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Davos e o jogo das cadeiras do poder global 

Ao inflamar disputas, Trump cria fissuras que depois podem ser negociadas sob seus termos

Trump em Davos: “O que os Estados Unidos ganham com todo esse trabalho?" (Fabrice COFFRINI/AFP)

Trump em Davos: “O que os Estados Unidos ganham com todo esse trabalho?" (Fabrice COFFRINI/AFP)

Martha Leonardis
Martha Leonardis

CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 18h13.

Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 13h21.

Davos sempre foi um termômetro das relações globais. Mas em certos anos, ele se transforma em algo mais raro: um ensaio geral do novo tabuleiro de poder. Este é um desses momentos.

Nos corredores paralelos ao palco do World Economic Forum, as falas públicas de líderes não foram apenas discursos. Foram sinais, cuidadosamente calibrados, de um jogo maior: quem ocupa qual cadeira na próxima fase da ordem internacional.

Logo na abertura, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, resumiu o dilema da ordem internacional atual com uma frase que já ecoa nos corredores diplomáticos:

"Middle powers must act together because if you are not at the table, you are on the menu."

Carney não estava fazendo retórica poética: ele estava diagnosticando uma realidade em que potências médias, sozinhas, são incapazes de influenciar decisões que moldam comércio, segurança e tecnologia, e podem acabar sendo moldadas por elas.

Esse alerta ecoou forte entre líderes que percebem que a antiga lógica de “ordem baseada em regras” está se desgastando rapidamente.

O presidente Donald Trump de fato alterou a dinâmica em Davos, não apenas pelo conteúdo de seus discursos, mas pela maneira como ele conduziu as tensões.

Trump voltou a defender uma visão transacional da política externa:

  • Ao anunciar tarifas e condicioná-las a apoio a seus projetos globais;
  • Ao apresentar sua iniciativa de um “Board of Peace”, uma espécie de nova plataforma multilateral liderada pelos EUA, com condições financeiras e simbólicas próprias;
  • E ao responder diretamente a críticas, como quando afirmou que “Canada vive por causa dos Estados Unidos”, numa clara tentativa de pressionar politicamente Carney.

O uso dessa tensão, gerar desconforto antes de propor diálogo, não é aleatório: é uma técnica deliberada de negociação em cenários assimétricos. Ao inflamar disputas, Trump cria fissuras que depois podem ser negociadas sob seus termos, deslocando o centro de gravidade de alianças tradicionais para acordos mais bilaterais e pragmáticos.

Enquanto Trump tensiona o sistema, Ursula von der Leyen tenta preservá-lo. Seu discurso insiste em previsibilidade, regras e coordenação internacional. Mas o subtexto é claro: a Europa já não dita o ritmo, ela luta para permanecer central.

Em Davos, Ursula não fala apenas como líder institucional. Fala como guardiã de um modelo que perdeu tração justamente quando o poder voltou a ser exercido de forma mais direta.

Macron, por sua vez, ocupou uma posição intermediária: reforçando a necessidade de soberania europeia enquanto apresentava a França como um ator capaz de mediar dentro de um contexto cada vez mais fragmentado.

O desenrolar desses discursos e reações não foi teatral; foi um rearranjo real de alianças e influências. o resultado é uma Davos que reflete menos consenso e mais competição por espaço político e geopolítico.

No fim, como Carney explicou e Trump demonstrou, não estar no centro da conversa é confiar que outros dirão o que é melhor para você.