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A força de quem sustenta a própria narrativa

Quando não atingimos o resultado esperado, a tendência é nos diminuirmos para preservar a aceitação

 (Ezra Shaw/Getty Images)

(Ezra Shaw/Getty Images)

Martha Leonardis
Martha Leonardis

CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 20h40.

Existe um momento delicado na vida de qualquer profissional de alta performance: o instante em que o resultado não corresponde à expectativa coletiva. É ali que se revela algo muito mais profundo do que talento, revela-se identidade.

Foi observando a postura de Eileen Gu que pensei sobre isso. Jovem, talentosa, construída sob enorme pressão internacional, ela é constantemente colocada diante de perguntas que carregam mais julgamento do que curiosidade.

Após conquistar a medalha de prata, veio a pergunta inevitável: não era esperado o ouro?

A armadilha estava posta. A expectativa implícita pedia uma justificativa, talvez um pedido de desculpas sutil, algo que aliviasse a frustração projetada por quem assistia.

Mas ela não se desculpou.

Falou sobre como as expectativas se transformam à medida que você acumula vitórias. Explicou que quanto mais se vence, mais difícil fica continuar vencendo. E afirmou, com serenidade, que é uma das maiores campeãs de sua modalidade.

Sem confronto. Sem justificativa defensiva. Sem diminuir a própria trajetória para acomodar a expectativa alheia.

O que vemos ali não é arrogância. É uma autoestima construída sobre consciência. Ela não estava negando a ambição de vencer. Estava apenas se recusando a permitir que o olhar externo reescrevesse a própria história.

O contraste é interessante quando lembramos de momentos semelhantes vividos por outros atletas. Após terminar em quarto lugar nas Olimpíadas do Rio, por exemplo, Simone Biles pediu desculpas publicamente por não ter entregado o ouro esperado em uma das finais. A pressão era imensa, a cobrança histórica, e sua reação foi assumir para si um peso que, muitas vezes, pertence muito mais à expectativa coletiva do que ao desempenho individual.

Esse movimento é humano. Quando não atingimos o resultado esperado, a tendência é nos diminuirmos para preservar a aceitação. Pedimos desculpas por não sermos perfeitos. Ajustamos a narrativa para não decepcionar. Tentamos aliviar o desconforto do outro, mesmo que isso custe nossa própria leitura da realidade.

E é aqui que a questão deixa de ser esportiva e passa a ser relacional.

Quantas vezes, no ambiente corporativo, alguém entrega um resultado sólido, mas começa a apresentação pedindo desculpas pelo que não foi perfeito? Quantas lideranças femininas, principalmente, suavizam conquistas para não parecerem confiantes demais? Quantos profissionais reformulam sua própria vitória para caber na expectativa emocional de quem está avaliando?

Autoestima estruturada não é sobre ignorar falhas. É sobre não permitir que a expectativa externa determine seu valor.

Em outra entrevista, ao ser questionada sobre a clareza de suas respostas, Eileen disse algo que considero profundamente sofisticado: nós podemos criar quem somos, e ela escolheu se tornar alguém que ela própria admiraria.

Essa frase muda a lógica da validação. Em vez de tentar corresponder ao que esperam dela, ela decidiu se orientar por um padrão interno de excelência.

Relacionamentos — sejam eles profissionais, afetivos ou públicos — se constroem a partir desse eixo interno. Quando reagimos com ataque, criamos confronto. Quando reagimos nos diminuindo, criamos assimetria. Mas quando nos posicionamos com consciência, criamos respeito.

Sustentar a própria narrativa não é rigidez. É maturidade.

Em um mundo movido por expectativas e julgamentos imediatos, talvez a habilidade mais poderosa não seja provar continuamente que somos suficientes, mas saber, com serenidade, que já somos.

E a partir desse lugar, nos posicionar.