Colunistas

A mulher que sustenta o Atlas

O que separa presença de protagonismo não é o convite que você recebe, é a exigência que você faz depois de sentar

 (Ilustração gerada por IA/Exame)

(Ilustração gerada por IA/Exame)

Martha Leonardis
Martha Leonardis

CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional

Publicado em 16 de julho de 2026 às 15h08.

Há uma coincidência literária que eu não consegui ignorar. Na Netflix, um executivo arrogante de publicidade acorda em uma realidade paralela onde o poder é das mulheres. O nome da agência onde tudo começa: Atlas. Décadas antes, Ayn Rand já tinha dado esse mesmo nome ao mundo que desaba quando a competência se retira dele — e colocado, no centro desse mundo, não um homem, mas uma mulher.

Dagny Taggart não pede licença para ser boa no que faz. Ela dirige a maior ferrovia dos Estados Unidos num universo de homens que herdaram cargos e discursam sobre valores enquanto o trem sai dos trilhos. Rand não a torna heroína por ser mulher — torna-a heroína por ser competente num mundo que começou a recompensar qualquer coisa menos competência. Mas o fato de ser mulher importa, sim. Importa porque ela precisa provar duas vezes o que os homens ao redor dela provam uma. Importa porque sua autoridade nunca é assumida como natural — é conquistada, sustentada, defendida, todos os dias, contra quem acha que ela está ali por acidente ou por tolerância.

“Primeiro as Damas” pega essa mesma tensão e a vira do avesso, com humor. Damien, o protagonista, passa o filme inteiro aprendendo, na pele, o que significa ser tratado como acessório num ambiente que ele próprio ajudou a construir assim. E quando finalmente tenta consertar o que fez, a personagem de Rosamund Pike não aceita o pedido de desculpas como moeda de troca. Ela negocia: quer comandar a campanha, quer o mesmo salário, quer a sala. Não pede para ser incluída — exige ocupar o espaço que já era dela por mérito.

É aí que as duas histórias, separadas por quase oito décadas e por gêneros narrativos completamente diferentes, dizem a mesma coisa: o papel da mulher não é entrar na sala. É recusar sair dela com menos do que entrou.

No mundo dos negócios — e eu vivo isso todos os dias, entre bastidores de operações, mesas de negociação e conselhos que ainda têm mais retratos de homens na parede do que cadeiras ocupadas por mulheres — vejo essa mesma armadilha se repetir com frequência preocupante. Convida-se a mulher para a mesa como resposta a uma pressão externa, um investidor incomodado, uma manchete indesejada. Ela entra. Sorri. Agradece a oportunidade. E ali, nesse agradecimento automático, perde metade da batalha antes mesmo de começar.

A lição de Dagny Taggart — e, surpreendentemente, também a de Alex, na comédia leve da Netflix — é que representatividade sem poder real é cenografia. Cadeira na mesa sem voto na decisão é figuração. O que separa presença de protagonismo não é o convite que você recebe, é a exigência que você faz depois de sentar.

E aqui a ficção encontra o noticiário da semana. Jane Fraser assumiu o Citi em 2021 herdando o banco mais problemático de Wall Street, num cenário clássico do que os americanos chamam de “glass cliff” — o precipício de vidro: mulheres convocadas exatamente para os cargos que ninguém mais quer assumir, no momento em que a empresa está mais frágil. Cinco anos depois, o Citi reporta a maior receita trimestral em uma década, e a ação do banco já valorizou mais de 80% sob sua gestão. Fraser resume sua trajetória com uma frase seca, sem espaço para dúvida: nunca lhe faltou convicção de que aquele era o caminho certo. Não há gentileza performática nesse resultado — há números, e eles são a única resposta que ainda cala quem duvidou.

Do outro lado do Atlântico, Christine Lagarde segue como a nome mais cotado para assumir a presidência do Fórum Econômico Mundial, a instituição símbolo do poder econômico global, ainda tentando se reconstruir depois da saída conturbada de seu fundador. Lagarde carrega décadas de primeiros lugares que na verdade são primeiras vezes: primeira mulher a presidir a Baker McKenzie, primeira mulher ministra das Finanças de um país do G7, primeira mulher à frente do FMI. Ela já resumiu o que pensa sobre diversidade de liderança lembrando que homens e mulheres trazem perspectivas diferentes para o mundo dos negócios, inclusive na forma como lidam com risco. Não é retórica: é constatação de quem viveu dos dois lados da mesa de decisão.

Não é sobre ser dura, nem sobre negar afeto ou colaboração — Dagny ama profundamente, se permite vulnerabilidade, constrói pontes onde poderia só competir. Fraser fala abertamente sobre maternidade e sobre ter trabalhado meio período durante anos. O ponto é outro: nenhuma delas confunde ser gentil com ser dispensável. E é exatamente essa distinção que ainda falta a tantas mulheres em posições de liderança hoje: a certeza de que comprometer-se não é o mesmo que se anular.

Talvez o recado mais simples que fica, entre a distopia industrial de Rand, a comédia de trocas de papéis da Netflix e os nomes reais que estampam as manchetes desta semana, seja este: o mundo não desaba pela ausência de mulheres competentes. Desaba quando essas mulheres, cansadas de provar duas vezes o que bastaria provar uma, decidem que não vale mais a pena sustentar sozinhas o peso de um sistema que nunca as tratou como iguais.

Sustentar o Atlas tem um preço. A pergunta que toda liderança — feminina ou masculina — devia se fazer é: quem está pagando esse preço na sua empresa, e há quanto tempo ninguém pergunta se ela ainda topa continuar carregando.