeiras da City, o recente flerte com a proibição de que intelectuais não-britânicos possam ter papel de destaque no debate econômico do Reino Unido. Banco da Inglaterra no futuro sem a possibilidade de Mark Carneys, sem membros externos no comitê de política monetária, membros externos que trazem diversidade e frescor à aridez da política monetária. O sentimento de isolamento e solidão que levou à decisão dramática dos britânicos terá consequências perversas. Ainda estamos longe de testemunhá-las, todas.

Nos Estados Unidos, as pedras rolaram, e da ruína surgiu Donald Trump. Donald Trump com sua visão protecionista, gana de solapar os principais parceiros comerciais dos EUA com tarifas proibitivas, o que por certo incitaria guerras comerciais, retaliações. Estudo recente elaborado pelo Peterson Institute for International Economics e por mim já citado nesse espaço mostra que os grandes perdedores das políticas de Trump são os integrantes da classe média, sobretudo os da classe média vulnerável. São os vendedores do Walmart, que perderão seus empregos em caso de guerra comercial que desmanche as cadeias de produção. Sem falar nas consequências políticas da ascensão de Trump, no sistema bipartidário que ameaça ruir sob a pressão do populismo acéfalo do candidato Republicano, no país rachado pela disputa de dois candidatos problemáticos para a presidência.

No Brasil, a ruína é tão evidente que o refrão de Bob Dylan mexe nas vísceras. Os doze milhões de desempregados, a classe média que comprou carro, televisão, geladeira, casa, hoje endividada e sem esperança. O governo oferece a promessa de ajustes necessários que ajudarão a contornar o problema, a fazer o país voltar a crescer em breve. Os ajustes, sobretudo a PEC do Teto, sob intenso debate e escrutínio, é urgente e mais do que necessária. Mas não será ela tábua inequívoca de salvação. Sobretudo para essa classe média que ainda terá de conviver com um mercado de trabalho arruinado por tempo indefinido. Penso se o Brasil não viverá, nos próximos dois anos, espécie de 2014 às avessas: em 2014, a economia ia mal, mas o mercado de trabalho ia bem. A população não acreditou nos economistas, preferiu escutar as promessas impagáveis de um governo que se foi. Daqui para frente, o mais provável é que a economia vá bem, mas que o mercado de trabalho continue mal. A população, novamente, não acreditará nos economistas, nos especialistas, sentir-se-à desconhecida, sem rumo. Os reflexos disso irão se refletir nas escolhas políticas de 2018, chegando o Brasil ao ponto em que hoje está boa parte dos países maduros.

As pedras rolam, e as respostas ainda sopram com o vento.

MONICA-DE-BOLLE