Poder executivo e RelGov (Thomas Barwick/Getty Images)
CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional
Publicado em 2 de abril de 2026 às 22h54.
Existe uma gramática silenciosa que governa todas as relações — entre países, entre partidos, entre pessoas. Ela não está nos discursos. Está nas pausas entre eles.
Nos últimos meses, o mundo assistiu a uma coreografia geopolítica que, por baixo dos tratados e das ameaças, revela algo muito mais fundamental: quem tem poder, como o exerce com presença, e o que o seu posicionamento comunica quando as câmeras estão desligadas.
Os EUA falam com a Casa Branca como palco e o planeta como plateia. O Irã desmente com atitudes o que nega com palavras, porque sabe que a negação pública cria a narrativa que justifica a resposta que já estava planejada. A Europa, quase sistematicamente, recusa as pressões americanas para entrar na guerra. Não por fraqueza. Mas porque o não posicionamento é um posicionamento. Silêncio estratégico também é poder.
Três conversas acontecem simultaneamente em qualquer grande negociação: a conversa privada, o recado público e a estratégia de pressão. Quem confunde as três perde o jogo antes de sentar à mesa.
Aqui no Brasil, a dinâmica é a mesma, apenas o palco muda. A corrida eleitoral, a escolha de candidatos ao Senado, o apoio velado à presidência da República, e no centro de tudo isso: o Supremo Tribunal Federal. O STF tornou-se o lugar onde o posicionamento é analisado em tempo real, sob olhares que não piscam. Cada voto é lido como sinal. Cada silêncio, interpretado. Não há neutralidade quando o poder real está em disputa.
Em ambas as esferas, a global e a nacional, o que está em jogo é sempre a mesma tríade: quem tem o poder, como se faz presente nele, e onde se posiciona quando a pressão aumenta.
Recentemente, ouvi de um gestor de hedge fund em Londres uma expressão que não saiu da minha cabeça: off-ramp. A rampa de saída. No mercado financeiro, é a rota de escape oferecida antes que o cenário se torne insustentável para todas as partes. E o que me chamou atenção não foi a saída em si, foi quem a desenha. Porque quem constrói a rampa do outro controla para onde ele vai. Ofertar uma saída digna é um dos gestos mais sofisticados de poder que existem. Você não vence pela força. Você vence porque o outro só tem o caminho que você já pavimentou.
Na arte de se relacionar, poder sem presença intimida mas não conecta. Presença sem posicionamento agrada mas não influencia. E posicionamento sem poder é performance.
A combinação dos três é o que separa quem dita o ritmo de quem apenas dança.